O primeiro capitalista

O primeiro capitalista

por Tarcisio Praciano-Pereira
Março de 2000

Há mais de 500 anos um mito colocou parte significativa dos seres humanos entregues à sanha dos que tem sede de lucros. O mito consistia na desvalorização do homem pela cor da pele e com isto os negros foram considerados sub-humanos. As religiões, todas, prontamente, se curvaram ante os interesses econômicos e abençoaram o mito transformando-o em dogma e a escravidão ficou consagrada.

As consequências nefastas deste mito absorvido pela cultura humana tem resultados graves até hoje uma vez que toda a população negra se encontra em condições inferiores dentro do conjunto da Humanidade e o preconceito contra o negro é difícil de arraigar.

De forma idêntica outros preconceitos se estabeleceram e permanecem. Alguns convivem conosco de forma sutil, apesar de que suas consequências não sejam nada suaves. Um desses mitos diz respeito à propriedade e à riqueza. Sumariamente o mito reza que é justo que haja diferença entre as pessoas e entre os povos. Que pode haver povos ricos e povos pobres, que pode haver pessoas ricas e pessoas pobres. Que nada há de injusto nisto, que se trata de um fenômeno natural da Sociedade, como era natural que uns nascessem escravos e outros nascessem livres, bem simples.

Podemos fazer um exercício simplificado de reconstituição da história da Humanidade e concluir que não e bem assim.

E lógico pensar que houve um tempo em que eramos todos iguais, em que os nossos antepassados viviam em cavernas, viviam nús, se acordavam quando o sol já estava quente, comiam dos frutos das árvores ou de alguma caça ou pesca, e finalmente iam dormir quando o sol desaparecesse no horizonte. Uma vida simples.

Um belo dia um homem, igual aos outros, mas sem duvida com um “espirito empreendedor”, um empresário, se acordou mais cedo e também acordou os seus, seus filhos, possivelmente as suas esposas, enfim toda a malta de sua caverna ou da árvore em que moravam. Teria dito num breve discurso: de hoje em diante vamos trabalhar menos e viver melhor, vamos cercar uma propriedade onde iremos prender algumas ovelhas e “proteger” algumas árvores frutíferas, tudo para nosso uso exclusivo. Deixaremos de sair por aí andando vários minutos até encontrar uma cabra com leite, elas agora vão ficar presas aqui ao lado. Vamos escolher do bom e do melhor.

E assim foi. Para surpresa dos outros que moravam na vizinhança, neste dia, desde cedo, viram o pessoal do “empresário”, o primeiro dono de terra, cercando o sítio. Teriam sido dois ou três dias de trabalho duro, para escolher estacas e juntá-las uma a uma enterradas no chão porque não havia arame farpado ainda, uma invenção tecnológica que ainda estava por ser inventada.

Ele havia escolhido as melhores árvores, as mais frondosas e mais frutíferas para incluir dentro do cercado, árvores estas que antes estavam à disposição de todos, agora eram propriedade privada. Foi atrás das melhores ovelhas e cabras que até então pastavam livres e dando leite para quem as fosse ordenhar ou lã para quem as fosse tosar, e as colocou dentro do cercado agora restritas ao seu uso pessoal. Até mesmo contratou os serviços de alguns vizinhos para a construção da cerca, porque o seu pessoal era diminuto para uma empreitada tamanha, lhes pagando em troca com um carneiro assado por uma das esposas no final da tarde. Vejam o detalhe: o carneiro era de todos, público, mas ele ardilosamente observou que depois de assado era um produto industrial, de sua lavra, apesar de ter sido assado por uma das esposas, e não por ele, acaba de criar a mais valia.

Ele mesmo, o empresário, tinha passado os três dias que durou o processo de privatização da terra, das árvores, dos cabritos e ovelhas, andando de um lado para o outro supervisionando o trabalho. Enquanto os outros suavam, cortando estacas com grossos machados de pedra, ele dirigia o trabalho mostrando como cortar as estacas e indicando o tamanho que deveriam ter. Fez inclusive a uma primeira experiência bem sucedida de qualidade total porque cuidadosamente analisava cada estaca cortada e rejeitava aquelas que estivessem tortas ou com tamanho errado, sem esquecer uma reprimenda ao operário descuidado. Alias, conta-se, que um deles não teve direito ao jantar de carneiro assado devido a quantidade excessiva de estacas que se perderam em suas mãos. Não somente as estacas eram cuidadas pela sua cúria de qualidade total, o empresário cuidava das árvores que estavam sendo incluídas em sua propriedade, verificava se as cabras ou ovelhas escolhidas não estavam demasiado velhas, se tinham crias, enfim, desempenhava o principal e mais importante papel do processo de privatização compreendido por escolher o que houvesse melhor de público para ser transferido para a propriedade privada.

