A imprensa torturada e assassinada

PANTEÃO DOS JORNALISTAS

A imprensa torturada e assassinada

Por Luiz Antonio Maciel em 09/12/2014 na edição 828

Reproduzido do Observatório das Violências Policiais-SP, integrado ao Centro de Estudos de História da América Latina (CEHAL- PUC-SP), vinculado ao Programa de Esudos de Pós-graduação em História da PUC-SP

Vladimir Herzog, um símbolo da denúncia da violência da ditadura militar contra presos políticos no Brasil, não foi o único jornalista morto durante os anos de chumbo. Além dele, mais 22 jornalistas foram torturados e assassinados pelas forças de segurança no período. Passados mais de 20 anos do término do regime de exceção, vários deles ainda constam como desaparecidos. Além desses 22, centenas de jornalistas, dentre os quais vários da imprensa alternativa, mas também muitos que trabalhavam na chamada grande imprensa, foram perseguidos, ameaçados, cassados, indiciados em processos, condenados, exilados, presos e torturados.

Dos 22 jornalistas mortos ou desaparecidos, um pelo menos trabalhou na imprensa tradicional: Luís Eduardo da Rocha Merlino, que assinava matérias apenas como Luís Merlino. Ele começou a sua vida profissional como repórter do Jornal da Tarde, onde fez, entre outras, matérias sobre os índios Xavantes e sobre o então considerado “mau patrão” J.J. Abdala, proprietário da Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus. Posteriormente Merlino transferiu-se para a Folha da Tarde, dirigida por Miranda Jordão, e no período de 1969/1970 trabalhou no Jornal do Bairro.

Antonio Benetazzo, estudante de filosofia e arquitetura na Universidade de São Paulo, foi um dos idealizadores de um dos primeiros jornais alternativos do período da ditadura militar – o jornal Amanhã –, do qual participou também o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira, e que se tornou a origem de outros importantes veículos da imprensa nanica, como Opinião e Movimento.

Os demais 20 jornalistas sacrificados na luta contra o regime militar exerceram a profissão em jornais partidários muitas vezes clandestinos, pertencentes às mais variadas organizações de esquerda, desde o velho Partidão (PCB) até outras menos conhecidas, como Marx, Mao, Marighella, Guevara (M3-G) ou Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT). Todos legítimos descendentes do velho filósofo alemão Karl Marx, que também desenvolveu paralelamente a suas obras sobre economia e filosofia, uma intensa atividade jornalística na Gazeta Renana, na Nova Gazeta Renana, no Die Pres e até num jornal norte-americano, o New York Tribune.

Leia a seguir, por ordem alfabética do primeiro nome, um resumo biográfico desses 22 jornalistas mortos, elaborado com base em documentos coletados pelo Centro de Documentação Eremias Delizoicov e pela Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos.

>> Antônio Benetazzo

Nascido em Verona, na Itália, em 1941, foi educado por seus pais segundo os ideais da luta contra o nazismo e o fascismo na Europa. Essa formação o levou na adolescência, já no Brasil – para onde seus pais se mudaram quando ele ainda era pequeno – a uma participação efetiva em movimentos populares e estudantis. Ainda estudante secundarista, ingressou no PCB, e depois participou ativamente dos Centros Populares de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Foi presidente do Centro Acadêmico de Filosofia da USP e professor de história em cursos pré-vestibulares. Foi um dos idealizadores do jornal alternativo Amanhã.

Em 1967, saiu do PCB e ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Mariguella, uma dissidência do PCB, e posteriormente passou para a clandestinidade. Viajou a Cuba em 1971, para fazer cursos de formação política e de combate, junto com outros brasileiros, que decidiram formar uma nova organização política, o Movimento de Libertação Popular (Molipo). Mais uma vez Benetazzo se voltou para o jornalismo, como redator do órgão oficial do partido.

