A resistência à industria do combustível fóssil

Publicado em 12 de abril de 2013 por Rolling Stone

A resistência à industria do combustível fóssil

Por Bill McKibben

Tradução de Tarcisio Praciano-Pereira

Enquanto o mundo pega fogo um novo movimento para reverter as mudanças climáticas está emergindo, corajoso, barulhento e exatamente na porta ao lado.

Screenshot

Esteve tão quente na Austrália em janeiro que o serviço metereólogico foi forçado a acrescentar duas faixas de cor extra para colorir seus mapas. Algumas semanas mais tarde, do outro lado do planeta, dados do Satélite CryoSat-2 mostrava que 80% do gelo no Ártico já havia desaparecido. Nós não estamos, exatamente, quebrando recordes, estamos mesmo quebrando o planeta. Dentro de 50 anos ninguém irá se preocupar com a crise do euro ou com quebra fiscal. Os que estiverem vivos apenas se perguntarão “então o gelo do Ártico se derreteu, e vocês, o que fizeram vocês?”

Se houve uma boa notícia poderia ser: nós todos lutamos!

Os americanos já estão vendo este movimento se expandir das vizinhanças de Washington, DF, num dia de frio extremo, em Fevereiro. A imprensa contou mais Screenshot-2de 40 mil na manifestação que sem dúvida é a maior da história do nosso país entre as manifestções contra as mudanças climáticas. Eles estavam lá para se opor ao oleodoto XL que deveria vir das áreas betuminosas do Canadá caminhando para o sul até o Golfo do México, uma luta que a revista Time comparou recentemente como a Selma ou Parede de Pedra do movimento pelo meio ambiente. Porém na multidão há milhares que estão lutando contra os poços fracionamento na região Apalachiana e os portos colocados em águas profundas que enviariam carvão para a China. Estudantes na maioria dos 323 campus universitários onde o movimento para bloquear o investimento na indústria fóssil está em crescimento se misturam com os veterenos da luta contra a derrubada dos topos de montanha associados à mineração do carvão no oeste da Virgínia e Kentucky junto com os membros mais antigos que formam Loby Cidadão pelo Clima ( Citizens Climate Lobby) que estão na luta para pedir que o Congresso estabeleça preços altos para o carbono. Alguns dias atrás 48 líderes foram presos nas cercanias da Casa Branca, entre eles estavam rancheiros do Nebrasca que não querem que um oleoduto gigante passe através de suas terras junto com líderes das cidades texanas que sofrem com os vazamentos de óleo cru à volta de suas comunidades. O legendário investidor Jeremy Grantham estava lá pedindo que os cientistas associem suas pesquisas à desobidiência civil, e também estavam lá os industriais do Sol (industria da energia solar) mostrando como é rápido que se extende um painel solar no teto de uma residência o que eles também estão fazendo ao longo de todo o país. O reverendo Lennox Yearwood Jr. do Hip Hop Caucus foi algemado junto com Julian Bond, o ex-dirigente da NAACP, (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor – National Association for the Advancement of Colored People) que repetiram histórias antigas da década de 60 quando da integração dos restaurantes em Atlanta.

É um movimento em expansão, diversificado e incrivelmente unido marcando oposição contra a mais rica e poderosa indústra do planeta. A Resistência ao Combustível Fóssil já logrou algumas vitórias importantes bloqueiando dúzias de sistemas de geradores à carvão em construção ou fechando muitas das existentes, verifique na página da http://lvejo.org/ Little Village Environmental Justice Organization ajudou a fechar algumas centrais à carvão em Chicago ou da http://apen4ej.org/ Asian Pacific Environmental Network, que lutou para impedir a expansão da refinaria da Chevron em Richmond, California. “Até este momento as organizações dos movimentos de base conseguiram evitar que mais carbono seja lançado na atmosfera que as ações dos estados do governo federal” disse Gopal Dayaneni do Movement Generation Justice and Ecology . Isto também é uma resistência econômica, também, hoje já estamos conscientes que o sistema de energia renovável pode criar três vezes mais empregos que o carvão e óleo juntos. E se trata de trabalho qualificado porque o Sol e o Vento se encontram perto de nossas casas e é um trabalho que cria um futuro.