Pensou mesmo o empresário em cercar um rio que passava a uns 450 passos de sua caverna, (ainda não haviam inventado o sistema métrico), mas para seu espanto houve uma reação absurda dos que viviam a volta e usavam o rio para se banhar e nadar. Ele tentou justificar dizendo que cuidaria do rio, que o manteria limpo e que em troca venderia entradas para todos os que quisessem se banhar, nadar ou ir em busca de água.

Foi preciso usar de um estratagema “genial”, envenenar os peixes do rio e deixa-lo empestado para convencer os demais que havia uma problema de segurança, que era preciso haver alguém que tomasse conta do rio para todos. Assim ele conseguiu privatizar também o rio e a partir de então, para tomar um banho, nadar ou pegar água, era preciso trazer uma modica contribuição, proporcional ao serviço desejado: para um banho rápido, um cesto de frutas maduras, para levar água numa cabaça, era preciso trazer um cabrito ou uma ovelha, para nadar longamente era preciso trazer uma ovelha prenhe.

Mas o neo-empresário gozava do respeito e da admiração de todos, pela sua inteligência e habilidade. Quem teria a ideia, pensavam todos, de fazer uma cerca e prender os animais ali pertinho para o seu consumo? E o rio, quem pensaria em envenenar o rio para mostrar a todos que uma questão de segurança se impunha afim de que todos pudessem ter um rio limpo à disposição de todos, claro, mediante uma pequena taxa pelo serviço? E diziam, e repetiam, que inteligente o gajo que nos deixou todos de fora privatizando aquilo que era nosso.

Depois da cerca o empresário criou um serviço religioso usando um louco da região que dizia ter visto seres sobrenaturais, para ser o encarregado da moral e dos costumes e defender em nome dos tais seres sobrenaturais o direito de alguns a terem mais do que os outros, em troca os mais pobres teriam um lugar invejável junto aos seres sobrenaturais quando morressem… contanto que em vida aceitassem a desigualdade e a usurpação daquilo era público e de todos.

Assim o empresário cortou pela raiz alguns rumores levantados por alguns descontentes dizendo que a cerca não existia antes, que sem ela todos viviam bem e tinham direito a tudo, enfim umas ideias subversivas que se levantavam contra a recém criada instituição da propriedade privada. Com a ajuda dos seres sobrenaturais, todos de acordo com a evolução global criada pelo empresário, o pastor, o padre, conseguiu acalmar os ânimos em troca de uma vida melhor depois da morte.

Pois é, da mesma forma como criaram a escravidão assim se criou a privatização daquilo que é de todos. Será que teremos que esperar 600 anos para descobrir que isto é uma mentira?

Assim, na chamada data da Independência, vemos a nossa liberdade sendo cada vez mais restringida sendo os agentes desta restrição aqueles que elegemos para tratar dos negócios comuns que a todos pertencem.
Ontem, a telefonia era nossa, nos podíamos criticá-la, tinha defeitos, mas tínhamos o direito de reclamar contra ela e a víamos se aperfeiçoando a cada dia que passava. Hoje a nossa telefonia foi cercada por uma meia duzia de bandoleiros que a assaltaram e a privatizaram. Agora eles nos cobram pelo serviço que quiserem nos prestar e ainda são petulantes dizendo que o serviço lhes pertence e que nos vendem o que lhes interessar vender, como eu recebi de resposta de uma dessas privadas que exploram nossas telecomunicações quando fui reclamar das ligações que caiam muito amiúde. Me disseram que eu comprasse uma linha melhor, se a que tinha não me satisfazia.

Ontem, os rios eram nossos e neles produzíamos a nossa energia elétrica, hoje eles foram cercados e privatizados e agora o nosso país se curva humilhado ante os novos “donos” que nos entregam o que querem, quando querem, com a voltagem oscilando ou faltando, e ainda são petulantes quando reclamamos ou quando nos entregam a conta em que ameaçadoramente avisam que o serviço será cortado se o pagamento se atrasar além de alguns dias. Antes era público, agora foi cercado. Com que direito?

