A naturalização da barbárie

A naturalização da barbárie

 Maria do Rosário

Fabiane, Francisco, Márcio. Esses são alguns dos brasileiros e brasileiras que sofreram na pele a violência pela via dos linchamentos que se espalham por vários lugares do país. A frequência desses atos de barbárie deve colocar todo o país em alerta. Diante dos casos que se multiplicam, espalha-se um sentimento de naturalização da violência e de falência da sociedade e das instituições do Estado Democrático.

A situação mais recente que chocou o Brasil foi o espancamento da Fabiane Maria de Jesus, morta no início deste mês, em Guarujá, no litoral de São Paulo, ao ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças. Ela deixa duas filhas órfãs por causa de um boato espalhado por meio de redes sociais, que repercutiu como pólvora. Fabiane foi julgada, sem direito à defesa, condenada e sentenciada à morte por uma turba enfurecida.

Outros dois casos revelam a violência contra duas pessoas com deficiência mental. Francisco Pinheiro, do Ceará, e Márcio dos Santos, em Alagoas, também foram espancados até a morte. Erramos ao acreditar que seria isolado o primeiro episódio bárbaro dessa série, no qual um adolescente negro foi surrado e amarrado nu a um poste no Rio de Janeiro.

A valorização que setores da mídia deram ao ato dos chamados justiceiros naquele momento incentivou, claramente, ações violentas e ilegais que estão transformando cidadãos que afirmam não mais acreditar nas instituições em pessoas que praticam crimes. Em meio a tudo isso é importante referir a atitude firme de uma jovem estudante que impediu que um rapaz acusado de roubo em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, fosse mais um dessa triste estatística. Na última terça-feira, dia 13, Mikhaila Copello, de 22 anos, colocou-se diante de uma horda furiosa para defender alguém que não conhecia. Ela própria foi agredida verbalmente por evitar a morte do rapaz. Em meio ao episódio, perguntava aos envolvidos:

– Que sociedade é essa que acabamos com bandidos virando assassinos?

A determinação desta jovem deve inspirar principalmente as autoridades a assumirem o seu papel e colocarem-se diante das pessoas, impedindo a violência, alertando e responsabilizando quem a promove ou executa. Uma política de segurança voltada à diminuição das mortes violentas exige a formação de uma cultura que enfrente a falsa lógica de que quem defende os direitos humanos é defensor de bandidos.

Mikhaila defendeu o ser humano, não qualquer ato que ele tenha praticado. Sua atitude impediu que muitos se transformassem naquilo que dizem condenar: ou seja, se tornarem criminosos. Diante de tais fatos a palavra do Brasil deve ser: basta! Linchamentos não são expressões da Justiça. São a sua negação, são crimes, são violações de direitos humanos.

É verdade que as instituições brasileiras tem muito a melhorar, mas propagar um discurso carregado de ódio e de intolerância é pavimentar o caminho para o autoritarismo, para a destruição de um país para todos, onde cada brasileiro e brasileira deva ser respeitado com igualdade. Fica o exemplo de Mikhaila.

 

Maria do Rosário (deputada federal -PT/RS e ex-ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República)

 

 

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