Uma apresentação de Graham Nash em apoio ao quebrador de segredos

Tentei comprar ingresso e estavam todos vendidos

Tarcisio Praciano-Pereira

Uma apresentação de Graham Nash em apoio a Bradley Manning

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A vida do sedentário lhe promete o dobro dos riscos em acidentes cardiovasculares.

Two Wheels and High Heels

De   Christine Grant on January 23, 2012 at 10:08 am

Tradução livre de Tarcisio Praciano-Pereira

Primeiro, em Seattle, o dilema era que tipo de carro comprar. Eu (Christine) voltei para Seattle quando terminei a Unversidade e tomei uma decisão, a de experimentar a bicicleta enquanto muito dos meus amigos estavam comprando estes novos carros individuais. Eu tentei a bicicleta.

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Tentei a bicicleta e fiquei enamorada dela. Pedalar na cidade me livrou de ônigus lentos, de medidores de estacionamento ou dos carrinhos-miniaturas em que a gente termina se sentido realmente enlatada. Passei a chegar ao trabalho com mais energia, até perdi logo peso, imaginem!  Descobri pequenos restaurantes perdidos na vizinhança e, prestem atenção, comecei a sentir os odores das comidas caseiras por onde passava e até o cheiro das máquinas de lavar.

Aqui o tradutor não se contém, o texto de Christine Grant o faz lembrar a poesia cantada do Sanfoneiro do Nordeste, o imortal Luiz Gonzaga

Automóvel lá não se sabe
se é hômi ou se é muié
quem é rico anda em burrico
quem é pobre anda a pé.
Mas o pobre vê nas estradas
o orvalho beijando a flô
vê de perto o galo campina
que quando canta muda de cor.
Vai molhando os pés no riacho
-que água fresca, Nosso Senhor-
Vai olhando coisa a grané
coisas que prá mode vê
o crsitão tem que andar a pé.
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
e a gente andando a pé.
Ai , ai , que bom
Que bom, que bom que é
uma estrada e a lua branca
no sertão de Canindé.
 
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E um sinal pequeno, próprio para as bicicletas, que abre em tempo diferenciado permitindo que as bicicletas saiam na frente e traduzindo o respeito que a municipalidade de Copenhague têm pelas bicicletas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

It’s safer than a sofa. Mais seguro que um sofá.

Sedentary living doubles the risk of cardiovascular diseases.

A vida do sedentário lhe oferece o dobro dos riscos em matéria de acidentes cardiovasculares.

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Para reduzir os riscos de uma vida sedentária é preciso uma média de 30 minutos de exercícios moderados ao diário o que um tempo que as pessoas não conseguem encontrar. Porque não aceitar um convite que insistentemente vem sendo feito a partir de muitas fontes, em particular dos que lutam pela defesa ecológica do mundo, ou por aqueles que simplesmente entendem que o tráfego urbano tocado a quatro rodas está se tornando insuportável? Os 30 minutos de exercícios podem acontecer enquanto você prazeirosamente se desloca de casa para o trabalho, sem correr, sem suar, sem grandes estresses. E se conseguirmos alterar o esquema, todos juntos, uníssonos em defesa do meio ambiente ou da convivência urbana, poderiamos ter a segurança que todos precisamos para produzir esta transformação urbana que é urgente.

Em Barcelona se pode ver um contador de bicicletas

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Não foi atôa que a municipalidade de Barcelona colocou um contador de bicicletas. Era preciso contarpara estimular, porque ninguém que tenha cabeça pode aceitar a loucura infernal produzida pelos carros na convivência urbana.  O primeiro passo tem que ser o de abrir as possibilidades para o ciclista, que todos somos, desde crianças.  Apenas precisamos que nos seja separado um espaço confortável e respeitável, não ciclovias resumidas e confinantes, mas a metade do espaço nas vias públicas. E já tem soluções implantadas como na foto abaixo

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Na Dinamarca, com certeza.  Os carros estacionam à direita da ciclovia e desta forma se transformam numa barreira de proteção para os ciclistas, ninguém melhor do que os Dinamarqueses para encontrar uma utilização certa para carros…

Esta abaixo também é de Copenhague, a foto foi mal feita (e não fui eu o fotógrafo), parte da bela ciclista se perdeu, mas o que a fotógrafa queria mostrar era o suporte para os pés das ciclistas que
 existem em vários do sinais de Copenhague. Você pode ler o que a municipalidade escreveu: “Ola ciclista, apoie seu pé aqui enquanto espera pelo sinal”  é uma forma agradável, educada, civilizada de educar para o trágego… para evitar a forma alternativa, típica do mundo de carros, feita com máquinas eletrônicas-caça-níquel sequiosas que as motoristas ultrapassem a velocidade para absorver mais uma multa. Não fica visível na foto, mas a ciclista pode se apoiar também com a mão pois existe um apoio manual.