Preso em 28 de outubro de 1972, foi torturado ininterruptamente durante dois dias no Departamento de Operações Internas – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI, sucessor da Operação Bandeirantes, do II Exército) de São Paulo, instalado numa delegacia de polícia da Rua Tutóia, no bairro do Paraíso. Morreu no dia 30, com 31 anos, em conseqüência de traumatismo crânioencefálico. No dia 2 de novembro, os jornais divulgaram nota oficial dos órgãos de segurança informando que Benetazzo havia sido atropelado e morto por um caminhão, ao tentar fugir quando era levado por agentes da repressão para um encontro com companheiros de organização. Foi enterrado no Cemitério de Perus, como indigente, mas posteriormente a família conseguiu resgatar seus restos mortais. Em 16 de janeiro de 1973, embora já morto e enterrado, teve a prisão decretada pela Segunda Auditoria de Guerra da Segunda Região Militar.

>> David Capistrano da Costa

Membro da velha guarda do Partidão, nasceu em 1913 em Boa Viagem, no Ceará, e está desaparecido desde 1974, quando tinha 61 anos de idade. A prisão dele está comprovada pelo documento do Departamento de Ordem Política e Social do Rio de Janeiro (DOPS/RJ) número 203/187: “Segundo anotações neste Departamento, em 16 de setembro de 1974, David Capistrano da Costa encontra-se preso há quatro meses, sendo motivo a Campanha da Comissão Nacional Pró-Anistia dos Presos Políticos”. Relatório da Marinha informa que ele havia sido preso na Unidade de Atendimento do Rocha, em São Paulo, possivelmente o Hospital Psiquiátrico de Franco da Rocha.

Como sargento da Aeronáutica e membro do PCB, Capistrano participou do Levante de 1935, o que resultou em sua expulsão das Forças Armadas e uma condenação, à revelia, de 19 anos de prisão. Em 1945, porém, foi anistiado.

Capistrano também participou como combatente das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola e da Resistência Francesa durante a ocupação nazista. Ficou preso num campo de concentração alemão, mas foi libertado e regressou ao Brasil em 1941.

Em 1947, já anistiado, foi eleito deputado estadual em Pernambuco. Atuou na política pernambucana até 1964, tendo dirigido os jornais A Hora e Folha do Povo. Com o golpe de 64 passou para a clandestinidade e em 1971, não tendo mais condições de ficar no Brasil, asilou-se na então Checoslováquia. Em 1974, ao retornar para o Brasil pela fronteira da Argentina, foi preso e morto sob tortura, mas oficialmente é dado como desaparecido. O médico Amílcar Lobo, que participava das torturas nos órgãos de repressão no Rio de Janeiro, disse à Maria Carolina, filha de Capistrano, que David havia sido o último preso a que ele deu assistência enquanto era torturado nas instalações da Rua Barão de Mesquita.

>> Djalma Carvalho Maranhão

Filiado na década de 1930 ao Partido Comunista Brasileiro, Djalma Maranhão teve uma participação política eclética. No início do Estado Novo, criou em Natal (RN), onde nasceu em 1915, um jornal e um time de futebol. Depois de expulso do PCB por divergências com a direção, filiou-se ao Partido Social Progressista (PSP) de Adhemar de Barros, tendo sido eleito deputado estadual. Posteriormente foi nomeado prefeito. Em 1958, foi eleito suplente de deputado federal pela conservadora União Democrática Nacional (UDN) e em 1960 foi eleito prefeito de Natal pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN). Com o golpe de 64, teve o mandato cassado, foi preso e confinado na ilha de Fernando de Noronha. Libertado em fins de 64, partiu para o exílio no Uruguai, tendo vivido em Montevidéu até 30 de julho de 1971, quando morreu de parada cardíaca, aos 55 anos de idade. Julgado à revelia, no Brasil, havia sido condenado a 18 anos de prisão.

>> Edmur Péricles Camargo

Paulistano nascido em 1914, ingressou no PCB em 1944 e dois anos depois foi trabalhar no Sindicato dos Armadores do Rio de Janeiro. Posteriormente, em 1952, começou a exercer a profissão de jornalista em A Tribuna Gaúcha, órgão do partido no Rio Grande do Sul. Entre 1951 e 1953 participou, no norte do Paraná, da chamada Revolta de Porecatu – a luta de posseiros contra grandes proprietários de terra.

