Mobilidade urbana

E se pedalássemos esta bicicleta?

06.01.2014 10:18

Opinião de

Carla Castelo
Jornalista
 http://sicnoticias.sapo.pt/opinionMakers/carla_castelo/2014/01/06/e-se-pedalassemos-esta-bicleta1

Neste início de 2014 as alterações ao Código da Estrada suscitaram dúvidas e discussão. Dar à bicicleta estatuto de veículo de pleno direito na estrada, e aos utilizadores deste meio de transporte direitos e mais segurança, causou estranheza a quem vê nos veículos a motor – e sobretudo nos automóveis  – os únicos com direito a circularem na via e até a ocuparem passeios.

Entre a clique automóvel-dependente generalizou-se o preconceito de que as bicicletas “atrapalham” a circulação rodoviária e que os ciclistas são “indisciplinados” que até passam sinais vermelhos. Isto sem qualquer fundamentação estatística ou base científica, como acontece aliás com todos os preconceitos e generalizações. Só faltava virem dizer que os automobilistas passam sempre no verde, que nunca causam acidentes e que jamais um carro atropelou um peão ou um ciclista. Vale a pena usar de bom senso e não criar tensão nem fomentar conflitos em que ninguém sairá a ganhar.

O que o novo Código da Estrada vem fazer com a introdução do conceito de «utilizadores vulneráveis» (peões e velocípedes, em particular, crianças, idosos, grávidas, pessoas com mobilidade reduzida ou com deficiência) é proteger as pessoas. Deixemo-nos de automobilistas para aqui e ciclistas para ali. Os veículos servem para transportar pessoas e, a pé ou a pedalar uma bicicleta, qualquer um de nós está mais vulnerável em caso de acidente do que ao volante de um automóvel, rodeado de chapa metálica. Por isso a lei diz que os condutores devem ter particular atenção aos «utilizadores vulneráveis» e não podem pô-los em perigo.

Cada peão ou cada ciclista é uma pessoa que poderia ser o filho, a mãe, a irmã, ou o avô de quem está ao volante. É preciso que os automobilistas não esqueçam a sua condição humana quando entram na máquina, potencialmente mortífera, que é o automóvel.

Numa altura em que, devido à má qualidade do ar em muitas cidades da Europa, com graves consequências para a saúde pública, a própria Comissão Europeia lançou um novo pacote para a mobilidade urbana, em que pretende fomentar uma evolução para formas de transporte mais limpas, todas as medidas para promover a coexistência pacífica e soluções mais sustentáveis deveriam bem vindas. Reduzir a poluição e o congestionamento nas zonas urbanas não é uma meta para beneficiar os passarinhos ou faz crescer as flores ou agradar a uma trupe alternativa que gosta de pedalar ou andar a pé pela cidade. Melhorar a qualidade do ar melhora a qualidade de vida e a saúde das pessoas. De todas elas, independentemente do meio de transporte que utilizam.

Ter um sistema de transportes menos dependente do automóvel particular (não o excluindo, como é óbvio), apostando numa boa articulação entre transportes públicos e bicicletas e num desenho urbano mais favorável aos percursos pedonais e cicláveis, permite ainda ser mais eficiente na utilização dos recursos e reduzir importações de combustíveis fósseis, redução fundamental para o País ao contribuir para diminuir o défice.

Além disso, a aposta na bicicleta pode ser também uma aposta na economia local e nacional. Pelas contas da ABIMOTA, a associação nacional das indústrias de duas rodas, o setor industrial ligado aos velocípedes é responsável por exportações de cerca de 200 milhões de euros por ano e pode crescer.

Se todos pedalássemos esta ideia não seriam só os habitantes das cidades a ganhar qualidade e anos de vida, poderia também ser a economia do país, ao reduzir importações e ao criar riqueza e empregos, fabricando aquela que já foi considerada a máquina mais eficiente criada pelo Homem; aquela que converte calorias em combustível.

2 pensamentos sobre “Mobilidade urbana

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s