Central de catadores pode ser expulsa de bairro nobre

Central de catadores pode ser expulsa de bairro nobre em São Paulo

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por Michelle Amaral da Silva última modificação 12/03/2009 17:29

Criada em 2003, o projeto chegou a ter 80 cooperados trabalhando na Granja Julieta, um dos bairros mais valorizados da cidade de São Paulo
Criada em 2003, o projeto chegou a ter 80 cooperados trabalhando na Granja Julieta, um dos bairros mais valorizados da cidade de São Paulo
12/03/2009

Joelma do Couto,
Revista Fórum

Os catadores de materiais recicláveis da Cooperativa de Catadores Granja Julieta Nossos Valores denunciam pressão da prefeitura e de comerciantes para retirar a central de coleta da região. A movimentação se acentuou a partir de 12 de dezembro de 2008, quando o local foi destruído por um incêndio que, segundo os integrantes da cooperativa, pode ter sido criminoso.

Criada em 2003, o projeto chegou a ter 80 cooperados trabalhando na Granja Julieta, um dos bairros mais valorizados da cidade de São Paulo. Ao lado de empreendimentos imobiliários de alto padrão, existem planos de construção de avenidas, parques e centros esportivos, incluido a da Ponte Burle Marx (para ligar o parque Burle Marx à avenida Professor Alceu Maynard de Araújo). Grupos imobiliários usam as possíveis intervenções futuras em seus anúncios para indicar que a região “também promete muita valorização” para seu novo investimento. Comerciantes e grupos políticos estariam pressionando a prefeitura a retirar definitivamente a central da região.
A sede, cedida pela subprefeitura de Santo Amaro, fica dentro de um terreno onde também funciona o almoxarifado da subprefeitura, na Avenida Professor Alceu Maynard de Araújo, 292. Mesmo sem ter esteiras e nem sobrepiso, a cooperativa é citada na página eletrônica da subprefeitura como exemplo de bons resultados.

“O trabalho silencioso realizado pelos catadores da Cooperativa da Granja Julieta trazia benefícios para o bairro que vão além da economia causada pelos materiais retirados do lixo e enviados para reciclagem”, sustenta Ana Maria Domingues Luz, presidente do Instituto GEA – Ética e Meio Ambiente “A cooperativa retirou muitas pessoas da rua e lhes deu oportunidade de trabalho e de inclusão na sociedade. Oportunidade de poder pagar por sua moradia, de manter seus filhos na escola”.

O subprefeito Geraldo Mantovani Filho (ex-prefeito de Águas de Lindóia) disse ser solidário a causa dos cooperados, mas sustenta ter sua ação limitada diante de grupos políticos que estariam atuando para impedir a reabertura da central, ainda que provisória.

Ana Maria Domingues Luz lamenta “Tudo isso está suspenso e correndo o risco de se perder totalmente, porque o governo municipal não concorda em emprestar um galpão sem uso para que os catadores possam voltar a trabalhar. Essa posição é absurda e cruel.”

Mara Lúcia Sobral Santos, que assumiu a presidência da cooperativa após o incêndio protesta: “Hoje, estamos aqui, mas já viemos de outro lugar, amanhã não sabemos, não temos direitos, principalmente se somos negros e negras. É um sentimento de dor e revolta, sinto-me como um bicho acuado, não um ser humano”.

Incêndio e desencontros Os cooperados da Granja Julieta que já estavam desde setembro sem salário em dia por causa da redução do valor pago pelos materiais recolhidos. Depois do incêndio, que segundo os cooperados, teve origem criminosa, a situação ficou pior. A Secretaria de Assistência Social não teria prestado apoio adequado, e as cestas básicas que deveriam ter sido oferecidas não foram liberadas. Segundo informações de funcionários da subprefeitura de Santo Amaro, a falha foi no sistema de planejamento de compras que levou a secretaria ao desabastecimento.

A cooperativa funciona vinculada à Secretaria de Serviços, o que acarreta alguns problemas. “A Coleta Seletiva é vista pela Secretaria de Serviços/Limpurb como um problema e não como uma solução”, lamenta Nina Orlow, da Agenda 21. Segundo ela, as subprefeituras que se envolvem e tentam ajudar esbarram na “estrutura de competências”, já que a Secretaria de Serviços promove ações de Educação Ambiental, consideradas precárias, desarticuladas e sem investimentos. “E a Educação Ambiental é o ponto fundamental na base para o sucesso dessa atividade”, pondera.

