Henry Giroux e a ascenção do chamado neo-liberalismo

Henry Giroux e a ascenção do chamado neo-liberalismo
Sunday, 19 October 2014 00:00

By Michael Nevradakis, Truthout | Interview
Por Michael Nevradakis para Dialógica

 

tradução: Tarcisio Praciano-Pereira

com o dedo selecione no mapa mundi

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Henry Giroux discute o impacto cada vez mais negativo do neoliberalismo em todo o mundo, politica, social, economicamente e em termos de educação, e ele oferece algumas sugestões sobre o que devemos fazer agora.

Entrevista com  Henry Giroux:
Michael Nevradakis para Dialógica: Vamos começar com uma discussão sobre um tópico sobre o qual você já falou e escreveu muito … o neoliberalismo que você descreveu como “capitalismo de cassino”. Como essas idéias se apoderaram, politica e intelectualmente no mundo todo nos últimos anos?

Henry Giroux: Acho que desde a década de 1970 tem sido a ideologia predominante, certamente na Europa Ocidental e América do Norte. Como é bem conhecido, fez estragos na América Latina, especialmente na Argentina e no Chile mas também em outros países. Primeiro ganhou força no Chile como resultado dos Chicago Boys. Milton Friedman e seu grupo foram até lá e basicamente utilizaram o regime de Pinochet como um tipo laboratório para a produção de uma série de políticas. Mas eu acho que, se olharmos para este caso especificamente, estaremos vendo um monte de coisas. Estamos falando duma ideologia marcada pela venda dos bens públicos para interesses privados; o ataque aos diretos sociais; a ascensão do estado corporativo organizado em torno da privatização, o livre comércio e a desregulamentação; a celebração dos interesses individuais sobre as necessidades sociais; a consagração de fins lucrativos como a essência da democracia, juntamente com a noção totalmente reducionista de que o consumo é a única forma aplicável de cidadania. Mas mais do que isto, neo liberalismo defende a idéia de que o mercado serve como um modelo para a estruturação de todas as relações sociais: não apenas a economia, mas o governo de toda a vida social.
Eu acho que, como um modo de governo, é realmente muito terrível, porque tende a produzir identidades, sujeitos e modos de vida impulsionado por uma espécie de ética da “sobrevivência do mais apto”, fundamentada na noção do ser livre e possessiva e comprometida com o direito dos grupos governantes de acumular riqueza ignorando o custo social.
(Nota do tradutor: a observar os tópicos do projeto sustentado pelo “teórico” da economia do psdb, em particular sua observação sobre o crescimento desmedido do salário mínimo)
Essa é uma questão fundamental. Quero dizer, este é um projeto político e econômico e social particular, que não só consolida o poder de classe nas mãos do “um por cento”, mas opera assumindo que a economia pode se divorciar do custos sociais, que não têm de lidar com matéria de responsabilidade ética e social, que essas coisas ficam no caminho. E eu acho que as consequências destas políticas em todo o mundo têm causado sofrimento em massa, a miséria, e a disseminação de um maciço de desigualdades em termos de riqueza, poder e renda. Além disto, cada vez mais, estamos a assistir a um número de pessoas que estão a cometer suicídio porque perderam as suas pensões, empregos e dignidade. Vemos o ataque ao Estado social; vemos a privatização dos serviços públicos, o desmantelamento da conexão entre questões privadas e problemas públicos, a venda das funções do Estado, desregulamentação, uma ênfase desmarcada no interesse próprio, a recusa de tributar os ricos, e realmente a redistribuição da riqueza das classes médias e de trabalho para a classe dominante, a classe da elite, o que o movimento Occupy chamou de “um por cento”. O neo liberalismo, realmente, criou uma paisagem emocional e econômica muito sombria para os 99 por cento da população em todo o mundo.

E ao ter mencionado este impacto sobre o estado social e sobre os 99%, você iria tão longe a ponto de dizer que esta ideologia tem sido a causa direta da crise econômica que o mundo está enfrentando atualmente?