 

 

 

 

 

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Bicicletas no mundo afora, menos aqui no Brasil

O medo, a insegurança no trânsito, impede que sejamos campeões de bicicleta nas ruas

Tarcisio Praciano-Pereira

Em Kyoto, Japão, de bicicleta

Em Kyoto, Japão, de bicicleta

Até no Japão onde se diz que a tecnologia e máquina dominam, a população vem aderindo progressivamente ao meio de transporte que já foi muito significativo entre os japones, e que agora retorna com todas as forças.

Ainda em Kyoto, com filhos na bicicleta

Em Nova Yorque, de paletó, na bicicleta

Em Nova Yorque, de paletó, na bicicleta

E na capital financeira do mundo, Nova Yorque, pelo menos por enquanto (enquanto Pequim não engrossa definitivamente a voz), se anda de bicicleta vestido a rigor.

Bicileta e carro de crianças, na Suécia

Bicileta e carro de crianças, na Suécia

A Suécia, a Dinamarca, a Bélgica (e algumas cidades da Itália) empatam com a Holanda, apenas a Holanda é mais famosa pela quantidade imensa de bicicletas que rolam em Amsterdam. Aqui a bicicleta substitui um carrinho de bebês, com muitas vantagens.

Vale,  mesmo que seja de bicicleta elétrica

Vale, mesmo que seja de bicicleta elétrica

E afinal sempre se pode alegar que faltem forças apelando para uma bicicleta elétrica, o gasto e a poluição ainda são menores do que se fosse um carro elétrico. E de bicicleta elétrica não se perde em velocidade para carro no trânsito urbano onde a velocidade (urbana) não pode passar dos 40km/h.

Tem bicicleta-cargo, também, no Japão

Tem bicicleta-cargo, também, no Japão

É, no Japão tem bici-cargo.

Estacionamento para veículos não poluentes, na Holanda, por certo.

Estacionamento para veículos não poluentes, na Holanda, por certo.

Tinha que ser na Holanda, mais exatamente em Amsterdam, para que pudessemos encontrar uma garagem destas para bicicletas.

Medo é o principal fator inibidor do uso da bicicleta como transporte

Tarcisio Praciano-Pereira

Um estudo dirigido pelo pesquisador Luiz Augusto Ritta, que escutou 1.136 pessoas, em sua maioria estudantes da UFRGS em idade até 24 anos (64%) apontou como causa principal inibidora do uso da bicicleta como transporte urbano é o medo.

Eu mesmo fiquei um pouco apavorado, neste domingo passado, quando voltava de bicicleta dum supermercado situado no bairro em que estava hospedado, em Fortaleza, quando um carro, ocupado aparentemente por jovens, freiou ruidosamente por trás de mim indicando que vinha à alta velocidade dentro de uma pequena artéria do bairro, exatamente em frente à saída do supermercado, na cidade 2000. Os ocupantes do carro, aos berros, logo depois de ultrapassarem-me, agrediram-me com palavras de baixo calão ao mesmo tempo que diziam que eu deveria me retirar com aquela coisa do meio da rua. Em suma, alto desrespeito por um cidadão que trafega em bicicleta em uma área urbana de tráfego lento, uma vez que se situava no interior de um bairro, nas vizinhanças de um supermercado e próximo à praça central do bairro onde grande quantidade de pessoas ficam sentadas conversando,  bebericando ou simplesmente passam o tempo com amigos.

Dentre as principais finalidades apontadas pelos estudantes que usaram a bicicleta nos últimos seis meses se encontram  Lazer/Recreação (45,9%), Meio de Transporte (45,1%) e Esporte (9%). Para eles, o principal fator que motiva o uso da bicicleta é o fato de essa ser uma prática saudável. Outros fatores motivantes para o uso estão relacionados ao fato de a bicicleta ser um transporte menos poluente,   mais barato que os demais, além de contribuir para melhorias no trânsito.

