O roubo ao escritório do FBI em Filadelfia em 1971

Livro conta a história do roubo ao escritório do FBI em Filadelfia por ativistas contra a guerra

Bonnie and John Raines, among the FBI burglary's coconspirators.

Bonnie e John Raines, entre os assaltantes da agência do FBI . (MICHAEL S. WIRTZ / Staff Photographer)


Por Mark Wagenveld, para The Inquirer

Tradução: Tarcisio Praciano-Pereira para tarcisio.wordpress.com

http://articles.philly.com/2014-01-07/news/45958878_1_secret-fbi-fbi-agent-michael-kortan

Publicado: 07 de janeiro de 2014  e publicado no dia seguinte por tarcisio.wordpress.com


John e Bonnie Raines haviam se reunido para um jantar com seus filhos naquela segunda-feira, de noite, em Germantown.

Quando a pagem das crianças chegou eles disseram adeus às crianças, entraram no furgão Ford e dirigiram em direção ao oeste para Media.

Durante semanas os Raines e outros estiveram estudando um prédio de quatro andares que ficava em frente ao judiciário em Delaware.

Esta, finalmente, era a noite que eles esperavamm, enquanto milhões estariam colados ao rádio ou televisão para assistir à final do campeonato de box o grupo iria fazer uma ação impossível: eles iriam invandir uma agência do FBI e obter provas de que os agentes estavam levando uma guerra secreta contra os dissidentes políticos.

Agora, passados 43 anos eles vieram se apresentar como os autores do “crime” que ficou sem solução revelando um dos segredos melhor guardado de uma época de manifestações contra a guerra do Vietnam em Filadelfia.

“Se não tivessemos certeza de que iria dar certo, não o teriamos feito”, disse John Raines, agora com 80 anos, em uma entrevista recente. “Nenhum de nós estava interessado em ser martir.”

Os Raines, junto com os demais, entraram num acordo para quebrar o segredo que eles decidiram manter duas semanas depois do furto de Março de 1971, e repassar a história para Betty Medsger que escreveu o livo , The Burglary: The Discovery of J. Edgar Hoover’s Secret FBI, que está saindo na próxima quinta-feira.

No centro da história do livro se encontra um grupo incrível de ladrões de Filadelfia entre os quais se contam, três professores universitários, uma diretora de central de creches infantis, um chofer de taxi que tinha 20 anos na época, ele, o chofer se especialisou em abrir fechaduras de portas.

O que os unia era um objetivo – conseguir uma prova irrefutável de que o FBI levava uma campanha nacional contra os opositores à guerra do Vietnam. Alguns havia deixado a universidade para se juntar ao movimento contra a guerra; todos já havia tomado parte em pelo menos uma ação contra o alistamento militar.

Quando as centenas de arquivos começaram a ser enviadas, anonimamente, para os jornais, o FBI de Hoover ficou seriamente danificado. Os arquivos provavam que não havia qualquer dúvida de que o FBI estavam investigando estudantes como se eles fossem criminosos.

Um dos arquivos, uma circular, incitava aos agentes a questionar os ativistas da Nova Esquerda nos campi universitários. Esta circular estabelecia, “objetivar um crescimento da paranóia nestes círculos aumentando a certeza de que existe um agente do FBI por trás de cada caixa de correspondência.”

As organizações de estudantes afro-americanos deveriam ser infiltradas e espionadas.

A primeira das histórias , “Roubo de documentos descreve as ações de investigação doFBI”, apareceu em 24 de março de 1971, no Washington Post, sob a caneta de Medsger. Esta história também foi publicado no The Inquirer.

Porque o “crime” agora prescreveu, os “ladrões” se encontram fora do alcance dos promotores, disse David Kairys, um professor de de direito da Temple University e também assessor jurídico do grupo.

“Não existe nenhuma forma legítima de promover uma ação judicial contra eles, neste momento”, disse o professor.

Inquirido sobre comentários sobre o livro, Michael Kortan, um portavós do FBI, disse: “Vários eventos desta época, incluindo o roubo de documentos, contribuiram para mudanças sobre como o FBI identificaria e trataria as questões de segurança interna levando a uma reforma nos serviços de inteligencia do FBI assim como de suas prácticas, inclusive foram estabelecidas regras para investigação pelo Department of Justice.”

Raines foi por décadas um professor de estudos religiosos, disse que o “crime” e suas consequências foram praticamente uma questão de Filadelfia como local geográfico.

“Estou convencido de que não teriamos sucesso se o tivessemos feito em outra cidade que não fosse Filadelfia”, disse, “e a razão é simples: Sabiamos que havia milhares, milhares de ativistas contra a guerra em Filadelfia e portanto, não importa quandos agentes J. Edgar Hoover jogasse lá para nos encontrar teria sido uma tarefa monumental para fazer uma triagem de milhares de suspeitos”.