Ah, com certeza. Eu acho que quando você olha para a crise em 2007, o que você está vendo? Você está olhando para a fusão do poder financeiro com a noção patológica da ganância que implementaram políticas bancárias e desregulamentaram todo mundo financeiro e permitindo que a elite financeira, o um por cento, prosseguisse por uma série de políticas, principalmente a venda de títulos de alto risco e a ilegalidade do que chamamos de hipotecas de alto risco para as pessoas que não podiam pagar por elas. Isto criou uma bolha e ele explodiu. Isto está diretamente relacionado com o pressuposto de que o mercado deve conduzir todos os aspectos da vida política, econômica e social, e que a elite dominante pode exercer o seu poder implacável dos instrumentos financeiros de formas que desafiam a prestação de contas. E o que vimos é que ideologia falhou e não somente isto, mas causou uma enorme crueldade e quantidade de sofrimento em todo o mundo. Mais importante, ela emergiu da crise sem remorso sobre o que produziu, pior. se reinventou, particularmente nos Estados Unidos sob os Rubin boys, juntamente com os Larry Summers e outros, na tentativa de evitar quaisquer políticas que sejam implementadas para derrubar esta política de desregulamentação falhou macissamente.

E fica ainda pior. No rescaldo desta crise sórdida produzida pelos bancos e elite financeira, também aprendemos que as políticas feudais dos ricos foi legitimada pela falsa noção de que eles eram grandes demais para falir, uma presunção irracional que deu lugar à noção de que eles eram grandes demais para a cadeia, que é uma medida mais realista da cultura criminógena/zumbi que alimenta o capitalismo de casino.

Henry, para eleborar sobre o seu último ponto, como é que o crescimento do pensamento neoliberal e sua doutrina econômica, contribuiram, na sua opinião, para o déficit democrático que estamos vendo hoje em dia na Europa e nos Estados Unidos?

A democracia tornou-se realmente duas coisas para toda uma gama de políticos anti-democráticos, anti-intelectuais, e as pessoas que apoiam estas políticas. Democracia, basicamente, é uma palavra que eles usam, mas que trataram de esvaziá-la e inverter o seu significado para justificar as práticas e políticas mais anti-democráticas, transformando-o num termo que não tem nada a ver com questões de justiça, nada a ver com questões de direitos , nada a ver com questões de legalidade. Por uma questão de fato, torna-se um termo enganoso e contém um desvio – uma espécie de falsificação – é um termo que é usado para justificar toda uma gama de políticas que, na verdade, são anti-democrático. É paradoxal. O outro lado disto é que a elite financeira e oligarcas desprezam a democracia, uma vez que sabemos que o neoliberalismo é a antítese da democracia real, porque se alimenta da desigualdade; alimenta-se do privilégio, alimenta-se da divisão maciça, e deleita-se com a produção de um teatro da crueldade. Tudo que você tem a fazer é olhar para a forma como ele consagra uma espécie de individualismo raivoso. Ele acredita que a privatização é a essência de todos os relacionamentos. Ele trabalha intensamente para eliminar qualquer investimento em valores públicos, na confiança do público. Ele acredita que a democracia é algo que não funciona, e ouvimos e vemos isto cada vez mais a partir dos banqueiros, intelectuais anti-públicos e outros membros da torcida das políticas neoliberais.

O que mais me choca sobre o neoliberalismo em todas as suas formas, é como se mantém totalmente sem remorso sobre a miséria que produz. E é sem remorso e não apenas quando diz “nós não nos importamos,” porque temos um estado-punição que vai cuidar de crianças e jovens negros, dos estudantes e professores dissidentes que não acreditam nesta teoria. O neoliberalismo também culpa as próprias vítimas que sofrem sob esta política.
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O vocabulário do neoliberalismo postula uma falsa noção de liberdade, que se envolve no manto do individualismo e da escolha, e ao fazê-lo reduz todos os problemas ao conceito de privatização, sugerindo que as pessoas são responsáveis por todos os problemas e que a única forma de entendê-los é através da lente restritiva de responsabilidade, de caráter individual e auto-superação. Neste caso, o discurso do caráter e da responsabilidade pessoal torna-se uma cortina de fumaça para impedir que as pessoas conectem problemas privados com as considerações sociais e sistêmicas maiores.

