Um episódio na vida de Joana

Um episódio na vida de Joana

Tarcisio Praciano Pereira

Joana deveria ter ido à escola hoje de manhã, mas acordou com dor de
cabeça, com um súbito mal estar e decidiu que não seria
interessante comparecer ás aulas.

Joana estuda num colégio privado, e dizem que as empresas
privadas são melhores que as públicas, mas tem dias que
Joana não sente o menor prazer em ir estudar.

Mas a escola seria um ambiente de expansão das experiências,
de crescimento intelectual, de convivência frutífera
entre pessoas de uma mesma faixa etária, neste caso,
pessoas em franco desenvolvimento, cheias de energia,
com um grande potencial pela frente, e o colégio privado, como
todas as empresas privadas são melhores que as públicas,
mas Joana algumas vezes se sente sem vontade de comparecer
a este local efervescente, delirante, cheio de oportunidades
de desenvolvimento.

Não! eu estou raciocinando contra o lógico! Se o colégio
privado fosse este ambiente produtivo, frutífero propiciando
as condições para um desenvolvimento saudável, Joana, todos
os dias, estaria acordando excitada ante as possibilidades
de novas oportunidades que iria encontra em seu ambiente
privado de ensino, que seria muito melhor do que as escolas
públicas, estas, sim, consideradas de baixa qualidade e
destituídas de qualquer forma de estímulo para o alunado.

Então a lógica tem que ser outra, Joana, nem sempre consegue
ver no colégio privado, que frequenta, um ambiente proveitoso
a ponto de preferir ficar em casa, sendo a indisposição uma
forma de justificar um dia longe das colegas, longe dos
professores nem sempre atenciosos. O colégio privado na
verdade é uma réplica, apenas melhor pintada, possivelmente
com sanitários menos mal cheirosos, e com professoras com
aparência menos desorganizada, mental e físicamente, que os prédios, os uténsilios ou as pessoas que
se podem encontrar
nos colégios públicos. Porque os governos detestam
a Escola Pública e apenas a
suportam porque há uma grita intensa para que seja mantida.

Afinal, Educação, como Água, Sementes, Terra, Comida, Moradia,
Saúde, enfim, tudo, tem que ser, pura e simplesmente objeto de
consumo, artigos de comércio. Neste contexto a Escola Pública
é um estorvo. Mas a escola privada tem apenas aspecto melhor,
no fundo é tão chata quanto à Escola Pública.

Quem condiciona tudo isto é uma pequena clique de governantes
que representam, indevidamente, uma pequena parcela de seres humanos
que formam o centro do capitalismo e que conseguem manter os
cordões com que manipulam as marionetes, os assim chamados governantes,
se movendo no palco do poder e mantendo o rumo incerto e sufocante
do chamado “desenvolvimento” com frequência modificado por um
adjetivo vázio e enganador: “sustentável”.

Mas Joana, assim como todos os outros jovens, merecem outra coisa.
Nós merecemos todos outra coisa baseado no futuro que irá sair
das mãos destes que agora são jovens e se encontram em formação
para gerir este futuro. Como elas, as jovens colegas de Joana e eles,
os jovens colegas de Joana, se encontram neste “desenvolvimento” nada
saudável, seja os que estão nas escolas privadas, ou aqueles que sofrem
de forma igual nas Escolas Públicas, teremos como consequência
um futuro sómbrio porque estes jovens todos estão aprendendo
apenas uma arte grotesca, o sado-masoquismo e, o que pior, teremos
muito mais destes doentes mentais povoando o palco do poder, como
futuras marionetes, dançando pelos dedos de uns poucos. Estes,
os que mexem os cordões serão sempre poucos, em quantidade muito
menor do que as bonecas que se balançam no palco.

Temos que romper este ciclo vicioso, liberar os jovens para nos
garantir a nós todos um desenvolvimento harmônico. Sim, a Escola,
que não pode ser privada, mas apenas Pública, de qualidade, um
local de liberdade e crítica para formar cidadãs e cidadãos para
a Sociedade.

Corrigir a Escola é uma forma de fazer uma revolução menos sagrenta do
que a que teremos inevitavelmente, se este “desenvolvimento insustentável”
continuar a ser encenado no palco pelas marionetes políticas.

Fica aqui registrado o meu lamento pelas Joanas e Joãos que sofrem diariamente nas Escolas um ensino
deturpado ou deturpante, que eu sei, nem sempre é
assim tão generalizado, mas tenho certeza, sim, que
é terrivelmente significativo. Pobre juventude, e
pobres nós todos. O que é terrível é constatar que
eu estou dizendo, com outras palavras o que já disse
outrora, há mais de um século, Guerra Junqueiro, o
famoso poeta português. Suas palavras eram na
aparência diferentes das minhas, mas estamos dizendo
eu, ele, a mesma coisa. Guerra Junqueiro tem um
poema sobre as crianças na Escola que vale a pena
ser lido.

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