Epidemia de ebola coloca ao nú um sistema de saúde voltado para lucros

Ebola e a epidemia do medo


http://socialistworker.org/2014/10/06/ebola-and-epidemic-fear
tradutor: Tarcisio Praciano-Pereira


Nicole Colson informa sobre o frenesi da mídia em relação ao primeiro paciente diagnosticado Ebola nos EUA – e pergunta por que uma doença descoberta em 1976, não tem um tratamento eficaz.
quase quarenta anos depois, em 06 de outubro de 2014.
tradutor: Tarcisio Praciano-Pereira

Bill O’Reilly lidera o alarmismo racista sobre Ebola.

Uma semana depois do diagnóstico do primeiro caso do vírus Ebola nos EUA, é claro que o racismo e o alarmismo se espalharam infinitamente mais rápido e mais amplamente nos EUA do que a doença, que não atingiu nem mesmo uma segunda pessoa como esta escrito.

A preocupação popular sobre Ebola é compreensível, dado seus sintomas assustadores e resultados letais na África Ocidental, onde milhares de pessoas estão infectadas. Mas isso só faz com que o frenesi sensacionalista das redes de notícias a cabo ainda mais terrível, como eles espalham mentiras e medo sobre o risco para qualquer pessoa na cidade de Dallas, onde Thomas Duncan, o paciente em questão, estava hospedado.

E eles não param com Dallas, também. A Direita especula sobre como, supostamente, negligente é a segurança fronteiriça dos EUA poderia estar colocando todos nós em risco. “Nós temos uma fronteira que é tão porosa à Ebola ou ao ISIS – ou Ebola nas costas de ISIS – poderia vir através de nossa fronteira, é a chamada da Fox News pela fala de Greg Gutfield, como um logotipo vermelho de “Alerta piscante” na tela.

As propostas por “medidas duras” foram igualmente frenéticas: Travar todos os voos de e para a África Ocidental! Não deixar que qualquer pessoa com passaporte dum país Africano Ocidental venha para os EUA! Criar uma “cerca dupla, cerca triplo, o que for preciso!” de acordo falastrão Charles Krauthammer, capturado em brilhante montagem da extrema-direita Freak Show no The Daily Show.

Claro, Ebola não pode ser combatida com maior militarização dos EUA ou em qualquer outro lugar.

Se os líderes políticos norte-americanos realmente quisessem parar o virus da Ebola eliminarndo uma ameaça para os EUA – para não falar de enfrentar uma enorme crise humanitária na África – o primeiro questão seria um afluxo maciço de dinheiro sem carimbo para assistência médica e monetária para os países da África Ocidental. A Organização Mundial de Saúde estima que pelo menos um bilhão dólares é necessária.

No entanto, a administração Obama tem-se centrado sobre o envio de milhares de soldados norte-americanos para a África. Eles não somente não vão poder fornecer o tipo de ajuda necessária, mas pelo contrário podem agravar a epidemia em locais onde a “proteção militar americanda é vista com desconfiança, para dizer no mínimo – e com razão.
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EBOLA já matou cerca de 3.000 pessoas na África Ocidental, com pelo menos outro tanto já infectado – e essas estimativas são provavelmente por baixo. O cenário do pior caso, de acordo com os Centros dos EUA para Controle de Doenças, é um total de 1,4 milhões infectados na África Ocidental até o final do ano.

A Organização Mundial de Saúde caracterizou o surto de “sem paralelo nos tempos modernos.” Taxas de mortalidade da doença são estimados dum nível tão alto como da ordem de 70 por cento. No final de setembro, a Serra Leoa já havia colocado cerca de um terço de sua população – 2,2 milhões de pessoas – em quarentena depois que buscas de casa em casa descobriram centenas de novos casos.

Esta enorme quantidade não se justifica “porque Ebola é transmitido facilmente”, pelo contrário, o vírus é transmitido apenas pelo contato direto com os fluidos corporais de uma pessoa infectada.