Com o golpe de 64, exilou-se no Uruguai, só retornando ao Brasil como clandestino três anos depois. Voltou ao Rio Grande do Sul em 1969, onde criou a organização Marighella, Mao, Marx e Guevara (M3-G), que mantinha contatos com a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). Junto com outros integrantes do M3-G, foi indiciado em Inquérito Policial Militar (IPM), em 1970, no Rio Grande do Sul. Preso, foi banido do Brasil para o Chile em 1971 com outros 69 presos políticos, na troca com o embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, que havia sido seqüestrado em 7 de dezembro de 1970. Após o golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende, em 1973, viajou com outros brasileiros banidos para o Uruguai, de onde pretendiam entrar no Brasil. No entanto, segundo Relatório do Ministério da Marinha, foi preso em 11 de junho de 1974 por autoridades brasileiras e argentinas quando o avião pousou em Buenos Aires. Nunca mais foi visto.

>> Gilberto Olimpio Maria

Paulista de Marissol, onde nasceu em março de 1942, militou no PCB e posteriormente no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). A partir de 1961, durante dois anos, cursou engenharia na antiga Checoslováquia, mas depois retornou ao Brasil. Trabalhou no jornal A Classe Operária, do PCB, até o golpe de 1964, quando passou para a clandestinidade. Nesse mesmo ano casou-se com Victória Grabois, filha de Maurício Grabois, e mudou-se para Guaratinga, no Mato Grosso, onde o casal, junto com outros militares, tentaram organizar a resistência de camponeses contra a ditadura, projeto abandonado no ano seguinte, por problemas de segurança. Em 1966, foi para a China e, ao retornar ao Brasil, morou em vários locais no interior até se fixar em Caianos, no interior de Goiás. Na Guerrilha do Araguaia, liderou o Destacamento C, junto com Dinalva Oliveira Teixeira, a Dina. Relatório do Ministério da Marinha revela que foi morto em 25 de dezembro de 1973, durante intenso ataque das Forças Armadas contra acampamento guerrilheiro na Serra das Andorinhas. Como seu corpo não foi encontrado, é considerado oficialmente desaparecido.

>> Hiran de Lima Pereira

Alto dirigente do PCB, nasceu em Caicó, Rio Grande do Norte, em 1913. Em 1946 foi eleito deputado federal, obtendo uma das maiores votações do partido, mas perdeu o mandato quando o registro partidário foi cassado. Em 1949 mudou-se para o Recife, onde trabalhou como redator da Folha do Povo, órgão oficial do PCB de Pernambuco.

No final da década de 50, quando Miguel Arraes foi eleito prefeito de Recife, Hiran de Lima foi convidado a ser o Secretário da Administração, cargo que manteve durante as duas gestões seguintes, de outros prefeitos. Paralelamente atuou como ator no Teatro Popular do Nordeste na peça A Pena e a Lei, de Ariano Suassuna, sob direção de Ermilo Borba Filho.

O golpe de 64 levou-o entrar na clandestinidade. Inicialmente permaneceu em Recife, mas depois mudou-se para o Rio de Janeiro e São Paulo, como dirigente do PCB. Teria sido preso em janeiro ou abril de 1975, com 61 anos de idade, por agentes do Exército e do DOI-CODI de São Paulo e nunca mais foi visto. É tido como desaparecido. A família acredita que seus ossos estejam entre os exumados do Cemitério de Perus.

>> Ieda Santos Delgado

Carioca nascida em 1945, era advogada e funcionária do Departamento Nacional de Produção Mineral, no Rio de Janeiro, onde trabalhava também como jornalista na Tribuna da Imprensa. Foi presa no dia 11 de abril de 1974, em São Paulo.