Entre os estudantes que afirmaram evitar a bicicleta nos últimos seis meses (68,8% do total de entrevistados) o principal motivo, para não usar a bicicleta, é o medo de acidentes, seguido pelo medo de assaltos. Outros fatores inibidores relacionados são  falta de segurança, carência de ciclovias/ciclofaixas e ausência de locais para estacionar as bicicletas. Uma observação interessante relevo e clima não foram considerados entre os principais inibidores do uso. 

O guia para desenvolver o ciclismo que você pode encontrar no link abaixo

http://www.efetividade.net/2012/10/23/bicicleta-trabalho/

aponta como fator importante para estimular o uso de biclicletas como transporte urbano é a presença de locais apropriados para guardar a bicicleta junto com proteção para o ciclista no meio do trânsito. Ir de bicicleta para o trabalho é uma prática que pode ser saudável, ecológica, socialmente responsável, sustentável, econômica e até representar menos tempo de deslocamento, dependendo das condições de trânsito de onde você mora e trabalha, tenho encontrado diversos depoimentos indicando que de bicicleta se vai mais rápido num raio de 10 km. Eu moro à 5 km do meu local de trabalho, um dos campus da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral, e já fiz a experiência de ir de casa (e voltei vivo) para o trabalho em bicicleta. Os sustos foram grandes e não pretendo repetir a experiência tão cedo, mas bem que gostaria de adotar a bicicleta como meio de transporte na cidade.

O estudo feito com estudantes da UFRGS aponta que um dos principais fatores que poderiam influenciá-los a usar a bicicleta como transporte urbano seria  o respeito ao ciclista no trânsito e o aumento da malha cicloviária na cidade. Também foi indicada a melhoria da infraestrutura da cidade sobretudo na maior oferta de locais de guarda de bicicletas, integração com outros modos de transporte e existência de estações de empréstimo/aluguel de bicicletas. Em outras cidades pelo mundo esta prática do empréstimo/aluguel de bicicletas pela municipalidade representa um forte estímulo ao começo da prática do ciclismo, facilmente você pode verificar isto num passeio pela Internet.

A imagem abaixo, tirada da reportagem que fala do estudo em Porto Alegre com estudantes da UFRGS sobre o uso da bicicleta no trânsito urbano, mostra a incoerência entre o uso de um transporte eficiente, limpo em que o usuário se vê forçado a conviver com dezenas de automóveis que lhe poluem o ar e neste caso aumentando significamente a infusão de poluentes uma vez que o ciclista se encontra em pleno exercício respiratório.

ciclista no congestionamento do trânsito

ciclista em exercícios respiratórios, no congestionamento, em meio à poluição dos carros

Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui

por ELIANE BRUM

“Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui”

 

A declaração de morte coletiva feita por um grupo de Guaranis-Kaiowás demonstra a incompetência do Estado brasileiro para cumprir a Constituição de 1988 e mostra que somos todos cúmplices de genocídio – uma parte de nós por ação, outra por omissão

 
 
“Pedimos ao Governo e à Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas decretar nossa morte coletiva e enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar nossa extinção/dizimação total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar nossos corpos. Este é o nosso pedido aos juízes federais.” 
O trecho pertence à carta de um grupo de 170 indígenas que vivem à beira de um rio no município de Iguatemi, no Mato Grosso do Sul, cercados por pistoleiros. As palavras foram ditadas em 8 de outubro ao conselho Aty Guasu (assembleia dos Guaranis-Kaiowás), após receberem a notícia de que a Justiça Federal decretou sua expulsão da terra. São 50 homens, 50 mulheres e 70 crianças. Decidiram ficar. E morrer como ato de resistência – morrer com tudo o que são, na terra que lhes pertence.
Há cartas, como a de Pero Vaz de Caminha, de 1º de maio de 1500, que são documentos de fundação do Brasil: fundam uma nação, ainda sequer imaginada, a partir do olhar estrangeiro do colonizador sobre a terra e sobre os habitantes que nela vivem. E há cartas, como a dos Guaranis-Kaiowás, escritas mais de 500 anos depois, que são documentos de falência. Não só no sentido da incapacidade do Estado-nação constituído nos últimos séculos de cumprir a lei estabelecida na Constituição hoje em vigor, mas também dos princípios mais elementares que forjaram nosso ideal de humanidade na formação do que se convencionou chamar de “o povo brasileiro”. A partir da carta dos Guaranis-Kaiowás, tornamo-nos cúmplices de genocídio. Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é. 
Os Guaranis-Kaiowás avisam-nos por carta que, depois de tantas décadas de luta para viver, descobriram que agora só lhes resta morrer. Avisam a todos nós que morrerão como viveram: coletivamente, conjugados no plural. 
Nos trechos mais pungentes de sua carta de morte, os indígenas afirmam: 
– Queremos deixar evidente ao Governo e à Justiça Federal que, por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo. Não acreditamos mais na Justiça Brasileira. A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas? Para qual Justiça do Brasil? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos, mesmo, em pouco tempo. Não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados a 50 metros do rio Hovy, onde já ocorreram 4 mortes, sendo que 2 morreram por meio de suicídio, 2 em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um ano. Estamos sem assistência nenhuma, isolados, cercados de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia a dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay. De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários de nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali está o cemitérios de todos os nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser mortos e enterrados junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje. (…) Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.
Como podemos alcançar o desespero de uma decisão de morte coletiva? Não podemos. Não sabemos o que é isso. Mas podemos conhecer quem morreu, morre e vai morrer por nossa ação – ou inação. E, assim, pelo menos aproximar nossos mundos, que até hoje têm na violência sua principal intersecção. 
 
