William Rivers Pitt – plantando em casa

Tuesday, 07 January 2014 09:06 By William Rivers Pitt, Truthout | Op-Ed

Tradução: Tarcisio Praciano-Pereira

(Image: Marijuana gavel via Shutterstock)

Homegrown’s

All right with me

Homegrown

Is the way it should be

Homegrown

Is a good thing

Plant that bell

And let it ring…Imagem

 

– Neil Young

 

  1. Era final de setembro em 1993, meus amigos e eu estávamos em um acampamento para desfrutar de um fim de semana longe do mundo. Estava excepcionalmente frio e eu encolhi os ombros saindo da tenda e, depois de atender uma chamada insistente de natureza por trás duma linha de árvores a leste do nosso acampamento, comcei o trabalho de fazer o fogo novamente. Um por um, meus amigos surgiram saindo de suas próprias tendas em vários estágios de sonolência – a noite anterior tinha sido um doze de fria, e mais do que alguns da minha equipe olhou insistentemente e eu senti-me como se estivesse sendo devorado por lobos, mas era pelas chamas do meu fogo.

Quando o café ficou pronto e o sangue já estava fluindo, linha do tamanho de Nova Jersey começou a rolar, como era tradição, um bálsamo no cansaço da noite mal dormida, entre nós. Depois de uma rodada, comecei a ver um guarda do parque de campismo olhando insistentemente para o nosso pequeno círculo à fogueira, um olhar longo e difícil. Ninguém teria que ser apedrejado e nem era uma época de paranóicos no que diz respeito a fumar maconha há vinte anos. O meu primeiro pensamento foi: “Meganha”. Eu calmamente dizendo aos meus amigos para esfriar, esfriar, há algo que está merecendo cuidados com esse cara, e todos começaram imediatamente a fazer um deixa que não deixa disfarçando a coisa.

Quando o homem começou a caminhar em minha direção, eu comecei a fazer um inventário na minha cabeça do dinheiro que eu tinha na mão, mais o dinheiro dos meus amigos, para o caso de que eu precisasse do0 dinheiro da fiança. Ele apresentou-se diante de mim, estendeu a mão, e se apresentou.

Espero não estar atrapalhando, disse ele. “Nem por isso”, respondi com certa ansiedade voando ao redor da minha cabeça como se eu fosse Tippi Hedren. Ofereci-lhe um café enquanto meus amigos se espalharam ao redor do acampamento fingindo que nada tinham a ver com a conversa ​​e que tinha coisas importantes a fazer, mas lançando olhares furtivos na minha direção enquanto esperavam o martelo cair.

Escute, eu sei que os gajos estão fumando um baseado.

Eh! respondi.

Acontece que eu não conheço ninguém que fume, ele falou.

Eh, respondi.

Meu pai tem câncer, disse ele. Isto é mau. Ele não pode comer por causa do tratamento, e isso é tão ruim quanto o câncer. O médico me puxou de lado na semana passada, e mencionou a maconha como algo que poderia ajudá-lo.

Eh, falei novamente.

Você não me conhece, ele disse, mas eu queria saber se você poderia me dar alguma, para que eu possa ver se isso pode ajudá-lo. Eu não conheço ninguém a quem eu possa fazer um tal pedido!

Eu fiquei alguns segundos sem reação. Poderia ser uma armadilha, pensei, mas esse cara pode estar falando a verdade. Como defensor da NORML (nota do tradutor: movimento para alterar a legislação relativamente à marijuana), eu sabia muito bem que o que ele estava pedindo poderia ajudar seu pai, mas a última coisa que eu precisava seria um registro criminal por possessão de maconha. Suspirei fundo e decidi fazer um ato de fé. Disse-lhe que esperasse um momento, entrei em uma das tendas, peguei o saco da verde duma mochila, e entreguei uma parte do conteúdo para ele. Seu rosto se iluminou num grande sorriso apertou-me a mão novamente. Eu também tinha pegado uma caneta e um caderno.