Relatório do Serviço de Informação do DOPS/SP, segundo documento do Ministério da Aeronáutica, datado de 17 de maço de 1975, informa que Ieda estava envolvida com pessoas presas ou seqüestradas pela polícia. Tinha 29 anos, nunca mais foi vista e é considerada desaparecida.

>> Jayme Amorim Miranda

Advogado e jornalista, nascido em julho de 1926 em Maceió, Alagoas, era filiado ao Partido Comunista Brasileiro e foi diretor do jornal Voz do Povo, da capital alagoana. Relatório do Ministério da Marinha datado de 1979 informa que fazia parte da relação de jornalistas do Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro que haviam sido cassados pelos Atos Institucionais 1,2 e 5.

Relatório do Ministério do Exército informa que ele “esteve em Moscou e seu nome aparece numa lista de brasileiros que em 1974 transitaram pelo aeroporto de Orly/França, com destino aos países socialistas, com o nome falso de Juarez Amorim da Rocha”. Informações suficientes, no entender dos órgãos de segurança, para que fosse preso no dia 4 de fevereiro de 1975 ao sair de casa, no Catumbi, Rio de Janeiro. É mais um desaparecido sem deixar pistas.

>> Joaquim Câmara Ferreira

Paulistano nascido em 1913, entrou para o PCB em 1933 e foi diretor de vários jornais do partido. Com o início do Estado Novo, em 1937, partiu para a vida clandestina. Detido pela polícia política da ditadura Vargas na gráfica do PCB, onde estava trabalhando, ficou vários anos preso e foi muito torturado, a ponto de perder definitivamente as unhas das mãos. Em 1946, Toledo, ou Velho, como também era conhecido, elegeu-se vereador em Jaboticabal, interior de São Paulo, mas perdeu o mandato quando foi cassado o registro do PCB. Em 1953, participou ativamente da greve geral realizada em São Paulo.

Em 1964 foi preso pela polícia por fazer uma conferência para operários em São Bernardo do Campo sobre “o papel da imprensa na luta pelas reformas de base”. Libertado pouco tempo depois, foi condenado à revelia a dois anos de reclusão.

Participou da elaboração do “Manifesto do Agrupamento Comunista de São Paulo” em 1967, que provocaria uma cisão no PCB e a criação da Ação Libertadora Nacional (ALN). Quando Carlos Marighella foi morto pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, em novembro de 1969, em São Paulo, Câmara Ferreira estava em Cuba, mas logo voltou ao Brasil para assumir o comando da ALN no lugar de Marighella.

Menos de um ano depois, no dia 23 de outubro de 1970, por volta das 19 horas, Câmara Ferreira foi preso, também pela equipe do delegado Fleury, no bairro de Moema. A tortura começou já no carro de polícia que o levou para o sítio clandestino de Fleury, onde morreu após algumas horas de maus-tratos. A nota oficial do DOPS paulista atribuiu a morte do dirigente da ALN a problemas cardíacos resultante do fato de ter reagido à prisão e lutado com os policiais. Essa versão, entretanto, foi desmentida pela presa política Maria de Lourdes Rego Melo, que relatou a prisão de Toledo, a viagem ao sítio de Fleury e a morte sob tortura. Câmara Ferreira chegou a ser atendido por um médico, levado pelo delegado para que o mantivesse vivo por mais tempo na tentativa de conseguir informações relevantes sob tortura. O corpo de Câmara foi sepultado pela família no Cemitério da Consolação.

>> José Roberto Spiegner

Nascido em 1948, em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, Spiegner começou a atuar desde cedo no movimento estudantil, quando aluno do Colégio Pedro II. Fez cursos de cinema e jornalismo. Em 1966 passou em primeiro lugar no vestibular para a Faculdade de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde atuou ativamente no Diretório Acadêmico. Simultaneamente ingressou no Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) e em 1968 foi para a clandestinidade. Dois anos depois, em 17 de fevereiro de 1970, foi morto com 22 anos de idade em suposto tiroteio com agentes do DOI-CODI do Rio de Janeiro. Foi enterrado pela família no Cemitério Comunal Israelita de Vila Rosali, no Rio de Janeiro.

