Carta aberta à comunidade da Instituição ifceana

Carta aberta à comunidade da Instituição ifceana

Na minha juventude, tive a felicidade de pertencer às ordens do Partido Comunista Brasileiro
(PCB), à época, clandestino. Tive a oportunidade ímpar de conviver com pessoas como Luís
Carlos Prestes (“O Cavaleiro da Esperança) e Gregório Bezerra (líder das ligas camponesas),
heróis do povo brasileiro. Em nossos encontros de formação, tive acesso aos primeiros
ensinamentos de Karl Marx. Lá, aprendi que “afora os grilhões, o proletariado não tem nada a
perder! Mas, tem um mundo a ganhar”. Reuniões clandestinas, codinomes, riscos de prisão
compunham o cenário de nossa vida cotidiana. Não posso dizer que isso não me provocava
temores. Enfrentei o medo e, como brasileiro, posso dizer: venci! Afinal, superamos os “anos
de chumbo” da ditadura militar.

De lá para cá, muita coisa mudou. Hoje, sou docente do Instituto Federal de Educação, Ciência
e Tecnologia do Ceará (IFCE), mestre em Educação e Doutor em Sociologia pela Universidade
Federal do Ceará (UFC). Porém, traços da minha juventude “rebelde” se mantêm no presente.
Em 16 anos de minha vida na Instituição ifceana, ninguém nunca me viu ou ouviu levantar uma
bandeira individual. As causas que abracei foram sociais. Quando achei ser necessário
defraudar bandeiras de greve, o fiz. Quando quase ninguém acreditava na volta do ensino
técnico integrado ao médio, defendemos, Junto ao Sindicato, essa modalidade de ensino como
um ideal a ser buscado. Hoje, ela é uma realidade.

Aprendi com Che Guevara o ato de indignar-se contra qualquer injustiça cometida. Não
interessa por quem o ato foi deferido e nem por quais poderes. Essa compreensão já me levou
a situações limite, me obrigando a confrontar com autoridades constituídas, com seus
aparatos institucionais ou repressivos. Foram tantos os confrontos que ficaria difícil enumerá-
los. Se quiserem saber, aprendi muito com a militância social.

O episódio ocorrido nas cercanias do Estádio Presidente Vargas, que culminou com minha
prisão por “desacato à autoridade” e o constrangedor uso das algemas ­ mesmo sem ter
motivos para tal, afinal não esbocei qualquer reação à abordagem policial ­, só se explica pelo
caráter autoritário da polícia, herdado do período da ditadura militar.

Não obstante, esses fatos não me abalaram minimamente. Eles não são nada frente à
indignação provocada pela felicidade de autoridades que compõem o staf diretivo do IFCE. A
alegria foi tamanha que não tiverem o menor escrúpulo de fazer eco da fotografia de minha
prisão e de me detratar publicamente rotulando-me de “bandido”. Palavras chulas, deslocadas
dos fatos, como “Liderança da Greve do IFCE, não consegue convencer seus pares e recebe um
par de algemas” e expressões como “lugar de bandido é na cadeia” evidenciam a ausência
mínima de moralidade. Essas posturas aéticas permitem dar vida à máxima maquiavélica: “os
fins justificam os meios”. Parece que o temor provocado por uma derrota eminente lhes
corroeu o caráter.

Meu maior crime foi o de ter afirmado ser candidato a reitor. A proposta, constituída a várias
mãos, aponta para o exercício direto da democracia, controle público de gastos, orçamento
participativo, escolha de diretores gerais dos campi e de funções gratificadas pelos pares,
humanização da gerência de Recursos Humanos, assistência estudantil na forma da lei etc.

Com os índios de Xiapas, aprendi um ensinamento: lutar contra os poderosos e, ao mesmo
tempo, abrir mão do exercício de poder. Dividir o poder é um exercício que requer acertos e
erros, idas e vindas… Atendendo aos apelos familiares, declino irremediavelmente de minha
candidatura a reitor. Aos meus detratores deixo um ensinamento: Maquiavel estava
equivocado. A história já nos ensinou que os meios são tão importantes quanto os fins.

Fortaleza, 16 de fevereiro de2012.
Marcelo Santos Marques

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