Todas as tentativas feitas pela subprefeitura de Santo Amaro para resolver o problema foram em vão. A transferência destes trabalhadores para outras centrais foram uma a uma abrindo outras feridas e deixando exposto toda a fragilidade e desrespeito com que é tratada educação Ambiental e a Inclusão Social na cidade de São Paulo.

Um dos destinos foi a central Miguel Yunes, que trabalha há cinco anos sem energia elétrica própria. A força vem “emprestada” pela Eco-urbis, pois a Limpurb e a subprefeitura impedem uma definição sobre em nome de quem a concessionária deve instalar a energia no local. Outro problema encontrado pelos cooperados de Miguel Yunes é ao esgoto que chega a se espalhar na área. Alguns cooperados estão trabalhando na central da Capela do Socorro, mas, no local não existe espaço para todos. A transferência de associados para centrais mais distantes mostrou-se inviável também, já que não há dinheiro para o transporte.

Fábio Luiz Cardoso sócio educador ,membro do Instituto GEA Ética e Meio Ambiente e da coordenação do Projeto de Coleta Seletiva Brasil Canadá está acompanhando o caso da cooperativa da Granja Julieta afirma que “Políticas de incentivo por parte do governo, municipal, federal e estadual as cooperativas de reciclagem são mais que necessárias a fim de manter um serviço essencial a população que é a coleta seletiva, a manutenção dos empregos gerados e o reconhecimento desta categoria no país”.
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2009-01-15

Protesto dos ciclistas na Paulista

por Mario Amaya

Dia maldito numa cidade maldita

“São Paulo é mesmo uma cidade maldita.” Eram os meus sentimentos desolados ao deixar a sede da editora Digerati, na Haddock Lobo, onde estava fazendo um frila, para reunir-me aos ciclistas que fariam o protesto e ato de memória pela morte da ciclista Márcia Regina de Andrade Prado, integrante do grupo ativista Bicicletada, atropelada de maneira estúpida e covarde por um ônibus na Avenida Paulista. Saí em meio a uma absurdamente intensa tempestade de verão, como se uma força maligna viesse tentar destruir qualquer esperança de expressão da raiva e luto dos colegas ciclistas. Minhas esperanças de que o ato fosse significativo desabavam junto com a torrente, pois achava que a chuva dispersaria o pessoal. Mas felizmente estava enganado. Em torno de 60 pessoas persistentes simplesmente não se importaram com o clima e fizeram uma ciclopasseata a partir da Praça do Ciclista, ponto de reunião da Bicicletada nas tardes de sexta-feira, que fica no penúltimo quarteirão da própria Av. Paulista. O grupo foi pedalando (e eu a pé) até o local da morte, na altura da ruína da mansão Matarazzo. Fecharam duas das três faixas da avenida e promoveram uma mistura de cerimônia e protesto. O clima, além de pesar, era de intensa raiva. A PM apareceu com motos, escopetas e palavras brutas, mas fez um acordo com os ciclistas. A polícia sabia que não era hora de iniciar ali uma guerra. Pois se fosse o caso, haveria quem lutasse; ciclistas já estão acostumados à ideia da desvantagem física em qualquer tipo de confronto urbano. Poderíamos ter chutado os veículos, nos deitado na avenida, sido presos. Em vez disso, trazíamos flores nas mãos. Uma pessoa de carro até tentou avançar nos manifestantes que ofereciam as flores aos motoristas que passavam pelo quase-bloqueio. Faltou muito pouco para não acontecer um incidente violento nesse instante. Mas houve paz e nada mais de ruim aconteceu. Velas foram acesas e colocadas num círculo de pétalas de rosas brancas e vermelhas no local do acidente, que quando chegamos já estava completamente lavado e isento de vestígios de sangue. O grupo fez uma roda, com elegias e orações. A chuva, mais fraca, insistia em não parar completamente. Depois de todos irem embora, dois cavaletes de madeira ficaram protegendo o monte de flores e velas no asfalto úmido. Guarda-chuva numa mão e câmera emprestada na outra, registrei o que vi.