>> Luís Eduardo da Rocha Merlino

Nascido em Santos, em 1948, Aos 20 anos de idade estudava História na Universidade de São Paulo e já trabalhava como jornalista, fazendo parte da equipe do jornal alternativo Amanhã, além de trabalhar também na Folha da Tarde . Em setembro de 1968, cobriu o XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, no interior de São Paulo. Nessa ocasião, já estava filiado ao Partido Operário Comunista (POC), o que o levou a participar de atividades clandestinas contra o regime militar, paralelamente ao desempenho de suas atividades normais como jornalista.

Em dezembro de 1970 viajou à França com passaporte legal, para estudar e também, como filiado do POC, pra fazer contatos com a IV Internacional, organização mundial de orientação trostskista. Em maio do ano seguinte, participa, em Rouen, Na França, como observador, do 2º Congresso da Liga Comunista, organização francesa da IV Internacional.

Provavelmente agentes de segurança internacionais estavam infiltrados no Congresso e transmitiram aos órgãos policiais brasileiros informações sobre a presença de Merlino em Rouen. Assim, cinco dias depois de seu retorno ao Brasil, o jornalista foi preso na casa da mãe, em Santos, no dia 15 de julho de 1971, e levado para a Oban, na Rua Tutóia. Lá, ele foi torturado durante 24 horas seguidas e, por permanecer durante longo tempo no “pau-de-arara”, passou a não sentir mais as pernas e a ter dificuldades para urinar, devido à gangrena nas pernas. Outros presos políticos que estavam na Oban contaram que o enfermeiro-torturador de plantão zombou dele com o chefe da equipe: “Capitão, o Merlino está reclamando de dores nas pernas e que não pode fazer pipi. Vai ver que andou demais durante a noite.” Como seu estado de saúde se agravou, no dia 17 foi levado para o Hospital Geral do Exército, onde morreu em 19 de julho, conforme atestado de óbito.

A mãe de Merlino, Iracema, entretanto, só recebeu a notícia da morte no dia 20, à noite. Nesse mesmo dia, o policial militar Gabriel informava aos presos na Oban/DOI-CODI que o jornalista morrera em decorrência de problemas cardíacos. A primeira versão que chegou à família foi a de que ele se suicidara. A segunda, dada pelos órgãos de repressão, foi a de que Merlino morrera em consequência de auto-atropelamento: ao ser levado para o Rio Grande do Sul para identificar companheiros do POC, na Rodovia Regis Bittencourt, na altura de Jacupiranga (SP), teria escapado dos agentes que o conduziam e se jogado embaixo de um carro. No Instituto Médico Legal, os familiares foram informados de que o corpo de Merlino não estava lá, mas um parente conseguiu burlar a vigilância e procurar o corpo em várias gavetas, até encontrá-lo. Assim pode ser enterrado num cemitério em Santos, escapando de ser enterrado numa vala comum do Cemitério Dom Bosco, em Perus, o destino final de centenas de presos políticos.

>> Luiz Inácio Maranhão Filho

Irmão de Djalma Carvalho Maranhão, que se exilou e morreu no Uruguai Luiz Inácio nascido em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1921, era advogado, jornalista e professor, filiado ao PCB. Foi também deputado estadual. Em 1964, viajou para Cuba, acompanhado do líder das Ligas Camponesas e também deputado federal por Pernambuco Francisco Julião. Com o golpe de 1964, ambos tiveram os direitos políticos cassados.

No dia 3 de abril de 1974, quando passava por uma praça em São Paulo foi cercado por várias pessoas. Transeuntes que pensaram tratar-se de um assalto tentaram ajudá-lo. Na verdade, ele estava sendo preso por agentes da equipe do delegado Fleury. Foi algemado e levado num veículo. Nunca mais foi visto. O ex-médico e torturador Amílcar Lobo declarou, em entrevista à revista IstoÉ de 8 de abril de 1987, ter conhecido Maranhão no DOI-CODI do Rio de Janeiro.

