Ex-cotista diz que sistema funciona, mas incomoda

Negra, hoje Relações Públicas, a blogueira Gabriela Moura teve uma adolescência difícil como tantas outras jovens de periferias brasileiras. Mas decidiu que ingressar numa universidade pública não era uma audácia, como diziam, e sim um sonho possível. Durante a vida acadêmica, no entanto, teve que enfrentar a ira dos não-cotistas. “A prática não deixa muita dúvida: educação é para quem pode comprar”. Já graduada, Gabriela diz que não restam dúvidas sobre o sistema de cotas: “Ele não substitui a necessidade de repensarmos a educação de base, mas impede que a disparidade racial do país aumente”

Favela 247 – A adolescência de Gabriela Moura foi parecida com a de muitas jovens negras, moradoras de periferias das grandes cidades brasileiras. Filha de uma costureira que já havia sido babá e empregada doméstica, o sonho de entrar numa universidade pública chegava a ser considerado uma audácia. “O ensino superior não era um direito de todos. Nós, que estávamos às margens da cidade, geralmente acabávamos por servir os que estavam no topo”, relata, em artigo publicado no blog que ela própria alimenta, o Gabinoica, etc. Hoje, aos 27 anos, Gabriela conta como conseguiu deixar as probabilidades pra trás e não só ingressar na Universidade Estadual de Londrina (UEL), pelo sistema de cotas, como se formar em Relações Públicas e, aos 24 anos, assumir a gerência de uma empresa.

O caminho não foi fácil: ao ingressar no ensino superior através de cota, teve que enfrentar a ira dos não-cotistas e ouvir que o sistema “é racismo inverso contra brancos” e que “cria vagabundos” – essa última, na opinião da autora, “possivelmente a acusação mais esdrúxula neste mar de chorume racista”. “Cotas funcionam, sim. E incomodam, também. Incomodam porque provam que vestibular não serve mais pra nada, e porque ‘mescla’ um ambiente que, até dez anos atrás, era homogêneo. Branco. As cotas provam que elite intelectual é um termo inventado para deprimir e assustar aqueles que não possuem grandes quantias de dinheiro para serem gastas em escolas que vendem mais imagem do que conhecimento”, opina Gabriela. “A prática não deixa muita dúvida: educação é para quem pode comprar”.

Leia também:  As cotas para negros: por que mudei de opinião por William Douglas, juiz federal (RJ)

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