O que aconteceu

O motorista que matou a Márcia fez, segundo testemunhas, uma clássica manobra ilegal de ônibus, que todo mundo já viu. Ele ultrapassou a ciclista, que vinha pedalando na faixa da direita. Antes que houvesse aberto espaço suficiente, o ônibus começou a retornar para a faixa, espremendo a ciclista contra o meio-fio, até derrubá-la por contato direto da lateral do veículo com o guidão da bike. Caída no piso, as rodas traseiras do ônibus passaram por cima da sua cabeça, causando morte instantânea.

Para adicionar um gigantesco insulto à injúria fatal, o corpo de Márcia ficou exposto no asfalto durante QUATRO HORAS no local mais importante da cidade.

O motorista do ônibus disse à imprensa que tem a consciência tranquila e não sente nenhuma culpa, que foi uma fatalidade. Errado. O Código de Trânsito estabelece distância lateral obrigatória mínima de 1,5 metro entre veículos e bicicletas. Com base na lei, ele é um criminoso. Cometeu homicídio culposo. Será processado por isso. Mas e o que se fará com os milhares de outros bárbaros que praticam a tal manobra impunemente todos os dias? De que maneira faremos que mudem seu pensamento e o seu comportamento, numa cidade onde a educação e a fiscalização são tão ineficazes? Todo ciclista urbano pode contar pelo menos uma história de agressão por ônibus, além das dezenas de pequenas más educações de cidadãos motorizados de todo tipo que testemunhamos, a cada saída nossa para a rua.

Veja que tudo o que se disse sobre a péssima relação entre motorizados e bikes é aplicável a pedestres, também. No mesmo dia, na mesma avenida, dois pedestres foram atropelados. Um deles morreu ali mesmo na rua. Portanto, enfie na cabeça: o problema é de todos. Não é problema de um grupo de ativistas. É problema de toda a cidade. É um problema social e cultural, acima de tudo. Simplesmente com respeito humano, mesmo com as ruas inadequadas que temos, crueldades gratuitas já não aconteceriam. Seriam evitáveis com um pouco a mais de civilização.

Falo de civilização sem chutar, com propriedade. Eu estive na Suíça. Em qualquer lugar da rua em Berna, onde eu fizesse apenas menção de botar o pé para fora da calçada, os carros paravam e esperavam tranquilos. Não precisava nem ser na faixa de travessia: isso valia em qualquer ponto da rua. Ouço dizerem que em cidades no Sul do Brasil os motoristas chegam a dar passagem a pedestres na faixa independentemente do semáforo, o que nem é algo especial, é simplesmente obedecer a lei. Por que nunca deu para cultivar um comportamento não-agressivo em São Paulo? Aqui há uma loucura coletiva e generalizada para queimar semáforos. E se você inventar de atravessar a pé, mesmo que na faixa e até com o semáforo a seu favor, o motorista cretino, que já chega a toda velocidade – porque estudou o trajeto de forma a saber onde há radar e onde ele pode abusar do acelerador – apenas buzina para que você fuja correndo da frente dele. É um desvio de comportamento público, uma falha de caráter geral do povo, que precisa ser resolvida na escola, na família e na mídia. É simples educação básica. Não estou pedindo nada impossível.

Ou isso, ou vamos ter cada vez mais proponentes de um estado policial, onde tudo só se resolve na base da multa, da coerção, da ameaça, da vigilância, da desconfiança.

Falta a simples aplicação do que diz o Código de Trânsito que está em vigor: os veículos maiores tem obrigação de proteger os menores. Os veículos menores têm prioridade, e os não-motorizados têm prioridade total. Sem discussão. Sem exceções. Cumpra-se a lei. Em vez disso, os maiores estão massacrando os menores, várias vezes por dia. O trânsito mata mais gente todo dia do que as principais doenças. É uma guerra. Quando escrevi numa lista de discussão contra os SUVs, teve gente que achou ruim. Mas uma causa primária de escolher um SUV para dirigir nas ruas congestionadas de São Paulo é exatamente intimidar os outros no trânsito e ocupar todos os espaços. Enquanto essa mentalidade brutalizada e prepotente persistir em ascensão, cada vez mais gente vai morrer inutilmente na rua.

Argumentos contra idiotas

Já vi em fóruns na Internet uma variedade de imbecis virem com argumentos para desencorajar o uso da bicicleta como transporte de rua. É o seguinte: a partir de agora, não praticarei mais a diplomacia. O sujeito que não quer que eu pedale na rua e não me respeita é meu inimigo. E será tratado como tal. Na minha opinião, os seus argumentos são imbecis, egoístas e desinformados. E não podem prevalecer. Devem ser combatidos e extintos.

