O homem parado da Turquia mostra como a resistência passiva pode balançar o Estado

Por

Tradução de Tarcisio Praciano-Pereira

http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2013/jun/18/turkey-standing-man

O governo turco tem todas as razões para ficar em pânico quando suas forças imensas se deparam com poder e a força do desafio digno e silencioso de  Erdem Gunduz

 

O protesto do homem silencioso

O protesto do homem silencioso

 

 

“O protesto de Erdem Gunduz é ao mesmo tempo uma afronta e uma pergunta para as autoridades:
Atacá-lo? Por quê? Ele está apenas em pé. Deixá-lo sozinho? Então ele ganha, não é? ‘
Foto: Vassil Donev / EPA

Erdem Gunduz tornou-se uma lenda. E tudo  que tinha que fazer para ganhar esse status era ficar completamente parado. Gunduz, um artista performático de esquerda, Kemalist, começou a ficar parado na Praça Taksim, na segunda-feira 18:00 hora local. Ele ficou de pé, voltado para o centro cultural do Ataturk, até 02:00. Foi um protesto silencioso, teimoso e digno contra a brutalidade da resposta da polícia aos manifestantes, que culminaram com números  sinistros no final de semana cujos alvos incluíram médicos e funcionários que atenderam os feridos. Na verdade, o Ministério da Saúde, foi tão longe a ponto de  ameaçar  a perda de licenças ao pessoal da saúde que desse atenção médica às pessoas envolvidas em protestos que fossem feridas pela policia.

O “homem de pé”, exemplifica algumas características da tradição de resistência passiva. Em primeiro lugar, é a capacidade avassaladora representada pela façanha física, mas ao mesmo tempo passiva, num  desafio que tem sido, algumas  vezes, a sentença de morte de regimes recalcitrantes, seja o caso do  Shah do Iran ou Marcos nas Filipinas – porque aponta para recursos que os manifestantes têm  que passam por cima da  capacidade repressiva do Estado. Em segundo lugar, a resistência passiva não é meramente simbólico, ela  confunde e desvia os cálculos dos governantes. Quando a União Soviética invadiu a Tchecoslováquia, parte da resistência envolvia pinturas sobre placas de rua que, misteriosamente, desligavam alguns aspectos da  infra-estrutura.

O protesto de Gunduz era ao mesmo tempo uma afronta e uma pergunta para as autoridades:

Atacá-lo? Por quê? Ele está apenas em pé lá. Deixá-lo sozinho? Então ele ganha, não é?

Na medida em que as pessoas começarm a entender o que ele fazia, o seu protesto começou a se espalhar por  todo o país, tão longe quanto Ankara e Izmir. Se tornou viral, adquirindo definindo a etiqueta do twiter (hashtag) obrigatória: # duranadam (homem em pé). O primeiro ministro  Tayyip Erdoğan vem se  queixando do papel dos meios de comunicação social, em particular do Twitter, nestes protestos. A polícia ainda começou a prender pessoas por divulgar “informações falsas” no Twitter. O Estado turco tem todos os motivos para entrar em pânico. (Nota do tradutor: e eu espero que os administradores escondidos dentro do Estado brasileiro também tenham todas as razões para entrar em pânico)

As chamadas redes sociais  têm permitido a replicação viral de temas de protesto, slogans e táticas. Ao contrário de anteriores chamadas “revoluções” Twitter,  há acesso massisso da população nas mídias sociais na Turquia. Universidade de Nova York documentou 2milhões os tweets relatando sobre os protestos entre 04:00 e meia-noite de um único dia, sexta-feira,  28 de maio, quando os protestos se tornaram globais. Daí o pânico do estado para restaurar seu monopólio sobre a verdade e a mentira.

Há, talvez, outra razão pela qual protesto silencioso do Gunduz ressoou muito forte, pelo menos para alguns. A resposta do governo aos protestos foi, inicialmente, um incrivel silêncio. Começou por ignorar os protestos – reclame tudo que você quer, nós (governo) nada temos o que ver com isto. Em seguida, o governo  começou a reprimir os manifestantes com violência, e o fez de de uma maneira tão chocante que provocou uma revolta nacional. Depois começou a procurar  por bodes expiatórios, “Terroristas”, “bêbados”, twitteiros – Erdoğan encontrou justificativas  pelos protestos em tudo, exceto na política do governo.

O tema principal da defesa do governo turco repetido constantemente inclusive pelo  primeiro-ministro quando se dirigiu a uma grande manifestação pró-governo em Istambul, é que os manifestantes não são realmente turcos. AKP de Erdogan foi sempre um partido suspeito para os nacionalistas turcos, por isso talvez seja ainda mais veemente em sua arrogância patriótica. Os manifestantes, o governo diz, são parte de uma conspiração estrangeira, ligada à manipulação da mídia internacional, a nação turca  não bate em  panelas à noite. Qualquer pessoa assistindo ao clip doYouTube em que  manifestantes são  caçados pelas ruas pela polícia turca vai testemunhar o espetáculo surpreendente da polícia  pulverizando com  gás lacrimogêneo e ao mesmo tempo balançando pequenas bandeiras. Gunduz, de pé, pensativo diante da imagem de Ataturk, parece ter uma idéia diferente do que é ser turco.

Isto está directamente relacionado com a questão da violência oficial que é, naturalmente, a força motriz que vem unindo as manifestações, e – surpreendentemente, talvez – o ponto fraco do governo. Apesar do fato de que o AKP tenha tido  crescimento na  maioria das eleitorais desde 2002, e travaram uma batalha, em grande parte, bem-sucedida contra seus inimigos nos aparatos do Estado, nunca garantiu que um amplo consenso popular  lhe permitisse a consolidação de sua ascensão.

Os regimes mais estáveis ​​são capazes de usar a violência e coerção de forma a conservar o seu domínio. O governo turco  tem sido incapaz de fazê-lo sem provocar uma crise existencial  despertando uma ampla aliança, potencialmente contra-hegemônico de elementos heterogêneos, de curdos e esquerdistas até  os islâmicos e nacionalistas. Sua batalha para os símbolos de unidade nacional, e sua tentativa de definir  os manifestantes como alienistas, é sintomática disso.

Há outra forma de ver na qual a violência estatal levanta questões profundas sobre a viabilidade do governo. Se a violência policial não sufocar a revolta, o que acontecerá? O governo tem estado em conversações nervosas com grupos selecionados de manifestantes e silenciosamente fez algumas concessões relutantes em torno Gezi Park – mas os protestos agora envolvem muitas outras questões. Em desespero, o vice-primeiro-ministro,  Bülent Arinç, recentemente, ameaçou com jogar  as forças armadas contra os manifestantes.

Este seria um movimento inesperado para um governo que baseou a sua legitimidade e poder institucional de forma significativa ao  travar uma guerra contra as velhas elites militares e, especialmente, o “Estado de sítio”. Isso daria antigos inimigos do AKP um novo sopro de vida se tivessem que ser chamados para acabar com os protestos, e é uma questão em aberto se o governo iria sobreviver.

O movimento de Gunduz’s, num protesto imóvel, é um símbolo de grande perigo para o regimete turco.

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