>> Luiz Guilhardini

Operário naval, ferreiro e jornalista, nasceu em janeiro de 1920 em Santos, onde desenvolveu atividades políticas junto aos portuários como membro do antigo Partidão, ao qual se filiou em 1945. Em 1953, mudou-se para o Rio de Janeiro e integrou o Comitê Regional dos Marítimos. Com a criação do Partido Comunista do Brasil, como dissidência do PCB, ingressou na organização e, em 1966, foi eleito para o Comitê Central.

No dia 4 de janeiro de 1973, a casa onde morava com a família, no Rio de Janeiro, foi invadida por 13 homens. Ele, a mulher Orandina e o filho adotivo de oito anos foram colocados em cômodos separados e torturados. Depois os três foram encapuzados e levados, ao que se supõe, para o DOI-CODI do Rio de Janeiro. A partir de determinado momento, o filho Gino foi levado para assistir às torturas sofridas por Guilhardini, ao mesmo tempo em que também sofria sevícias. Nove dias depois, ao ser interrogada, Orandina soube da morte do marido por intermédio de um dos agentes: “Seu homem bancou o durão e foi pro inferno. Você também está a caminho para lhe fazer companhia.”. Guilhardini foi enterrado com o nome verdadeiro como indigente no Cemitério de Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro, e em 1980/81 seus ossos foram exumados e jogados numa vala clandestina, junto com as ossadas de outros indigentes.

>> Mário Alves de Souza Vieira

Nascido em Santa Fé, Bahia, em 1923, fez o curso secundário em Salvador, onde começou a atuar politicamente e ajudou a fundar a União de Estudantes da Bahia. Depois participou da União Nacional dos Estudantes. Em 1942, com 19 anos, já integrante do PCB, foi um dos líderes do movimento de massas na capital baiana contra o nazi-fascismo. Três anos depois passou a integrar o Comitê Estadual do PCB e em 1957 foi eleito para o Comitê Central do partido. Jornalista, dirigiu os jornais partidários Novos Rumos Voz Operária.

Teve os direitos políticos cassados por 10 anos pelo general-presidente Castelo Branco em 1966 e, em 1967, durante o VI Congresso do PCB, foi expulso da organização junto com Carlos Marighella, Joaquim Câmara Ferreira, Jacob Gorender e Apolônio de Carvalho, entre outros. No ano seguinte, foi um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR).

Em 16 de janeiro de 1970, por volta das 20 horas, saiu de casa com a intenção de voltar logo. Nunca mais retornou e é dado oficialmente como desaparecido. Na verdade, foi preso pelo DOI-CODI do Rio de Janeiro e morreu durante a madrugada, por não suportar as torturas, que incluíram sessões de afogamento. Sua mulher, Dilma, relata num documento as circunstâncias de sua morte: “Alguns presos, levados à sala de torturas para limpar o chão sujo de sangue e de fezes, viram meu marido moribundo, sangrando pela boca e pelo nariz, nu, jogado no chão, arquejante, pedindo água, e os militares em volta, rindo, não permitindo que lhe fosse prestado nenhum socorro”. Revela ainda que ele foi empalado com um cassetete dentado e teve o corpo esfolado com escova de arame.

>> Maurício Grabois

Baiano de Salvador, descendente de judeus russos e nascido em 1912, foi amigo e colega de ginásio de Carlos Marighella, com quem passou a atuar politicamente ainda na adolescência. Militante do PCB na década de 30, começou a organizar células do partido nas Forças Armadas como aluno da Escola Militar do Realengo, onde ingressou em 1931 e da qual foi expulso dois anos depois. Cursou a Escola de Agronomia até o segundo ano, mas abandonou os estudos para se dedicar exclusivamente à atuação política.

Durante o Estado Novo, de 1935 a 1947, foi processado, condenado à revelia e posteriormente preso. Trabalhou na Panair do Brasil e fundou e dirigiu a Editora Horizonte, do PCB, no Rio de Janeiro. Foi diretor do jornal A Classe Operária de maio de 1945 até 1949, quando a publicação foi fechada.