Andar de bike é coisa de mauricinho – A realidade é exatamente ao contrário: o custo de acesso da bicicleta é baixíssimo. Tem bike para vender na entrada de todo supermercado. E todas as bikes, independentemente do modelo, têm o mesmo princípio de operação. O que a pessoa pedala é totalmente irrelevante no trânsito. O respeito deve ser igual para todos.

A rua não foi feita para acomodar bicicletas – É óbvio, caro mentecapto, que a rua não foi feita para acomodar bicicletas. A rua foi, sim, estabelecida para ser usada somente por veículos motorizados. Só que isso é um erro. Deve ser corrigido. Transportes alternativos precisam ser promovidos. O que temos na prática? A nova ponte estaiada em São Paulo, que alguns exibem como cartão-postal da cidade, não tem calçadas. A entrada de bicicletas nela está proibida. O projeto dela é exclusivamente para os carros particulares. Ônibus e caminhões também não podem usar a ponte. Mas tem uma coisa: a lei manda que exista acesso de todas as vias não subterrâneas a pedestres e ciclistas. A ponte foi construída contra a lei, na cara-dura. É preciso que isso nunca mais aconteça daqui em diante.

As bikes devem ficar fora da rua para dar espaço aos carros – É o mais comum e mais idiota dos argumentos dos energúmenos e trogloditas do volante. Minha resposta: o seu carro é caro, poluente, ineficiente e ocupa um espaço muito maior. Mesmo assim, eu não acho que você não tenha direito de trafegar. Não quero banir o seu carro da rua. Estou apenas demandando o uso socialmente responsável do veículo. A rua é para todos andarem nela, com o veículo que quiserem. Bicicleta é um tipo de veículo. Reconhecido e com normas próprias no Código de Trânsito. Estando isso esclarecido, faça o favor de calar a boca.

É preciso que façam mais ciclovias – Sim, este argumento foi contabilizado entre os idiotas. Antes que você se ofenda, fique claro um detalhe: não sou contra as ciclovias em si. Acontece que em São Paulo ciclovia ainda é um delírio, piada de mau gosto, promessinha de político demagogo e discurso vazio de pseudo-urbanista. E todo tipo de desinformados repete que o que os ciclistas querem é ciclovias. NÃO. Os ciclistas querem respeito. Separá-los em vias próprias não é pré-requisito. A nossa rede viária monstruosa, o volume de tráfego descontrolado, a topografia ingrata e os custos de construção impedem que se monte uma rede de ciclovias razoável em curto tempo. O problema mais básico não é estrutural. Repito: é um problema de atitude, de humanidade. Se eu precisar andar de bicicleta na rua, vou querer fazer isso agora, independentemente das obras viárias. Esperar que um dia passe uma ciclovia na porta de casa seria tão irreal quanto um motociclista esperar que se pintassem faixas exclusivas para motos. E, igualmente importante, não vou usar um carro por medo ou pressão social. O número de pessoas de cabeça aberta está aumentando, apesar do desestímulo da sociedade automobilítica ao uso da bicicleta como algo além de brinquedo de parque. Em países mais civilizados existe a ciclofaixa ou faixa compartilhada, que funciona porque as pessoas não tentam assassinar umas às outras usando seus veículos como armas.

É preciso ser maluco para pedalar em São Paulo – Estou completamente farto desta frase, que só sai da boca de pessoas ignorantes e acomodadas, que nunca pedalam, que demonstram incapacidade para pensar no assunto de maneira minimamente diferente do consenso burro do rebanho que entope as ruas. A cidade é uma porcaria para pedalar exatamente por causa dessa mentalidade de manada. A situação não está boa para ninguém, nem mesmo para os carros, que mal conseguem avançar com os congestionamentos cada vez maiores. Contudo, apesar dos obstáculos e ameaças contra as pessoas sem motor, 300 mil ciclistas em SP demonstram que viver pedalando é, sim, possível. A monocultura do automóvel individual, numa cidade como a minha, é um equívoco. Precisa mudar. E rápido. Quem sabe dentro de alguns anos, maluco seja considerado quem insiste em desperdiçar gasolina em engarrafamentos, enquanto as bicicletas passam por eles livres.

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