Desde o ínicio do século XX, com mais afinco a partir do Estado Novo (1937-45) de Getúlio Vargas, iniciou-se a ocupação pelos brancos da terra dos Guaranis-Kaiowás. Os indígenas, que sempre viveram lá, começaram a ser confinados em reservas pelo governo federal, para liberar suas terras para os colonos que chegavam, no que se chamou de “A Grande Marcha para o Oeste”. A visão era a mesma que até hoje persiste no senso comum: “terra desocupada” ou “não há ninguém lá, só índio”.  
Era de gente que se tratava, mas o que se fez na época foi confiná-los como gado, num espaço de terra pequeno demais para que pudessem viver ao seu modo – ou, na palavra que é deles, Teko Porã (“o Bem Viver”). Com a chegada dos colonos, os indígenas passaram a ter três destinos: ou as reservas, ou trabalhar nas fazendas como mão de obra semiescrava ou se aprofundar na mata. Quem se rebelou foi massacrado. Para os Guaranis-Kaiowás, a terra a qual pertencem é a terra onde estão sepultados seus antepassados. Para eles, a terra não é uma mercadoria – a terra é. 
Na ditadura militar, nos anos 60 e 70, a colonização do Mato Grosso do Sul se intensificou. Um grande número de sulistas, gaúchos mais do que todos, migrou para o território para ocupar a terra dos índios. Outros despacharam peões e pistoleiros, administrando a matança de longe, bem acomodados em suas cidades de origem, onde viviam – e vivem até hoje – como “cidadãos de bem”, fingindo que não têm sangue nas mãos.  
Com a redemocratização do país, a Constituição de 1988 representou uma mudança de olhar e uma esperança de justiça. Os territórios indígenas deveriam ser demarcados pelo Estado no prazo de cinco anos. Como sabemos, não foi. O processo de identificação, declaração, demarcação e homologação das terras indígenas tem sido lento, sensível a pressões dos grandes proprietários de terras e da parcela retrógrada do agronegócio. E, mesmo naquelas terras que já estão homologadas, em muitas o governo federal não completou a desintrusão – a retirada daqueles que ocupam a terra, como posseiros e fazendeiros –, aprofundando os conflitos. 
 