E se trata de gente séria. Não são membros de uma Resistência apenas porque tem gente que guia um carro Prius. Você não precisa ir para a cadéia mas você precisa fazer um pouco mais do que apenas trocar as lâmpadas por outras mais econômicas. Você precisa fazer alguma coisa para mudar o sistema que é o responsável pelo aumento da temperatura, do aumento do nível do mar, do extermínio de espécies, ou mesmo, bem mais: discutir levantar a questão sobre a forma como a nossa civilização poderia sobreviver neste século.

Logo depois desta manifestação gigantesca em Washington – DF, o Ministério do Interior (state department ) lançou um relatório declarando que seria insignificante o impacto ambiental da Keystone XL e desta forma abrindo mais um passo do caminho do oleoduto. Desde então, sob a intervençao de um grupo de ativistas por trás de uma companhia de telefone que merece atenção, a CREDO, cerca de 60 mil pessoas assinaram um compromisso de reagir, pacificamente, mas firmemente se o oleoduto for aprovado. No começo de março até mesmo comentaristas do stablishment como Thomas Friedman observou – ele usou a sua coluna no New York Times para pedir aos ativistas para “ir para a loucura” com a desobediência civil, 48 horas depois disto, 25 estudantes e membros do clero se prenderam com cadeados dentro do escritório de uma seção do oleoduto nas cercanias de Boston. Já não é mais uma briga de um único lado.
Um movimento com esta diversidade dificilmente chega a um consenso sobre um manifesto, mas não há dúvida que uma ideia central é a de que a indústria do fóssil é suja em todos os seus estágios e que temos que torná-la um item do passado o mais rápidamente possível. Para nós que vivemos nos países ricos não podemos contar que pequenos passos sejam suficientes, temos que alterar as políticas que fazem com que esta indústria seja gorda e feliz. Entretanto para os que vivem nos países pobre o objetivo é mais duro porque eles tem que ultrapassar a era do fóssil direto para as energias renováveis ação esta que, nós que prosperamos enchendo a atmosfera com carbono, temos que dar apoio por razões tanto morais como práticas. E isto significa dar as mãos às comunidades do carvão da região apalachiana assim como para os povos de países embebidos de petróleo como é o caso do Delta da Nigéria que lutam pelas suas casas. Eles lutaram a mais tempo e de forma muito dura em alguns casos sozinhos, mas agora que o aquecimento global está enchendo as galerias do metro com água do mar, o front da batalha está se expandindo e os reforços estão também chegando.

Até o momento a indústria do fóssil está apenas ganhando. Nos anos que passaram ele conseguiram provar que os teóricos do pico do óleo estavam errados e, ao mesmo tempo que o preço do combustível subia, as companhias descobriram uma grande quantidade de novas jasidas, ainda que em geral raspando o fundo dos poços, gastando mais dinheiro para encontrar energia mais suja. Eles aprenderam a fracionar, que na essência é explodir uma bomba a alguns metros da superfície quebrando as rochas e assim liberando mais óleo. Eles aprenderam com aquecer as sujas áreias betuminosas com gas natural e desta forma fazer com que óleo escorra. Eles conseguiram perfurar poços no fundo do mar. Mas o entusiasmo foi que espirrou muito mais intensamente que que o óleo. O The Wall Street Journal declarou que a Dakota do Norte era a nova Arabia Saudita. The New York Times descreveu que os filões de óleo da California eram quatro vezes maiores do que os de Dakota do Norte. “Poderemos fazer da OPEC a NãoPEC se realemente nos dedicarmos a isto” disse Charles Drevna da American Fuel and Petrochemical Manufacturers. “Estamos falando de décadas, senão de séculos, para garantir os suprimentos da America do Norte”.

Porém este óleo todo vai ser bombeado, minerado e queimado se apenas decidirmos ignorar as questões climáticas, mas, se pelo contrário a considerarmos com seriedade, a matemática vai ter que mudar rapidamente. Como eu já mostrei aqui nestas páginas, no verão passado, as companhias mundiais do fóssil, mesmo antes destas descobertas, já possuiam em seus estoques cinco vezes mais combustível do que seria possível queimar para permanecermos abaixo dos dois graus centígrados na escala de crescimento da média global de temperatura. Esta é linha vermelha que praticamente todos os governos do Mundo aceitaram, porém as companhias do óleo e do gas natural estão apenas procurando por mais na mira de lucros mais vultuosos e ignorando a realidade. Uma reportagem recente mostrou que um grupo anônimo de industrias bilionários investiu mais de cem milhões de dólares em apoio a grupos que se opõem às questões do meio ambiente. Semanas antes do Dia da Eleição, Chevron fea a maior doação corporativa da era posterior ao “Citizens United” garantindo que o Congresso ficasse nas mãos do que negam as mudanças climáticas.