Essa tática é realmente patológica e aponta para um completo desprezo por relações comunais, um absoluto desprezo para com os sindicatos, para com os servidores públicos e para com o bem comum. Neste caso, o neoliberalismo não aceita apoiar o bem público e bem pelo contrário como algo a ser atacado. Se estamos falando de transporte público ou escolas públicas o resultado é a visão de que estas instituições, aos seus olhos, devem ser privatizadas. O único valor dos bens públicos se encontra nos activos com os as pessoas podem ganhar dinheiro, vendendo-os aos interesses privados. Eles não são vistos como instituições, que de alguma forma podem contribuir para uma cultura de formação que é o essencial para qualquer democracia viável.

E, tendo mencionado a educação pública temos agora, um grande problema na Grécia, assim como em muitos outros países, hoje, é a crescente privatização da educação, e certamente isto é algo que tem sido promovido pesadamente durante a crise em muitos desses países. De que forma o neoliberalismo e o capitalismo de casino impactou a qualidade da educação e também o acesso à educação?

Essa é uma pergunta excelente. Em relação à qualidade, é o objejtivo é emburrecer a educação até o ponto em que ela literalmente se comporta de uma maneira que é difícil de entender ou compreender. Educação tornou-se um local que caracteriza o desvalor da aprendizagem, transformaram a educação em treinamento, ou eles são vistos como locais potenciais para os modos de governança neoliberais e, em alguns casos para serem privatizadas. A imaginação radical e crítica está sob ataque na maioria das sociedades neoliberais, pois isto representa uma ameaça assim como também é uma ameaça a idéia de que a missão da educação deve ser a criação do pensamento critico, a indução dos jovens a serem engajados e adquirirem um sentido de sua própria ação, integridade, e sentirem a possibilidade de que podem fazer a diferença no mundo. Os neoliberais acreditam que o currículo deve ser organizado em torno de testes, criação de alunos passivos, e aplicar uma pedagogia da repressão. Mais importante, o ataque sobre as relações comunais que é também um ataque contra os valores democráticos e os espaços públicos que eles nutrem. Estes espaços são perigosos porque eles abrigam a possibilidade de que seja falado o indizível, expressando pensamentos críticos, produzindo dissidência, criaando cidadãos críticos e engajados.

O que está em jogo aqui é a noção de que o pensamento é perigoso. É uma política que sugere que a educação não tem como objetivo a criação de jovens criticamente informados, e que o objetivo é ser uma treinamento para o trabalho. O neoliberalismo tende a promover uma espécie de conformismo político e ideológico; é um processo de despolitização – e é também opressor, porque remove da educação qualquer sentido de visão que sugira que ela tem como objetivo a construção dum futuro que não repita os piores dimensões do presente, remove da educação a visão além dos horizontes e da alegada prática do possível. Eu acho que, nesse sentido, essa ênfase na memorização, esta ênfase em testes, esta ênfase na disciplina … muitas dessas escolas estão sendo transformadas em academias militares, muitas escolas, especialmente em Chicago.

Acho que o que as reformas neoliberais fazem é ignorar todos os problemas básicos que são realmenteo os importantes e através dos quais as escolas têm de ser compreendidas e reformadas no interesse de criar cidadãos criticamente envolvidos. Esta forma de ver cidadã sugere que qualquer tentativa de reformar as escolas tem estar ligada às lutas mais amplas sobre o racismo, a desigualdade, a pobreza, a militarização e a ascensão do Estado punitivo. As crianças não podem aprender, se estiverem com com fome. As crianças não podem aprender, se estiverem em escolas onde não há recursos. As crianças não podem aprender se as turmas tiverem 40 alunos. Você não precisa ser um cientista para descobrir isto. E eu acho que o que você realmente precisa entender é que a direita sabe disto. Não é apenas um tipo de ignorância deliberada. As escolas não estão sendo desprovidas de fundos porque os governos estadual e federal não tem o dinheiro. Eles estão sendo desprovidas de fundos porque a direita quer que eles falhem. Os recursos estão disponíveis, mas eles estão sendo redirecionados para o complexo militar-industrial, para as políticas de impostos mais baixos para os ricos e para os salários exorbitantes da elite financeira. Esta é uma política simpelsmente sistêmica para certificar-se de que, se a educação vai ser importante se estiver dentro dos interesses da elite. Não vai se importante para todos os outros, no sentido de oferecer os melhores recursos possíveis e capacidades que ela pode oferecer.