Nestas últimas décadas testemunhamos o genocídio dos Guaranis-Kaiowás. Em geral, a situação dos indígenas brasileiros é vergonhosa. A dos 43 mil Guaranis-Kaiowás, o segundo grupo mais numeroso do país, é considerada a pior de todas. Confinados em reservas como a de Dourados, onde cerca de 14 mil, divididos em 43 grupos familiares, ocupam 3,5 mil hectares, eles encontram-se numa situação de colapso. Sem poder viver segundo a sua cultura, totalmente encurralados, imersos numa natureza degradada, corroídos pelo alcoolismo dos adultos e pela subnutrição das crianças, os índices de homicídio da reserva são maiores do que em zonas em estado de guerra.  
A situação em Dourados é tão aterradora que provocou a seguinte afirmação da vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat: “A reserva de Dourados é talvez a maior tragédia conhecida da questão indígena em todo o mundo”. Segundo um relatório do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), que analisou os dados de 2003 a 2010, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes – no Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil. Comparado à média brasileira, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495% maior.  
A cada seis dias, um jovem Guarani-Kaiowá se suicida. Desde 1980, cerca de 1500 tiraram a própria vida. A maioria deles enforcou-se num pé de árvore. Entre as várias causas elencadas pelos pesquisadores está o fato de que, neste período da vida, os jovens precisam formar sua família e as perspectivas de futuro são ou trabalhar na cana de açúcar ou virar mendigos. O futuro, portanto, é um não ser aquilo que se é. Algo que, talvez para muitos deles, seja pior do que a morte. 
Um relatório do Ministério da Saúde mostrou, neste ano, o que chamou de “dados alarmantes, se destacando tanto no cenário nacional quanto internacional”. Desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. No Brasil, o índice de suicídios em 2007 foi de 4,7 por 100 mil habitantes. Entre os indígenas, no mesmo ano, foi de 65,68 por 100 mil. Em 2008, o índice de suicídios entre os Guaranis-Kaiowás, chegou a 87,97 por 100 mil, segundo dados oficiais. Os pesquisadores acreditam que os números devem ser ainda maiores, já que parte dos suicídios é escondida pelos grupos familiares por questões culturais. 
As lideranças Guaranis-Kaiowás não permaneceram impassíveis diante deste presente sem futuro. Começaram a se organizar para denunciar o genocídio do seu povo e reivindicar o cumprimento da Constituição. Até hoje, mais de 20 delas morreram assassinadas por ferirem os interesses privados de fazendeiros da região, a começar por Marçal de Souza, em 1983, cujo assassinato ganhou repercussão internacional. Ao mesmo tempo, grupos de Guaranis-Kaiowás abandonaram o confinamento das reservas e passaram a buscar suas tekohá, terras originais, na luta pela retomada do território e do direito à vida. Alguns grupos ocuparam fundos de fazendas, outros montaram 30 acampamentos à beira da estrada, numa situação de absoluta indignidade. Tanto nas reservas quanto fora delas, a desnutrição infantil é avassaladora. 
A trajetória dos Guaranis-Kaiowás que anunciaram sua morte coletiva ilustra bem o destino ao qual o Estado brasileiro os condenou. Homens, mulheres e crianças empreenderam um caminho em busca da terra tradicional, localizada às margens do Rio Hovy, no município de Iguatemi (MS). Acamparam em sua terra no dia 8 de agosto de 2011, nos fundos de fazendas. Em 23 de agosto foram atacados e cercados por pistoleiros, a mando dos fazendeiros. Em um ano, os pistoleiros já derrubaram dez vezes a ponte móvel feitas por eles para atravessar um rio com 30 metros de largura e três de fundura. Em um ano, dois indígenas foram torturados e mortos pelos pistoleiros, outros dois se suicidaram.  
Em tentativas anteriores de recuperação desta mesma terra, os Guaranis-Kaiowás já tinham sido espancados e ameaçados com armas de fogo. Alguns deles tiveram seus olhos vendados e foram jogados na beira da estrada. Em outra ocasião, mulheres, velhos e crianças tiveram seus braços e pernas fraturados. O que a Justiça Federal fez? Deferiu uma ordem de despejo. Em nota, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) afirmou que “está trabalhando para reverter a decisão”. 
Os Guaranis-Kaiowás estão sendo assassinados há muito tempo, de todas as formas disponíveis, as concretas e as simbólicas. “A impunidade é a maior agressão cometida contra eles”, afirma Flávio Machado, coordenador do CIMI no Mato Grosso do Sul. Nas últimas décadas, há pelo menos duas formas interligadas de violência no processo de recuperação da terra tradicional dos indígenas: uma privada, das milícias de pistoleiros organizadas pelos fazendeiros; outra do Estado, perpetrada pela Justiça Federal, na qual parte dos juízes, sem qualquer conhecimento da realidade vivida na região, toma decisões que não só compactuam com a violência , como a acirram.  
“Quando os pistoleiros não conseguem consumar os despejos e massacres truculentos dos indígenas, os fazendeiros contratam advogados para conseguir a ordem de despejo na Justiça”, afirma Egon Heck, indigenista e cientista político, num artigo publicado em relatório do CIMI. “No momento em que ocorre a ordem de despejo, os agentes policiais agem de modo similar ao dos pistoleiros, visto que utilizam armas pesadas, queimam as ocas, ameaçam e assustam as crianças, mulheres e idosos.”  