Mas, como todo rio rebenta suas próprias margens, cada nova onda de calor dá força à Resistência. Quando o oleoduto Keystone por vez primeira se tornou controversial, em 2011, uma pesquisa de opinião feita por “gente de dentro da energia” em Washington, mostrou que 70% deles pensavam que conseguiriam a licença para a construção do oleoduto até o fim do ano. O “Big Oil” pode afinal conseguir encontrar sua passagem, porém até o momento o seu dinheiro não conseguiu contagiar com a paixão e o entusiasmo com que os seus peões vieram para a batalha. E já não estamos mais simplesmente na defensiva: a campanha de desinvestimento (Nota do Tradutor encetada nos 323 campi universitários ao longo da America ) pode ser o maior item da Resistência, e ela não está mais confinada aos campi universitários, governos municipais e entidades religiosas já começaram a desenrolar as suas bandeiras contra as companhias de óleo e até mesmo já chegou ao pequeno investidor privado uma vez que o HSBC já concluiu que se forem levadas a sério as quesões de mudanças climáticas pode haver uma queda da participação das companhias de óleo em até 60%.

A cada mês que passa, alguma coisa se enfraquece no lado da indústria: por exemplo o aumento constante de energia renovável, uma tecnologia que passou de sonho para painel-nos-tetos em um tempo extremamente curto. Nos poucos países onde os governos foram de fato em busca das energias renováveis​​, os resultados já foram surpreendentes: Em alguns dias da primavera passada aconteceu na Alemanha (a pálida, nortenha Alemanha) conseguiu gerar metade da energia necessária a partir dos painéis solares que já se encontram instalados. Mesmo neste nosso país, grande parte da capacidade de geração adicionado no ano passado veio de fontes renováveis​​. Um estudo de dezembro da Universidade de Delaware mostrou que, em 2030 poderíamos garantir que 99,9% de todo o potencial necessário do país vindo de energias renováveis. Em outras palavras, a Física, a Lógica e a Tecnologia trabalham contra a indústria do combustível fóssil. Por enquanto, ela detém o poder político de que necessita – mas o poder político muda, talvez, mais facilmente do que a Física.

Vamos qual é a história da Resistência, a quarenta e três anos atrás, o primeiro Dia Anárquico da Terra atraiu 20 milhões de americanos para as ruas. Esta presença ajudou a passar vários tipos de legislação – o Clean Air Act (O Ato do Ar limpo), a Lei de Espécies Ameaçadas – e estimulou o crescimento de organizações como o Conselho Defesa dos Recursos Naturais e do Fundo de Defesa Ambiental. Como esses “grupos verdes” se tornaram o cara do movimento ambiental, eles cresceram a ponto de poder jogar no time do lobby dentro do cinturão do poder. Mas essa estratégia encontrou dificuldades cada vez mais significativas com crescimento do poder da direita, já levam 25 anos se serem capazes de conseguir qualquer progresso significativo na mudança climática.

Agora, energizada pelos protestos contra o oleoduto Keystone, alguns avanços foram feitos. O NRDC tem feito um trabalho típico de campones contra o gaseoduto. O Sierra Club, que há apenas alguns anos atrás estava redirecionando milhões da indústria do fracking para recolocar no gás natural, foi reinventado. Em janeiro, o clube eliminou sua proibição de 120 anos, sobre a desobediência civil. No mês seguinte, o seu diretor-executivo, Michael Brune, foi levado para longe da Casa Branca, em algemas.

