O Egoista

 

O Egoista

Tarcisio Praciano-Pereira

Meu pai era um tremendo egoista e ensisnou-me a ser egoista! Egoista, sim, 
mas burro, não.

Eu fui filho único até os quatro anos, eita escola foderosa de egoismo é essa de filho único numa família de boa condições.  O produto tem que ser um egoista refinado, e eu sou egoista! Mas não sou burro, e meu pai me ensinou a sonhar pelo meu irmão que vinha chegando e fui com ele à maternidade, ansioso para o ver o meu irmão recém nascido e que iria dividir comigo o espaço familiar.

Meu pai era um tremendo egoista, de noite, depois do jantar, ele me chamava, me colocava numa rede, dentro dum mosquiteiro, porque em Belém sem mosquiteiro os carapanãs levam a gente. Ele se deitava no chão, dentro do  mosquiteiro, claro, e de leve balançava a rede fazendo uma das coisas que ele mais gostava, que era recitar poesias. E tome Guerra Junqueiro, o fiel, por  exemplo que eu quase que sei de cor que nem ele. E assim ele, egoista, se livrava do traquinas e podia gosar em paz o resto da noite na companhia da minha deliciosa mãe sem a presença importuna do traquinas. Meu velho era um tremendo egoista, era egoista mas não era burro.

Uma das histórias que o velho egoista me contava, cuidadosamente treinando-me na arte do egoismo, balançando a rede escondida dentro do mosquiteiro, era a história dum puta egoista menino holandês. 

Não é que os holandeses sejam melhores do que os brasileiros, e não são mesmo. Os holandeses, os franceses, os ingleses, os portuguêses, os franceses, os espanhois, os belgas acabaram com a Africa de onde roubaram toda a riqueza que fazem com eles ainda consigam viver bem, transformando a África no inferno que nós sabemos que é. Frances, holandeses, portugueses, espanhois, belgas, ingleses são tremendos egoistas e burros. Tão burros que vivem, alguns, sob o jugo de velhas famílias reais corruptas e sujas, com eles cabisbaixos suportanto toda aquela pinóia real! 
Mas esta história tem que se com um menino holandes para dar  certo como meu pai, velho egoista,  me contava.

Voltando para o meu pai e para história do egoista menino holandês, que voltando da escola de repente vê um buraco no dique e não tem dúvida, é o seu dever, vai lá e coloca o dedo no buraco para evitar que o mar derrube o dique, avisando para os seus coleguinhas para irem em busca de alguém para  vir fechar o buraco, porque ele sabia que um buraco no dique deixaria que o mar recuperasse tudo que eles os holandeses haviam roubado do mar. A Holanda   é um país baixo, ao nível do mar, que eles, os holandeses, expulsaram mais  para fora para ficar com mais terra. E o egoista do garoto holandês aprendeu  a lutar contra o mar para vencer junto com seus compatriotas e ganhar a terra  para todos. Diabo de menino egoista o holandês, egoista mas não burro com  quem meu pai me ensinou a ser egoista.

Mas a melhor das histórias de egoismo que aprendi com o meu professor foi mesmo a da téia de aranha. Ainda sinto a garganta se fechando de emoçao quando lembro-me desta história que ouvi deitado na rede antes de mergulhar no sono profundo com que o velho egoista do meu pai se livrava do traquinas do filho que eu era. 

Era um buraco enorme onde várias pessoas haviam caído e estavam lá impossibilitadas de readquirir a liberdade presas dentro das paredes íngremes e altas do buraco. Tentavam escalar a parede para apenas cair de volta. Quando já estavam sem esperanças eis que uma delea vê uma aranha enorme tecendo uma teia muito grande com fios grossíssimos se estendendo para dentro do buraco e uma delas, rapidamente,  corre e pega o fio e começa com ele a escalar a altíssima parede do buraco, e o fio grosso da teia de aranha suportou bem o seu o peso e ele consegui subir, quando olha para baixo e vê que toda a plebe está também subindo pelo fio. O egoista não se contém e berra, e grita para os outros que larguem 
o fio que aquele fio é somente dele. Neste momento o fio se quebra não suportando o peso dum único egoista burro, o fio que antes estava suportando o peso toda a malta que tentava subir por ele. É, o peso dum egoista burro,  não tem téia de aranha que seja capaz de aguentar um tal peso.

Eu sou um tremendo egoista treinado por outro refinado egoista, o meu pai, que me ensinou cuidadosamente a ser um perfeito egoista, mas não ser burro, e comprender que a téia de aranha pode nos servir para todos para sairmos do buraco, mas não suporta  o peso dum único egoista burro.

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