A taxa de transmissão em lugares como Serra Leoa, Libéria e Guiné tem muito mais a ver com a pobreza e a extração de recursos, a superlotação nas favelas urbanas, a falta de educação pública e programas de saúde pública, e falta de acesso aos cuidados de saúde e pequena quantidade de resources voltados para os cuidados da saúde — incluindo (1) equipamento de protecção para o pessoal médico e (2) os tipos de instalações médicas que poderiam isolar e cuidar daqueles que já se encontrem infectados.

Nos EUA, Thomas Duncan estaria em estado crítico, e as autoridades de saúde estão monitorando de perto as 10 pessoas que estavam em contato mais próximo com ele – embora não haja nenhuma indicação ainda de que qualquer uma dessas pessas tenha contraido a doença.

Por mais assustadora que a ameaça de uma epidemia de Ebola possa ser, a triste verdade é que os americanos estão muito mais propensos a morrer de doenças cardíacas (600.000 mortes por ano) ou as gripes (geralmente milhares, e às vezes dezenas de milhares de mortes por ano ) nada comparável com a ebola. E as mulheres no Texas têm muito mais que se preocupar com o fato de que a maioria das clínicas de aborto do estado foram fechadas apenas quando um tribunal federal de apelações confirmou a lei promulgada pela direita.

No entanto, a resposta da direita é a busca de “bode expiatório” simbolizado pelo relatório que Duncan, um cidadão liberiano que viajou para os EUA em 20 de setembro, está declaradamente com um potencial de acusações criminais dos promotores em Dallas, incluindo “Nós estamos verificando se o homem, consciente e intencionalmente expôs o público a um vírus mortal, tornando este um assunto criminal para Dallas County”, disse o porta-voz do escritório da promotoria Debbie Denmon em um e-mail para a estação de Dallas WFAA.

Isto é, se Duncan sobreviver, é claro.

O Advogado Geral de Dallas, Craig Watkins, diz que seria “irresponsável” não levar em conta tais acusações. Mas, procurar atribuir crimes aos pacientes portadores de doenças infecciosas é de fato uma “irresponsabilidade”.

Criminalização, de acordo com Bonnie Castillo, uma enfermeira e diretora da Rede Nacional de Enfermeiros da “Registered Nurse Response Network” (Rede de Enfermeiras Registradas), é “exatamente a abordagem errada e não fará nada para evitar a ebola ou qualquer outra pandemia”. Pelo contrário, ameaçando as pessoas com prisão pelo “crime” de ficar doentes, vai assustá-las na busca de assistência médica.

Funcionários da Libéria, também anunciaram que planejam processar Duncan, alegando que ele mentiu num formulário de triagem no aeroporto sobre ter entrado em contato com alguém afetado pelo Ebola. Mas essa decisão provavelmente tem menos a ver com a crença Duncan ou outros se tenham intencionalmente expostos à infecção e muito mais a ver com a tentativa do governo liberiano de preservar links com os EUA e outras nações ocidentais.

Duncan teria contraído o Ebola depois de ajudar a transportar uma mulher grávida que estava infectado num táxi para um hospital – embora não esteja claro se ele ou qualquer outra pessoa soubesse, no momento, que a mulher estava doente com Ebola. (nota do tradutor: Duncan parece ter agido de forma humanitária tentando ajudar a uma doente e de fato é muito pouco provável que soubesse que tipo doença ela tivesse do contrário poderia ter se eximido de ajudar com contacto directo que iria afetar sua própria vida, sobre isto veja noutro lugar que Duncan chamou atenção das autoridades hospitalares, sobre sua viagem da região Africana sob a pandemia de ebola)

Depois de viajar para os EUA, Duncan foi para o Texas Health Presbyterian Hospital em 25 de setembro e informou que ele tinha estado na Libéria. Ainda assim ele foi mandado para casa com antibióticos.

O sobrinho de Duncan teve que chamar pessoalmente o Centro de Controle de Doenças, depois que seu tio foi liberado do hospital, com medo de que ele não tenha recebido a atenção adequada e que os outros “se pudessem infectar, se ele não fosse corretamente atendido” , disse o sobrinho à NBC News.

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O primeiro caso de Ebola nos EUA expôs algumas das falhas do sistema de saúde dos EUA, (nota do tradutor: e não somente dos Estados Unidos da America do Norte, mas também do caso brasileiro) para responder a essas crises, mesmo em pequena escala.