Então, você iria mais longe ao dizer que a educação e, particularmente, o ensino superior, hoje, deve reforçar a doutrina neoliberal dentro da sala de aula?

Eu não acho que haja qualquer dúvida sobre isto. Você pode pegar o jornal todos os dias e ler a idiotice que sai das bocas destes administradores, não importa que se trate do Texas, do Arizona ou da Flórida. A universidade está sendo corporativizada duma forma que nunca vimos antes. E nós sabemos o que isto significa; sabemos quais são as condições que estão produzindo isto. O que é particularmente preocupante é a forma como supostas reformas, tais como os padrões de núcleo comum, que descontextualizam ensino e aprendizagem, afirmando que as condições maiores, que dizem respeito a todos os tipos de restrições sobre as escolas púbicas, sobre o ensino e sobre a forma como os alunos podem aprender, não interessam. Esta é uma forma muito caracteristica da privatização e da forma comercial como está sendo conduzida a educação que despolitiza, pois descontextualiza os aspectos mais importantes da educação e da pedagogia. Como podemos falar de aprendizagem sem falar sobre a máquina de desigualdade que gerencia o financiamento das escolas, as políticas de direita que estão sendo implementadas, os modos fundamentalistas de aprendizagem, tais como o criacionismo, ou a desqualificação dos professores, sugerindo que a sua única função é ensinar para o teste? Esta é verdadeiramente uma pedagogia da repressão e, ironicamente, está sendo defendida não apenas pelos conservadores, do clube de bilionários, mas também por alguns progressistas.

Em um nível, você tem governadores de direita que se vêem como os servos da riqueza corporativa, e estão todos muito dispostos a visualizar todas as relações sociais em termos estritamente comerciais. Esta visão covarde do mundo político é reforçada por democratas que devem ser vistos não apenas como um outro ramo do partido do negócio, mas como membros do clube dos enganadores, o que pode ser chamado de “republicanos Lite.” (Nota do tradutor: a observar que democrata e republicano são os nomes dos dois ramos do único partido que serve ao poder com a aparência de dois partidos nos Estados Unidos da America do Norte) O que ambas as partes partilham é um caso de amor com a sociedade capitalista estruturada em enormes desigualdades de riqueza e poder, uma forte crença em expansão militar no exterior, a intensificação da militarização em casa, e a mudança em curso, implacável, na transferência dos poder da classe trabalhadora e da classe média para as mãos do um por cento. Nós vemos relances desta ideologia compartilhada com aceite de equipamentos militares, como o F-35 Strike Fighter jet, que não vai poder voar na chuva, e custa cerca de $ 200 milhões cada. (Nota do tradutor: menção aos gastos militares milionários nos Estados Unidos da America do Norte). Os políticos de hoje são na sua maioria groupies dos ricos e poderosos, que são todos muito dispostos a repartir bilhões para o estado de guerra, mas muito pouco para proporcionar a todos os jovens nos Estados Unidos com uma educação de qualidade e modo de vida decente. Como Imara Jones apontou, a 4.400 bilhões dólares já gastos com as guerras no Iraque e no Afeganistão que poderiam financiar uma educação universitária gratuita para todas as pessoas nos Estados Unidos da America do Norte nos próximos dez anos.

Quer dizer, o orçamento militar está inchado; é o maior do mundo; você pode somar os próximos 15 orçamentos militares: eles não se somam o valor do orçamento militar dos Estados Unidos. Então você tem essa apropriação indevida de dinheiro. Não é que nós não tenhamos o dinheiro para a educação mas sim como está havendo uma apropriação indevida destes fundos. Nós nos estamos apropriando no interesse dos jovens. Nós não estamos destinando-os ao interesse da educação. Nós não estamos usando a nossa riqueza para criar um sistema de saúde universal, ou para fornecer alimentos para os necessitados. E assim, como a educação está sendo desapropriada, o que acontece é que você tem esses modelos de negócios agora estão sendo incorporadas na universidade que exigem, por exemplo, os administradores “vips”. E por falar nisto, como você sabe, eles são o grupo de maior ascensão na educação nos Estados Unidos. Os administradores agora superam os professores em nível de salários, e eles estão drenando enormes quantidades de recursos longe dos olhos dos estudantes.