Ontem, nos tínhamos a maior jazida de ferro do mundo e podíamos falar grosso nas mesas de discussão sobre a utilização desta importante matéria prima, hoje, novos donos vindos de fora, com a cumplicidade de quem nomeamos para reger os nossos interesses, ficaram com o ferro e com o sub-solo a preço vil. Cercaram aquilo que era nosso e nos expulsaram de nossa propriedades e nos dizem petulantemente que não nos devemos nos aproximar sequer da alta cerca, com que protegem de nós, aquilo que antes era nosso.

Ontem, quem movimentava os nossos dinheiros, eramos nós mesmos, agora, de repente descobriram que não sabemos contar direito a grana e chamaram alguns donos estrangeiros para se assenhorear dos nossos bancos e nos cobrar juros cada vez que movimentam o nossos dinheirinho. Nos emprestam dinheiro a prazo sem juros! Puxa, nem para contar dinheiro a gente tem tecnologia adequada… eles contam o nosso dinheiro, contam e recontam e tiram um pro-labore por este trabalho avançado e ainda ficam protegidos sem pagar impostos e levam daqui para fora o que era nosso. Que inteligentes que são, eles? Ou burros os que nos administram em nosso nome?

Agora nos ameaçam com entrega da empresa que nos construímos que é uma das melhores do munto em matéria de gerenciamento de petróleo porque a imposição do banco mundial exige que não tenhamos nada nosso. Também querem destruir o Banco do Brasil, a Caixa Econômica instituições seculares de crédito de nossa Sociedade e que em ambos os casos são lucrativas para o Governo e para Sociedade, e algumas vezes falam, como dizem, “vender” os Correios.

Nossas Universidades públicas também se encontram ameaçadas de serem transformadas em “coisas sociais”, uma titulação desacreditada e fácil de apagar depois, porque também o tal banco mundial não quer que haja dinheiro público gasto com educação. E para falar a verdade, quem pediu mesmo o conselho ao tal banco mundial para vir aqui privatizar o que é nosso?

Se abrirmos uma caixa de suco de laranja produzido por uma multinacional, com as laranjas nascidas aqui e muitas vezes colhidas por crianças que recebem um pagamento humilhante depois encher uma caixa, podemos ver que ela segue as recomendações da Food and Drug Administratration, FDA, uma entidade pública americana que controla a qualidade dos remédios e dos alimentos nos Estados Unidos e parece que a controla agora aqui também… eh, os Estados Unidos podem ter Instituições públicas para gerenciar a qualidade de sua Sociedade, nós não podemos, o banco mundial não quer.

Assim vemos a nossa independência se esvoaçando e partindo. Alguns se beneficiam momentaneamente com isto.

Visão curta!

Olhem o que os ingleses, os alemães, os franceses, os belgas fizeram com a Índia, com o Paquistão e com o continente Africano por inteiro. Da mesma forma como estão fazendo aqui, chegaram e convenceram a uma meia dúzia de privilegiados que eles ainda ganhariam mais ao entregar a independência de seus países para as multinacionais ou nacionais de outras terras. Hoje a miséria canta por toda parte na Índia, no Paquistão e em todo o continente Africano. Mesmo o movimento pacifista de Gandhi foi pequeno para evitar o descalabro, era esta a preocupação central que ele tinha: de ingleses, para reger os negócios da Índia, ninguém precisava, como nós não precisamos de espanhóis, americanos, japoneses, suecos, holandeses alemães, franceses ou portugueses para tomar conta de nossa telefonia, dos nossos bancos, do nosso ferro, da nossa energia elétrica, de nossas estradas e dos nossos portos.

Alias porque, mesmo, quem construiu isto tudo fomos nós, com todos os governos de terceira classe que quase sempre tivemos, com duas ou três raras exceções.

Libertas quae sera tamen, é um velho e atualíssimo grito. Primeiro gritar, mas depois agir de maneira efetiva contra os vende-pátria, contra os Judas que nos vendem por modestos 30 dinheiros enquanto nos beijam a face com cara de irmãos.

Um pensamento sobre “O primeiro capitalista

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