Planejamento prévio

A história que Medsger agulhou – confirmada em entrevistas com os Raines e dois outros dos “ladrões” mostra que foi uma ação artística produzida por “ladrões amadores” produzindo um “crime” que deixou completamente arrasada a mais prestigiosa agência policial americana.

A cabeça do projeto foi William C. Davidon, então com 44 anos, um professor de física do Haverford College, que era um ativo membro da resistência contra a guerra.

Durante semanas o grupo esteve vigiando a agência do FBI num segundo andar nas ruas Front e South Streets em Media. Depois de cada sessão de vigilia eles se encontravam em seu quarto de guerra – a sala de estar da residência dos Raines em Germantown – quando faziam um estudo comparativo das observações registradas.

Descobriram que no prédio haviam apartmentos nos andares acima e que a porta frontal ficava sem ser trancada de noite.

Também escolharam a data: segunda-feira, 8 de Março de 1971, quando todos os olhos da nação estariam focados no Madison Square Garden quando se daria a luta final entre Joe Frazier e Muhammad Ali.

Faltavam-lhes, entretanto, as informações do interior do escritório. Quando faltavam duas semanas para a data da ação, Bonnie Raines, então com 29 anos de idade, mãe de três filhos, e diretora de creche, colocou um par de óculos, amarrou os seus compridos cabelos castanhos dentro de um chapeu e se mandou para a agência do FBI.

Raines falou para o agente de serviço que ela era uma estudante que estava pesquisando as possibilidades de trabalho para mulheres, seu papel era fazer uma vistória da agência e ela não viu nenhum dispositivo de segurança.

Enquanto isto, Keith Forsyth, um motorista de taxi de 20 anos de idade e um membro do movimento anti-guerra, gastou semanas aprendendo como abrir fechaduras, se especialisando nas fechaduras do tipo que se encontravam na postas da agência do FBI.

Na noite do evento, Davidon dirigiu a operação a partir de um quarto de motel que ficava em frente na Granite Run Mall.

Forsyth foi surpreeendido pela qualidade superior da fechadura da porta principal do apartamento onde ficava a agência do FBI mas finalmente ele conseguiu abrir com facilidade uma porta de serviço mas que Raines já havia observado que não era usada e que estava bloqueada por um armário mas Forsyth conseguiu usar uma ferramenta de pneus para abir o seu caminho por aí.

Então quatro outros, todos usando luvas, chegaram do motel com suas pastas e começaram a quebradeira dos armários de onde tiraram cerca de 1000 folhas de arquivos e uma foto autografada de Hoover.

Dos quatro apenas Bob Williamson, então com 22 anos de idade, de Runnemede, havia concordado em ser identificado. (Medsger fez uma entrevista com ele sem mencionar os outros.)

Os “ladrões” partiram sem serem detectados e transfiram os arquivos para os outros carros.

John Raines, então com 37 anos, um veterano dos movimentos de direitos civis, que estava em meio a uma disputa para professor efetivo de religião na Universidade de Temple, levou os arquivos no seu furgão para selecioná-los em Pottstown e começar o envio para os reporteres.

Ele e Davidon preparam as duas primeiras correspondência, fizeram as fotocopias dos papeis nas dependências de suas escolas, em horário noturno. Eles também preparam um documento intitulado “Citizens Commission to Investigate the FBI” (Comissão de cidadãos para investigar o FBI) que acusava a agência de estar levando uma guerra secreta e ilegal contra os dissidentes de guerra.

Na manhã seguinte um Hoover enfurecido ordenou uma ampla investigação. Em seguida os agentes estavam invadindo Powelton Village, local em que viviam muitos dos resistentes à guerra e começaram a investigar centenas de possíveis suspeitos na região.

Os Raines ainda não o sabiam, mas os agentes levavam consigo um retrato falado de Bonnie Raines – descrita apenas como “pessoa desconhecida” que havia visitado, semanas antes, a agência em Media. Eles a perderam por pouco quando se confrontaram com John Raines, um dia, em sua chegada em casa.

O retrato falado finalmente apareceu, anos depois, quando o FBI foi forçado a abrir os seus arquivos para o público.

Medsger, desde o princípio esteve a cargo desta notícia. Antes de se mudar para Washington, ela tinha sido reporter do Bulletin e havia coberto o movimento anti-guerra.

Em 1990 ela começou a juntar os pedaços da história do “crime” sem solução.

Passando um pente fino nos arquivos do FBI, agora tornados públicos, ela encontrou os nomes de sete dos oito “ladrões” que estavam listados entre possíveis suspeiros um dos quais, Williamson, ainda estava presente nas listagens quando, finalmente, o FBI encerrou as investigações depois de passados cincos anos.

Apesar de que o Roubo de Media começou a ficar esquecido, o assunto veio à tona em 1973 quando a justiça determinou que o FBI começasse a liberar os documentos do seu programa” counterintelligence programs” que Hoover havia secretamente dirigido contra indíviduos e organizações que ele considerava que eram subversivas. Então havia uma referencia sobre uma ação em Media com a etiqueta, “COINTELPRO-New Left,” que permitu ao reporter Carl Stern da NBC News e outros razões para forcar a publicação deste material, isto conduziu a uma audiência do Congresso e finalmente às reformas, já mencionadas, do FBI.