Em segundo lugar, é claro, professores perderam o poder. Em terceiro lugar, estão abolindo os sindicatos, a dissidência está sendo reprimiu de forma abominável e começamos a nos lombrar do período McCarthy. Você tem professores que, basicamente, estão sendo graduados pelo capacidade com que eles podem conseguir subvenções. Os assuntos que não estejam imediatamente associados com treinamento vão custar mais para os estudantes em estados como Texas. Texas foi tão longe a ponto de estabelecer a redução dos custos de matrícula para as faculdades e cursos que se dirigem diretamente aos interesses comerciais. Você pode imaginar? Ao subir a taxa de matrícula para cursos da área de humanas e artes liberais que esses governadores de direita afirmam estes cursos não contribuem em nada para a economia. E o outro lado desta visão que os alunos agora são vistos como consumidores ou crianças irrequietas que precisam para ser entretidas. Eles não são vistos como importantes investimentos no futuro e, particularmente, para um futuro democrático. Eles estão apenas considerando os cursos como caça-níqueis, e é por isto que há um grande impulso nas universidades para estudantes estrangeiros, porque eles são uma vaca leiteira. Eu acho que a universidade está em crise, e está em uma crise terrível sobre o que está acontecendo em termos de sua incapacidade para realmente tirar proveito de uma missão, que nos anos 50 e 60, com todas as suas contradições e todos os seus problemas, pelo menos, tinha a sensação de que a faculdade era mais do que simplesmente uma oportunidade de capacitação para o trabalho ou que a universidade era mais do que um complemento do complexo militar-industrial.

Henry, com base no que você disse que a universidade está em crise, como é que esta mudança que tem ocorrido, impactado a educação especificamente nas artes liberais e ciências humanas, e como isto tem afetado o mercado de trabalho para os acadêmicos? Há muitos na Grécia, por exemplo, que os estudantes vêem uma carreira acadêmica no exterior como uma “saída” da crise em seu país.

Acho que duas coisas aconteceram. Eu acho que as artes liberais e ciências humanas estão sendo definidas como inúteis. Elas não se relacionam bem com a noção de universidade como uma fábrica. Eles não se relacionam bem com a universidade como um lugar onde não há interesse em ensinar os jovens a pensar de forma crítica que na verdade tem como objetivo ensiná-los a ser trabalhadores semi-qualificados. E ele não funciona bem com a estrutura poder dentro da universidade que está nas mãos dos “administradores vips” e que em alguns aspectos fundamentais, diz “isto aqui é uma cultura de negócios, nós é que vamos dizer-lhe o que fazer.”

Embora seja verdade que a visão democrática e as questões de crítica e de análise nem sempre estaão envolvidas com as humanidades e as artes liberais, o que é verdade é que as artes liberais e ciências humanas têm uma longa história de apoio a esses ideais. Esses ideais não são valorizados ou a favorecidos neste momento no ensino superior, exceto para as escolas de elite. Políticos como Arnie Duncan, o secretário de Educação, e certo número de políticos estaduais, funcionários da educação, procuram desprezar esses ideais, porque eles ficam atrapalhando no caminho; eles criam problemas para os administradores que não querem uma faculdade crítica, que não querem que os alunos aprendam a pensar, que querem construir as lutas educacionais no molde do que se passou na década de 1960. Não só você tem alunos que exigem todos os tipos de coisas, desde cursos mais abrangentes, até em eliminar o racismo, a tornar as escolas mais democrática, mas eles chegam a abrir as escolas – e isto se relaciona com a sua segunda pergunta – estas lutas estudantis abriram escolas de maneiras a permitiram a educação duma variedade de grupos subordinados que foram excluídas da educação – os outros da classe trabalhadora, estudantes de renda baixa e média, os imigrantes, as minorias pobres, e assim vai. Ver, por exemplo, o brilhante trabalho de Chris Newfield sobre esta questão, ele simplesmente deixa a direita petrificada. O fato de os negros, as minorias de raça e cor, e os imigrantes poderem se tornar educados é uma hipótese assustadora para muitos direitistas, para dizer o mínimo.