De acordo com autoridades de saúde pública, por causa do sistema, com fins lucrativos colocado em uso nos EUA, (Nota do tradutor: e não somente lá, como aqui, no Brasil, também) os preparativos para uma crise de saúde em larga escala como uma epidemia são totalmente inadequados. Em uma pesquisa com enfermeiras de mais de 250 hospitais em 31 estados, a National Enfermeiros United constatou que:

— 80 por cento diz que o seu hospital não lhes comunicou qualquer política em relação a admissão potencial de pacientes infectados pelo vírus Ebola;

— 87 por cento diz que o seu hospital não forneceu processo educativo sobre Ebola com a possibilidade de que os enfermeiros para interagissem e fizessem perguntas;

— Um terço diz que seu hospital não tem suprimentos suficientes de proteção para os olhos (viseiras ou óculos de proteção com proteção lateral) e roupas resistente a fluidos ou sejam impermeáveis​​;

— Quase 40 por cento diz que o seu hospital não tem planos para equipar os quartos de isolamento com colchões e almofadas cobertas de plástico e descartar todas as roupas após o uso;

— Mais de 60 por cento diz que seu hospital não consegue reduzir o número de pacientes para acomodar e cuidar de alguém que deva ser mantido em “isolamento”.

(nota do tradutor: e eu queria ver estatística semelhante, se é que existe alguma inciativa para mantê-la ou executá-la à nivel nacional e de forma independente das direções de hospitáis ou da administração pública)

“O que nossas pesquisas mostram é um lembrete de que não temos um sistema nacional de saúde, mas uma coleção fragmentada de empresas de saúde privadas, cada uma com sua própria maneira de responder”, diz Bonnie Castillo.

Em geral, o sistema de cuidados de saúde com fins lucrativos dos Estados Unidos tem um desincentivo embutido para procurar tratamento imediato. Imigrantes sem documentos, por exemplo, temem as repercussões se eles forem para uma unidade de saúde. @s trabalhador@as nos serviços com baixos salários, em geral sem seguro de saúde ou licenças por doença, normalmente desistem de procurar tratamento por causa do custo. Com doenças infecciosas, especialmente uma tão grave como Ebola, todos os dias há mais de exposição, na comunidade, aumenta o risco de que a doença se espalhe.

E não é apenas o sistema de saúde. Em 2 de outubro, a limpeza no complexo de apartamento de Duncan foi interrompido, temporariamente, quando as equipes contratadas para remover todos o material potencialmente perigoso do apartamento, tiveram que parar de trabalhar – porque a empresa não tinha permissão para transportar material perigoso pela estrada.

Isso deixou os familiares de Duncan, essencialmente, presoa dentro do apartamento, junto com toalhas, lençóis e outros materiais que Duncan pode ter usado – e sob ameaça de processo criminal, se eles saissem. (Eles já foram realocados.)
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O próprio capitalismo permitiu que este último surto do ebola tenha vindo a florescer – não só através da extração sistemática de recursos para lucrar com a África, resultando em altos níveis de pobreza e os tipos de condições que promovam a transição da doença, mas de uma forma mais direta.

Surtos de Ebola apareceram pela primeira vez em 1976 – ainda assim, quase quatro décadas depois, ainda não há vacina nem drogas amplamente disponíveis para o tratamento. Como informou a BBC em 2012, “Os cientistas dizem que a sua compreensão da natureza do vírus melhorou significativamente ao longo da última década. Mas as chances de transformar esse conhecimento em uma vacina são muito dependentes de dinheiro”.

Durante esse surto, uma droga experimental promissora, conhecido como zMapp, foi dado a um punhado de pacientes ocidentais – mas zMapp já estava em falta e permanece indisponível para os africanos.

A empresa que produz zMapp, Mapp biofarmacêutica, foi fundada em 2003 “para desenvolver novos produtos farmacêuticos para a prevenção e tratamento de doenças infecciosas, com foco nas necessidades não satisfeitas em matéria de saúde global e biodefesa.” zMapp teria sido desenvolvido em coordenação com a Defense Threat Reduction Agency – um braço pouco conhecido do Pentágono, responsável pela luta contra as armas de destruição em massa.