Ao fundo, o quadro maior: os sucessivos governos que se alternaram no poder, após a Constituição de 1988, foram incompetentes para cumpri-la. Ao final de seus dois mandatos, Lula reconheceu que deixava o governo com essa dívida junto ao povo Guarani-Kaiowá. Legava a tarefa à sua sucessora, Dilma Rousseff. Os indígenas escreveram, então, uma carta: “Presidente Dilma, a questão das nossas terras já era para ter sido resolvida há décadas. Mas todos os governos lavaram as mãos e foram deixando a situação se agravar. Por ultimo, o ex-presidente Lula prometeu, se comprometeu, mas não resolveu. Reconheceu que ficou com essa dívida para com nosso povo Guarani-Kaiowá e passou a solução para suas mãos. E nós não podemos mais esperar. Não nos deixe sofrer e ficar chorando nossos mortos quase todos os dias. Não deixe que nossos filhos continuem enchendo as cadeias ou se suicidem por falta de esperança de futuro (…) Devolvam nossas condições de vida que são nossos tekohá, nossas terras tradicionais. Não estamos pedindo nada demais, apenas os nossos direitos que estão nas leis do Brasil e internacionais”. 
A declaração de morte dos Guaranis-Kaiowás ecoou nas redes sociais na semana passada. Gerou uma comoção. Não é a primeira vez que indígenas anunciam seu desespero e seu genocídio. Em geral, quase ninguém escuta, para além dos mesmos de sempre, e o que era morte anunciada vira morte consumada. Talvez a diferença desta carta é o fato de ela ecoar algo que é repetido nas mais variadas esferas da sociedade brasileira, em ambientes os mais diversos, considerado até um comentário espirituoso em certos espaços intelectualizados: a ideia de que a sociedade brasileira estaria melhor sem os índios. 
Desqualificar os índios, sua cultura e a situação de indignidade na qual vive boa parte das etnias é uma piada clássica em alguns meios, tão recorrente que se tornou quase um clichê. Para parte da elite escolarizada, apesar do esforço empreendido pelos antropólogos, entre eles Lévi-Strauss, as culturas indígenas ainda são vistas como “atrasadas”, numa cadeia evolutiva única e inescapável entre a pedra lascada e o Ipad – e não como uma escolha diversa e um caminho possível. Assim, essa parcela da elite descarta, em nome da ignorância, a imensa riqueza contida na linguagem, no conhecimento e nas visões de mundo das 230 etnias indígenas que ainda sobrevivem por aqui. 
Toda a História do Brasil, a partir da “descoberta” e da colonização, é marcada pelo olhar de que o índio é um entrave no caminho do “progresso” ou do “desenvolvimento”. Entrave desde os primórdios – primeiro, porque teve a deselegância de estar aqui antes dos portugueses; em seguida, porque se rebelava ao ser escravizado pelos invasores europeus. A sociedade brasileira se constituiu com essa ideia e ainda que a própria sociedade tenha mudado em muitos aspectos, a concepção do índio como um entrave persiste. E persiste de forma impressionante, não só para uma parte significativa da população, mas para setores do Estado, tanto no governo atual quanto nas gestões passadas.  
 “Entraves” precisam ser removidos. E têm sido, de várias maneiras, como a História, a passada e a presente, nos mostra. Talvez essa seja uma das explicações possíveis para o impacto da carta de morte ter alcançado um universo maior de pessoas. Desta vez, são os índios que nos dizem algo que pode ser compreendido da seguinte forma: “Então é isso o que vocês querem? Nos matar a todos? Então nós decidimos: vamos morrer”. Ao devolver o desejo a quem o deseja, o impacto é grande.  
É importante lembrar que carta é palavra. A declaração de morte coletiva surge como palavra dita. Por isso precisamos compreender, pelo menos um pouco, o que é a palavra para os Guaranis-Kaiowás. Em um texto muito bonito, intitulado Ñe’ẽ – a palavra alma, a antropóloga Graciela Chamorro, da Universidade Federal da Grande Dourados, nos dá algumas pistas: 
“A palavra é a unidade mais densa que explica como se trama a vida para os povos chamados guarani e como eles imaginam o transcendente. As experiências da vida são experiências de palavra. Deus é palavra. (…) O nascimento, como o momento em que a palavra se senta ou provê para si um lugar no corpo da criança. A palavra circula pelo esqueleto humano. Ela é justamente o que nos mantém em pé, que nos humaniza. (…) Na cerimônia de nominação, o xamã revelará o nome da criança, marcando com isso a recepção oficial da nova palavra na comunidade. (…) As crises da vida – doenças, tristezas, inimizades etc. – são explicadas como um afastamento da pessoa de sua palavra divinizadora. Por isso, os rezadores e as rezadoras se esforçam para ‘trazer de volta’, ‘voltar a sentar’ a palavra na pessoa, devolvendo-lhe a saúde.(…) Quando a palavra não tem mais lugar ou assento, a pessoa morre e torna-se um devir, um não-ser, uma palavra-que-não-é-mais. (…) Ñe’ẽ e ayvu podem ser traduzidos tanto como ‘palavra’ como por ‘alma’, com o mesmo significado de ‘minha palavra sou eu’ ou ‘minha alma sou eu’. (…) Assim, alma e palavra podem adjetivar-se mutuamente, podendo-se falar em palavra-alma ou alma-palavra, sendo a alma não uma parte, mas a vida como um todo.” 
A fala, diz o antropólogo Spensy Pimentel, pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da Universidade de São Paulo, é a parte mais sublime do ser humano para os Guaranis-Kaiowás. “A palavra é o cerne da resistência. Tem uma ação no mundo – é uma palavra que age. Faz as coisas acontecerem, faz o futuro. O limite entre o discurso e a profecia é tênue.”
Se a carta de Pero Vaz de Caminha marca o nascimento do Brasil pela palavra escrita, é interessante pensar o que marca a carta dos Guaranis-Kaiowás mais de 500 anos depois. Na carta-fundadora, é o invasor/colonizador/conquistador/estrangeiro quem estranha e olha para os índios, para sua cultura e para sua terra. Na dos Guaranis-Kaiowás, são os índios que olham para nós. O que nos dizem aqueles que nos veem? (Ou o que veem aqueles que nos dizem?)
A declaração de morte dos Guaranis-Kaiowás é “palavra que age”. Antes que o espasmo de nossa comoção de sofá migre para outra tragédia, talvez valha a pena uma última pergunta: para nós, o que é a palavra? 
 