Eu acho que o que vemos agora, e você tem que ligar os pontos aqui … lembre-se, você tem um partido republicano nos Estados Unidos que está fazendo tudo que pode para violar a Lei dos Direitos de Voto. Ele está tentando limitar, tanto quanto possível, a capacidade dos negros de votar. Pense em como isto se relaciona de forma fácil com a certeza de que mensalidades são altíssimos nas escolas, uma política que permite a evisceração de ensino superior de pessoas da classe trabalhadora, as minorias pobres, pessoas que são consideradas descartáveis​​, as pessoas que, basicamente, nunca seria capazes de pagar a faculdade, a menos que eles tinham fundos suficientes, subvenções, bolsas de estudo adequados adequados.

Isto não é realmente apenas um sistema econômico predatório tentando captar de volta a riqueza dos alunos para que os administradores do complexo militar-industrial ou da elite financeira. Também é basicamente sobre uma política sistêmica de exclusão. Então sim, eu acho que há questões de oportunidade – como mensalidades que subiram às alturas inacreditáveis​​, você tem gama infinita de estudantes que não podem entrar porque a mensalidade é muito cara, ou você tem alunos que irão ser sobrecarregados com dívida para o resto de suas vidas de uma forma para que eles nunca irao pensar em ir para o serviço público, porque este não fornece os salários que o mercado privado oferece. Eu acho que quando você começa a colocar esses pontos juntos, você começa a ver como a educação fundamental para o projeto neoliberal.

As pessoas na Grécia muitas vezes têm essa percepção de que a mídia internacional opera em uma base muito objectiva e digna de crédito … como você vê o papel da mídia, no entanto, no sentido de reforçar o sistema de neoliberalismo e capitalismo de casino?

Eu acho que é nojento, que faz fronteira com a bobagem se não for totalmente ingênuo supor que a imprensa está afastada das questões de poder. Nos Estados Unidos, as estatísticas são muito claras. Você tem seis grandes empresas jornalísticas que controlam os meios de comunicação. A mídia está nas mãos do poder corporativo. Que que estejamos falando sobre a Fox News ou qualquer um desses outros grupos de direita, os Murdoch que controlam os meios de comunicação … Onde você vê a análise da esquerda incluído na grande imprensa? Quase nunca. Mas se você olhar para os novos meios de comunicação, se você olhar para a mídia alternativa, como a estação de rádio que eu escujto neste exato momento, há novos espaços que se abrem e isto é muito animador, porque a mídia alternativa fala e incentiva novas fissuras no sistema que limitam a capacidade do sistema, à luz destas novas tecnologias, travar manter o tipo de controle que eles tinham no passado, mas também proporcionam um espaço para as vozes mais críticas.

Por isto, apesar do poder econômico concentrado nos meios de comunicação, que está longe de ser objetivo e imparcial – a grande mídia está totalmente sintonizada com a reprodução duma sociedade que sustenta enormes desigualdades de classe, políticas racistas, o ataque aos direitos reprodutivos das mulheres, e mantém refém o futuro dos jovens, a qualquer custo, e se isto significa que novas políticas destinadas a destruir a liberdade de imprensa de países como a Grécia ou a Espanha, ou Portugal, ou Chile ou Argentina, eles não pensam duas vezes, decidem por destruir os meios alternativos. Essas pessoas são basicamente lacaios ideológicas. Eles estão a serviço da elite financeira, e isto é o que eles fazem, eles fazem seu trabalho. Mas a alegação de que eles são objetivos, que não faz qualquer sentido para mim. (Nota do tradutor: talvez menção à reforma da agência de telecomunicações americana que está neste momento passando pelo ponto em que passamos aqui no Brasil com o “marco da Internet”, se nos EUA passar a reforma pretendida pela agência reguladora, as grandes companhias de telecomunicação é que vão decidir que velocidade quem vai ter e que preço irá pagar. Neste momento os meios alterntivos, os blogs poderão desaparecer).

Do ponto de vista político, temos visto uma crescente onda de autoritarismo e partidos oficiais de extrema-direita obtendo ganhos eleitorais nos últimos anos em vários países, do outro lado, temos talvez visto um fracasso da esquerda para responder a esta novo clima político. Como você caracterizaria a resposta da esquerda global a esta tendência que discutimos ?