Mas o centro de gravidade também mudou de grandes grupos estabelecidos para os grupos locais, os esforços ficaram mais distribuídos. Na era da Internet, você não precisa de grandes centros e mala direta, você precisa do Twitter. No Texas e Oklahoma, centenas se juntaram em ações lideradas pelo bloqueio areias de betuminosas, usando de táticas ousadas e de muita coragem para ficar no meio da indústria e do gasoduto ela precisa levar o petróleo para o exterior. Em Montana, autor Rick Bass e outros se sentaram-se para interromper a exportação de milhões de toneladas de carvão que iam sair dos portos da Costa Oeste. E da região das formações de Marcellus e da Utica, no Nordeste, as pessoas têm se levantado em favor de suas comunidades, muitas vezes, sentando-se no meio da rua em da frente da indústria do fracionamento. A Resistência ao Combustível Fóssil se parece mais e mais com o Movimento Ocupar – na verdade, eles se confundiram desde o início, uma vez que as empresas do petróleo são exatamente o um por cento. Os movimentos comunicam entre si análise política, também: uma rede com um milhão de telhados solares parece mais a Internet do que a Companhia de Eletricidade (CONED), é o mercado de elétrons dos agricultores, com o controle local, que é isso que interessa.

Como Movimento Ocupar, esta nova resistência não está obcecada com ganhar os líderes do Partido Democrata. As prisões por Keystone em 2011 marcaram com os protestos mais combativos fora da Casa Branca durante o primeiro mandato de Obama, agora Van Jones, que já trabalhou para o presidente, vem chamar a Keystone de “pipeline Obama.” Acostumado a lidar com os grupos verdes estabelecidos, o governo pensa em termos de negócios – “Nós vamos aprovar o gasoduto, mas dar-lhe em troca algo mais você deseja” – o tipo de lógica de barganha que consegue a aprovação dos colunistas e cabeças de grupos de looby. Mas considerando que o Ártico já derreteu, não temos espaço para compromissos fáceis. A insistência do presidente de que ele favorece “as questões gerais por cima dos detalhes”, todos os sistema de energia, petróleo e gás, são tão bem-vindos como a solar e a aeólica, parece cada vez mais como cilada política clássica. Na verdade, se o Partido Republicano não estivesse nas trincheiras da indústria do petróleo, dificilmente se poderia encontrar algo pior do que a retórica de Obama. No ano passado, o presidente foi para Oklahoma, posando em frente de uma pilha de tubos de óleo e se gabava de adicionar novos dutos suficientes para cercar Terra. Desde a eleição, o presidente começou a falar verde, prometendo que agora a mudança climática seria uma prioridade – mas esta resistência crescente, penso eu, não se encontra nada convencida. Como o líder da questão climática, Naomi Klein disse: “Desta vez, não há lua de mel e nem adoração de herói.”

Somente o trabalho pequeno e difícil é que conta. Nós estamos assistindo grandes mudanças culturais e sucessos de organização nos últimos anos, como os , movimentos da igualdade de casamentos, e de reforma da lei de imigração. Mas quebrar o poder das empresas de petróleo pode ser ainda mais difícil, porque as somas de dinheiro do lado deles é fantástico – há trilhões de dólares de petróleo em areias betuminosas do Canadá e do Dakota do Norte de xisto. Os homens que possuem as minas de carvão e os poços de gás vai gastar o que eles precisarem para garantir suas vitórias. No mês passado, Rex Tillerson, o dirigente da Exxon que ganha na ordem de 100 mil dólares por-a-dia, disse que os ambientalistas eram “obtusos” por se oporem aos novos dutos. Ele anunciou que a empresa planeja mais do que dobrar a área de exploração hidrocarbonetos e disse que espera que as energias renováveis ​​sejam responsáveis por apenas um por cento de nossa energia em 2040, essencialmente declarando que a guerra para salvar o clima acabou antes mesmo de iniciada. Ele acrescentou: “Minha filosofia é fazer dinheiro.”

No mesmo dia, os cientistas anunciaram que a Terra está se aquecendo 50 vezes mais rápido do que nunca aconteceu ao longo de toda a civilização humana, e que os níveis de dióxido de carbono tinham atingido um recorde perigoso na nova estação de medição de Mauna Loa. Agora, nós estamos perdendo. Mas como o planeta está vivo, sua febre aumentando, os anticorpos começam a se mexer Nós sabemos o que o futuro nos reserva se não resistirmo, e, assim, vamos resistir.

Bill McKibben

bill_mckibbenBill McKibben é um Distinguido  Schumann  Scholar do Middlebury College e  co-fundador de 350.org.

Dentre os seus livros mais recentes se encontra Eaarth: Making a Life on a Tough New Planet.

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