 
Eliane Brum escreve às segundas-feiras. Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de um romance – Uma Duas (LeYa) – e de três livros de reportagem: Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo). E codiretora de dois documentários: Uma História Severina e Gretchen Filme Estrada. elianebrum@uol.com.br @brumelianebrum (Foto: ÉPOCA)

A bicicleta, o transporte urbano em resposta ao engarrafamento crônico

Um guia para desenvolver o ciclismo como transporte urbano

http://www.efetividade.net/2012/10/23/bicicleta-trabalho/

você encontra um guia com as instruções para desenvolver o uso da bicicleta como transporte urbano.

Dele tirei algumas frases com o intuíto de estimular a leitura do texto e agradeço ao colega Roberto Lima,
um físico, por mostrar-me o guia. Eu venho há algum tempo promovendo a bicicleta, eu mesmo sou ciclista de longa data,
mas infelizmente hoje preso a uma destas latinhas-com-ar-condicionado-poluído-pela-latinha-que-trafega-na-frente.
É que não consigo reunir coragem para enfrentar os perigos no trânsito representados pela selvageria natural dos
motoristas (o que me incluí a mim mesmo). O motorista age como um facista qualquer (observe que estou incluído no grupo),
achamos que a importância do nosso veículo deve se impor sobre todos os demais, em particular sobre esta droga de atrapalhação
espalhada por toda parte chamada “pedestre”, “ciclista” ou outros animais, como os cachorros.

É muito “fino” dirigir um carro, ainda mais se for do ano! a gente se esquece que o carro é poluente,
que contribui para o efeito estufa, e, embora muitas vezes a gente fique preso nos engarrafamentos, podemos
curtir um bom engarrafamento protegidos no ar condicionado (poluído pelos gases que os demais carros liberam),
mas ouvindo uma boa música.

Esquecemos que seria possível ir mais rápído se fossemos de bicicleta, e eu tenho
algumas vezes feito isto até o supermercado com a mochila nas costas para nela trazer os 10 itens que me autorizam o
uso da fila única.