Na sombra

O livro de Medsger afirma que o FBI decidiu enviar a Media uma investigação com dados marcados, decidindo antecipadamente que o lider da ação era John Peter Grady, um ativista católico que fazia a oposão aos recrutamentos militares na época. Mas ele havia sido, propositadamente, posto de fora dos planos dos “ladrões”.

Duas semanas depois dos acontecimentos de Media, os “ladrões” fizeram o seu pacto de silêncio e seguiram suas vidas por caminhos diferentes, ele nunca mais tiveram, quando muito algum, contacto entre eles.

Davidon, um ativistas da paz durante toda a sua vida, morreu no dia 8 de novembro em uma hospital em Colorado. Williamson, agora com 64 anos, trabalha numa empresa de desenvolvimento humano em Albuquerque, N.M.

Os Raineses e Forsyth ficaram morando na mesma regiãoi. Em entrevistas recentes eles defedenram suas condutas.

“Todo mundo, nos movimentos sociais daquela época, fosse dos direitos civis ou da ação contra guerra, tosos sabiamos que o FBI não estava apenas investigando as pessoas envolvidas em protestos legais, a agência estava também promovendo sugeiras, plantando armadilhas, por exemplo”, disse Forsyth, que mora em Manayunk e é engenheiro chefe de uma indústria de aparelhos óticos.

Bonnie Raines disse: “Todos sabiamos o que estava acontecendo, mas não tinhamos provas”.

Ela e seu marido moram em um prédio de dois andares em Center City e têm sete netos. Ele se aposentou em junho de 2011 como chefe do Departamento de Estudos religiosos de Temple e ainda está dando um curso sobre os protestos sociais de 1960.

Perguntado sobre como a direção de Temple vai reagir ao livro, John Raines respondeu: “Eu espero que eles fiquem orgulhosos”. (Nota do Tradutor: como eu também estou orgulhoso de fazer esta tradução)


Os personagens

William C. Davidon. Num memorial recentemente feito em Haverford College, onde ele foi professorde Física e Matemática até sua aposentadoria em 1991, os oradores lembraram Davidon detalhadamente, sua paixão pela paz ao longo de toda sua vida e como ele participava dos protestos com humor. Ele fez a campanha contra as armas nucleares, marchou pelos direitos civis no Sul, e era uma conselheiro dos opositores a guerra do Vietnam. Morreu agora, em 8 de novembro com 86 anos.

John C. Raines, agora com 80 anos. Vem de Minnesota duma familia de pastores Metodistas, Raines foi um veterano dos direitos civis no Sul de 1961 a 1965 quando assumiu o ensino de religião na Temple University, em 1966 tendo se tornado chefe do departamento. Ele é “um dos poucos acadêmicos da área de estudos cristãos que fez pesquisa e escreveu artigos e livros sobre a luta de classes na America” escreveu.

Bonnie Raines, agora com 72. Vem de Michigan, ela fundou duas centrais de crechesem Filadelfia, escreveu em 1989 uma monografia sobre “crianças sem supervisão”, e de 1995 a 2008 foi um membro associado do que agora é Public Citizens for Children and Youth, onde ela permanece como volutntária. O quarto filho do casal nasceu alguns anos depois do “roubo”.

Keith Forsyth, agora com 63 anos. Abandonou os estudos duma universidade em Ohio para se juntar ao à resistência contra guerra em Fladelfia, se especialisou em abrir fechaduras porque o pessoal da resistêcia contra guerras tinha que penetrar nos locais dos alistamentos militares. Depois ele terminou um curso de engenharia elétrica na Drexel University, entrou para o campo ótica elétrica e fotonica sendo atualmente o engenheiro chefe da Avo Photonics in Horsham. Ele também dá aulas de Matemática.

Bob Williamson, agora com 64 anos. Vem de Runnemede, abandonou os estudos para se juntar ao movimento contra a guerra tendo participado de diversos raids contra centros de alistamento militar antes de ser cooptado para o “roubo” de Media. Se descreve atualmente como “um conservador libertário”, faz “atendimento para o desenvolvimento pessoal e treinamento na indústria de seguros” em Albuquerque, N.M.


Os números

0: impressões digitais encontradas. Os “ladrões” usavam luvas.

200: número de agentes do FBI que trabalharam no caso.

400: processo abertos contra possíveis suspeitos.

1,800: entrevistas feitas na área de Media.

4,500: número de máquinas da Xerox que foram pesquisadas para descobrir onde foram feitas as fotocopias.

33,698: páginas no arquivo publicado do FBI “MEDBURG” file.

Fonte: “O roubo” e registros do FBI.


mjwagenveld@gmail.com

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