Em outras palavras, este tratamento promissor para Ebola não foi desenvolvido com o objetivo de salvar as vidas dos mais afectados pela doença em mente, mas como uma defesa potencial contra a guerra bacteriológica.

De volta a 2012, Larry Zeitlin, presidente da Mapp Biopharmacueticals, disse à BBC que o “potencial comercial” de qualquer terapia medicamentosa do Ebola era limitado. “Eu acho que é pouco provável que uma grande empresa farmacêutica teria se envolvido”, disse ele. “não há uma enorme base de clientes, e Big Pharma está, obviamente, interessado em grandes lucros. Então, esses produtos de nicho que são importantes para biodefesa são impulsionadas por pequenas empresas.”

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Da mesma forma, uma vacina para o Ebola ainda tem de ser desenvolvida – em parte porque há pouco lucro a ser feito na criação de uma. Em outubro de 2012, duas das principais empresas que trabalham na criação de uma vacina contra o Ebola – Sarepta e Tekmira – tiveram o financiamento pelo Pentágono encerrado por causa de “restrições de financiamento”.

A linguagem que o presidente da Sarepta utilizou na discussão deste corte de financiamento se voltava, entretanto não para condenar a ausência duma vacina que poderia salvar milhares de vidas. O Presidente e CEO Chris Garabedian desenvolveu a sua crítica sobre a a decisão como uma derrota para os militares dos EUA: “É lamentável que [o Departamento de Defesa do] tenha uma visão de curto prazo sobre as questões programáticas e de financiamento que pode dificultar a sua capacidade de colher os benefícios estratégicos e econômicos de longo prazo do uso de uma plataforma única e comum para lidar com múltiplas ameaças”.

Ou na linguagem resumida do Wall Street Journal, ” flagelos que afetam predominantemente as pessoas mais pobres do mundo, incluindo a esquistossomose e doença de Chagas, fazer uma droga rentável não parece uma opção.”

Pesquisa e desenvolvimento de financiamento para algumas doenças, incluindo o Ebola, malária, dengue e tuberculose, subiu um pouco entre 2008 e 2012, diz o jornal – mas não por qualquer súbita sensação de altruísmo:

Os especialistas acreditam que a crescente riqueza em alguns países como a China, o Brasil e a Indonésia deve criar um maior número de contribuintes, incluindo os governos, seguradoras e pessoas físicas, dispostos a financiar tratamentos e uso de vacinas preventivas.

O analista de saúde do Deutsche Bank, Mark Clark, pede maior atenção das empresas farmacêuticas em doenças tropicais e um mix de responsabilidade social e “investimento estratégico nos clientes de amanhã, uma vez que os trópicos são o lar de mais de 40 por cento da população do mundo.”

Vacinas em mercados emergentes – onde um número das maiores empresas farmacêuticas estão se expandindo – representam um mercado de 9.000.000.000 dólares que está crescendo em torno de 11 por cento ao ano.

Há outras maneiras como o capitalismo tem sido um culpado em dificultar possíveis tratamentos no atual surto de Ebola.

A revista Science relata que centenas de doses duma vacina experimental podem ter ficado presas no Canadá, em vez de ser enviado para testes em humanos, como resultado duma disputa de propriedade intelectual. Pesquisadores acusam NewLink Genetics, uma pequena empresa em Ames, Iowa, que comprou uma licença para a comercialização da vacina do governo canadense, de “andar com os pés arrastando, nos últimos dois meses, porque está preocupada em perder o controle sobre o desenvolvimento da vacina”.

Em um artigo intitulado “Quando Ebola vier para os EUA, quem estará a lucrar?” o Washington Post destacou que quando o CDC anunciou o primeiro caso de Ebola nos EUA, na semana passada, “O mercado reagiu de acordo … O efeito monetária mais marcante do anúncio do CDC foi encapsulado nesta manchete dos USA Today: ‘os estoques de Ebola subiram depois que a infecção atingiu os Estados Unidos da America do Norte”.

Quando a ganância é a primeira resposta a uma epidemia que já está custando milhares de vidas, com a ameaça de muito, muito pior ainda estando por vir, é hora de perguntar se não há uma melhor maneira de organizar a sociedade.

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