Aqui está o meu número, eu disse, rabiscando. Se ajudar, ligue para mim, e eu vou apresentá-lo a alguns amigos meus.

Algumas semanas depois, ele me ligou e lhe passei os dados de um amigo. Meses depois, ele ligou novamente para me informar seu pai tinha morrido. Obrigado, disse ele em uma voz embargada pela emoção. Obrigado, muito obrigado. Realmente ajudou.

Embora o prazo do crime já tenha prescrito há muito tempo, permanece o fato de que, ao escrever isso, estou admitindo ter cometido pelo menos dois crimes … que, vinte anos depois, finalmente, estão sendo expostos como grandes disparates. O que começou há décadas como uma manifestação de racismo institucional, com interesses combinados na produção de madeira e petróleo olhando para multidão fora do mercado de celulose e de combustível, combinado com a “lei e ordem”, políticos montandos na chamada “guerra às drogas” de escritório, vivem uma paranóia legal gritante que já enviou dezenas de milhares para as prisões arruinando milhares de vidas.

 

 

Eu ajudei um homem doente a se sentir melhor, e com isto me senti bem. Para fazer isso, tanto eu como o homem que conheci naquela fogueira há vinte anos, nos sentimos como criminosos furtivos quando selamos um pacto para fazer seu pai moribundo se sentir bem, o suficiente para comer algo, como o câncer fazendo-o sentir duras penas. Vinte anos mais tarde, eu me lembro da troca de endereços com o mais profundo carinho e orgulho. As leis injustas não são feitas para serem seguidas, mas são feitas para serem desafiados e quebradas.

Colorado e Washington já colocaram de lado as noções fracassadas de proibição que já estavam mortas há um século, para legalizar totalmente uma substância infinitamente menos letal do que o tabaco ou o álcool que dificilmente merece a atenção que lhe deram. Alaska, Oregon, Califórnia, Maine, Massachusetts, Montana e Nevada estão a caminha de seguir, e o impulso deve levar que Delaware, Havaí, New Hampshire, Maryland, Rhode Island e Vermont sigam o exemplo. Se bem sucedido, isto já representa quase um terço do país, e, pode encerrar todo um inferno de perseguições para começar o verdadeiro trabalho: libertar os presos condenados por crimes que já não serão mais crimes e nunca deveriam ter sido crimes, para começar.

Como a lei no Colorado entrou em vigor no dia de Ano Novo, a nação foi atingida com a moralizante fala a gosto de David Brooks, do New York Times e Ruth Marcus, do Washington Post. Dizem eles: que fumavam maconha, mas que pensam nas crianças!

Eu penso.

Penso nas crianças que cresceram sem pai ou sem mãe porque um pai se atreveu a ingerir algo que cresce no solo. Eu penso nas gerações de famílias negras quebradas pela aplicação de leis racistas produzida por cabeças erradas. Eu penso nos filhos de pessoas doentes que viram os seus entes queridos definhar, gritando agonia de câncer ou da AIDS, porque não conheciam nenhum dos comerciantes da planta, ou estavam com muito medo de tentar encontrar um, ou simples nunca souberam que ela poderia realmente ajudar.

O que é mais terrível para esta sociedade: maconha (que já está em todos os lugares de qualquer maneira, e isto é um fato), ou milhares e milhares de pessoas entregues às misérias do sistema penal? Maconha, ou milhares e milhares de pessoas sofrendo e morrendo de dor desnecessária e totalmente evitável?

Res ipsa loquitur, como dizem os advogados. A coisa fala por si própria.

A instalar este sino e deixar que o sino se faça escutar.

Copyright, Truthout. May not be reprinted without permission.

(Nota do tradutor: Não estou fazendo uma reimpressão, é uma tradução que é protegida pela lei brasileiro do copyright, porque estou indicando a fonte:

http://truth-out.org/opinion/item/21058-william-rivers-pitt-homegrown)

 

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