Eu acho que existem três coisas que faltam, da parte da esquerda, a ser abordadas. Eu acho que nós precisamos ter cuidado ao assumir que a esquerda falhou, por mais que a esquerda esteja a aprender tão rapidamente quanto seja possível sobre o que é necessário fazer à luz da política usada no passado, que já não funcionam mais, especialmente quando se trata de políticas de desenvolvimento num mundo em que o poder se tornou globalizado.

E eu acho que as três coisas são: em primeiro lugar, eu acredito que a esquerda tem de se tornar uma esquerda internacional. O poder agora está separado da política, o que significa que o poder é global e a política é local, de modo que a política local realmente tem muito pouco poder; estados realmente têm muito pouco poder sobre a soberania das grandes corporações. Eles não podem controlá-la e as corporações não têm lealdade a ninguém, elas flutuam acima das fronteiras nacionais. Então, temos que começar a pensar em maneiras de criar movimentos, leis, políticas que realmente lidem com este tipo de rede de poder global. Esta é a primeira coisa.
Em segundo lugar, acho que a esquerda tem que tomar a questão da educação a sério. A educação não é uma política marginal, é central para a política! Se não pudermos criar a cultura formativa a nível mundial que permite que as pessoas entendam que os seus interesses estão sendo pisoteados, que eles vivem em um sistema político que foi construído por seres humanos e pode ser derrubado por seres humanos. Mas também compreender que vivemos sob uma política e um sistema económico e social que não tem nada a ver com as nossas necessidades, que, basicamente, explora as nossas necessidades, consequentemente as pessoas não serão movidas a pensar criticamente e agir coletivamente. (nota do tradutor: cabe repetir as palavras da declaração da independência dos Estados Unidos da America do Norte, “A prudência, de fato, mostra que Governos estabelecidos há muito tempo não devem ser substituidos em função de causas passageiras ou superficiais, ainda de acordo com o que a experiência nos mostrou, a humanidade está mais disposta a sofrer, a um ponto próximo do insuportável, do que se levantar para eliminar a situação a que ela se encontra acostumada. Porém, quando uma longa cadéia de abusos e violências tendo como meta invariável o objetivo de reduzí-la ao mais absoluto despotismo, é o seu direito, é o seu dever, derrubar um tal governo e assim garantir novos gardiões para o seu futuro e sua segurança. ”)

Em terceiro lugar, parece-me que a esquerda tem que ir além de manifestações. Quero dizer, ele tem passar a uma visão internacional sobre o que quer fazer, ser flexível para que possa trabalhar em associações com uma variedade de grupos. Para que isto aconteça, ele precisa duma visão abrangente que traz vários grupos juntos para que se possa desenvolver uma organização que venha a ter alguma influência, e em alguns casos, isto significa estar envolvido nas eleições locais e, em alguns casos, desenvolver associações com terceiros, e em outros trabalhar com as ONGs. Mas é preciso tomar a questão do poder a sério. O poder não é apenas um negócio, uma paulada, portanto nada significa se você faz parte duma demonstração na rua com 200.000 pessoas e depois vai embora. Esta atitude tem que se tornar mais sistêmica. Precisamos mais do que o que meu amigo Stanley Aronowitz chama de “política de letreiro”, a política de banners. Manifestações de massa para as alterações climáticas, por exemplo, são animadoras porque a chamam a atenção para uma ameaça fundamental para o planeta se transformando num momento pedagógico, mas temos que ir muito além disto. Precisamos criar uma ideológia, político-educacional, organizações internacionais que possam começar a trazer o seu peso na decisão da política global que agora controla basicamente as políticas nacionais em todo o mundo. Isto significa se deslocar para uma educação de confronto; isto significa se deslocar da crítica para a ação, significa que se deslocar do reconhecimento da crise para a prática da liberdade, dirigido por organizações sustentáveis​​, recursos de auto-sustentação, e a vontade coletiva para agir.

Copyright, Truthout. May not be reprinted without permission. Porém não estou reimprimindo, estou traduzindo o que estrá contemplando no Creative Commons como trabalho derivado.

 

Michael Nevradakis é um estudante de doutorado em Estudos de Mídia da Universidade do Texas em Austin e um US Fulbright Scholar atualmente com sede em Atenas, Grécia. Michael também é o anfitrião de Dialogos Radio, programa de rádio semanal com entrevistas e cobertura de eventos atuais na Grécia.

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