Mas uma andorinha não faz verão! dizem que ajuda! Precisamos que mais gente se junte aos
ciclistas deixando os carros para aqueles que não podem mesmo andar de bicicleta e, como serão poucos, logo logo
vamos ter todos uma vida mais saudável:

Vantagens para a saúde

Vantagens para a saúde

leia isto no manual.

http://www.efetividade.net/2012/10/23/bicicleta-trabalho/

Observe a comparação entre os valores, uma vaga para carro custa tanto quanto
quanto um apartamento usado, cincoenta mil, enquanto que uma vaga para
bicicleta custa cem reais. Numa vaga de carro podemos estacionar 12 bicicletas.

comparações de custos: vaga de carro ou bicicleta

comparações de custos: vaga de carro ou bicicleta

Eu pessoalmente posso dar-lhe um atestado, recentemente vivi quase um ano em Aveiro, em Portugal,
onde praticamente não tirava o trazeiro do selim! Morava a 100 métros do Dep de Matemática e ia para a
Universidade de bicicleta, depois para o restaurante universitário de bicicleta, fazia as minhas compras
no supermercado em bicicleta e me encontrava frequentemente com um colega japonês que vinha voltando do
supermercado, à pé, carregando aquela montanha de sacolas: eu trazia as minhas no alforje da bicicleta!
Resultado, perdi a pequena barriga que insistia em não desaparecer… e não precisei de gastar dinheiro com academia!
nem tomei remédios para perder o apetite! Você vai ler várias histórias de indústrias que sairam ganhando
com o incentvo da bicicleta entre seus funcionários, se você for empresária. Lucro capitalista, se for do seu interesse,
que não é bem o meu caso. Tudo que eu quero é poder voltar a andar de bicicleta e ai preciso que muita gente
se desiluda com o carro!

Mas é preciso forçar o poder municipal a valorizar a bicicleta.

Outro dia eu vi uma notícia que repeti aqui neste blog, que em Santiago, no Chile, a presença de 1.500.000 ciclistas,
você leu certo sim, um milhão e quinentos mil ciclistas, forçaram a municipalidade de Santiago a repensar a cidade
em função dos ciclistas. E aqui queria lembrar o que alguns grupos de ciclistas estão levantando:
não queremos ciclovias, o que queremos é a metade das ruas da cidade dedicadas aos ciclistas.
Não desejamos ficar presos em ciclovias que vão de lugar nenhum para nenhum lugar! Queremos o óbvio, o
reconhecimento que os ciclistas representam uma economia significativa para a sociedade, com redução de gastos
com saúde pública, com redução de gastos com a conservação das ruas (bicicletas não estragam as ruas),
eliminação da poluição, eliminação de gastos com combustíveis fósseis, e mais um monte de outras vantagens
que você pode ler no manual

http://www.efetividade.net/2012/10/23/bicicleta-trabalho/

e,
consequentemente, queremos a metade do espaço nas ruas! Ao mesmo tempo queremos que o limite de velocidade
na cidade inteira fique limitado em 20 km/h que é a velocidade máxima que um ciclista médio pode conseguir.
Quer dizer: igualdade de condições.

Ciclovias representam uma restrição á mobilidade,
porque toda ciclovia termina numa dessas grandes conexões circulares de trânsito em que a única saída para o
ciclista é sair empurrando a bicicleta na mão com todo cuidado porque foi rebaixado a pedestre!
Ciclovias representam apenas restrições, não resolvem a transformação que desejamos, a de transformar a bicicleta
na principal forma de transporte urbano.

Mas leia o manual para se convencer de que é preciso mudarmos o
sentido das cidades, e o teremos que fazer, cedo ou tarde, porque a fantasia da liberdade de andar de carro já se
encontra muito perto do seu fim, seja pelos terríveis engarrafamentos, seja pelo aquecimento global acelerado pelos
gases tóxicos dos carros, seja pela decadência crescente dos métodos para extrair petróleo que se tornam, mais e mais,
de risco para o meu ambiente – o petróleo está chegando ao fim apesar dos gigantescos lençõis descobertos… aonde?
dentro dos mares! Lembra dos acidentes recentes?

Então, mude de lado! se torne uma ciclista!
Vamos forçar a prefeita ou o prefeito a dividir a cidade meio a meio, a metade para nós ciclistas e logo, logo,
o resto vem também para o nosso lado! Não perca mais tempo, leia o manual

http://www.efetividade.net/2012/10/23/bicicleta-trabalho/