Em 1945 foi eleito pelo PCB para a Assembléia Nacional Constituinte, como deputado federal pelo Distrito Federal, então no Rio de Janeiro, e chegou a ser o líder da bancada comunista, mas perdeu o mandato em 1947, quando o partido foi fechado por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e no seguinte começou a atuar na clandestinidade.

Com João Amazonas, Pedro Pomar e outros, rompeu com o PCB em 1962 e resgatou a sigla do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e relançou o jornal A Classe Operária, que passou a dirigir junto com Pedro Pomar como órgão oficial do partido. Em 1967 mudou-se para a localidade de Faveira, na região do Araguaia, onde implantou o núcleo do que seria a Guerrilha do Araguaia. Em 1972, tropas do Exército, com cerca de 20 mil soldados, cercaram os guerrilheiros e mataram 59 combatentes do PCdoB. O grupo do qual Maurício Grabois fazia parte teria sido morto na Serra das Andorinhas por um destacamento comandado pelo major Sebastião Curió. A maioria dos guerrilheiros mortos ainda são oficialmente considerados desaparecidos, pois até hoje seus restos mortais não foram encontrados. Maurício Grabois é um deles.

>> Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior

Formado em direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, Orlando Bonfim, nascido em Santa Teresa, no Espírito Santo, em 1915, trabalhou como jornalista profissional no jornal Estado de Minas, onde chegou a secretário de redação. Exerceu a atividade até 1964, quando o jornal Novos Rumos, que dirigia no Rio de Janeiro, foi fechado pelo golpe militar. Anteriormente, havia dirigido o jornal Imprensa Popular.

Filiado ao PCB, foi um dos signatários do Manifesto dos Mineiros de 1943, que pedia o fim do Estado Novo e o restabelecimento da democracia; em 1946 foi eleito vereador em Belo Horizonte e escolhido como líder do partido. Paralelamente, praticava a advocacia de modo gratuito.

No dia 8 de outubro de 1975, a família recebeu um telefonema anônimo, de pessoa que se dizia amigo de Bonfim, informando que ele estava preso. Nunca mais foi visto, nem seu corpo enterrado. Na revista Veja de 18 de novembro de 1992, um ex-agente do DOI-CODI de São Paulo, sargento Marival Dias Chaves do Canto, revelou que ele foi preso no Rio de Janeiro, trazido para São Paulo e morto com injeção de matar cavalo. Seu corpo teria sido jogado no Rio Avaré, no trecho entre a cidade de Avaré e a Rodovia Castelo Branco.

>> Pedro Ventura Felipe de Araújo Pomar

Pedro Pomar, como era mais conhecido, nasceu em Óbidos, no Pará, em 1913, mas quando tinha cinco anos foi com a família para Nova York, onde viveu por um ano. Aos 13 anos, saiu de Óbidos para fazer ginásio em Belém, onde começou a participar de atividades políticas. Em setembro de 1932, com 19 anos, quando cursava a Faculdade de Medicina e jogava futebol profissionalmente, participou da organização de um levante armado em apoio ao Movimento Constitucionalista de 32. Provavelmente nessa época foi recrutado pela escritora Eneida de Moraes para ingressar no PCB.

Preso várias vezes em Belém, da última vez fugiu da cadeia com outros membros do partido para o Rio de Janeiro, onde passou dificuldades e teve de trabalhar até como pintor de paredes. Ajudou a formar a Comissão Nacional de Organização Provisória, encarregada de reorganizar o PCB em todo o território. Mudou-se para São Paulo e, em 1947, se elegeu deputado federal pela coligação PCB-SP, com a maior votação da época: 100 mil votos.

Eleito para o Comitê Central e para a Comissão Executiva do PCB, foi secretário de Educação e Propaganda do partido, responsável por cerca de 25 jornais do partido em todo o país. Foi também diretor da Tribuna Popular e da Imprensa Popular e colaborou para o Notícias de Hoje.

Na década de 50, estudou na União Soviética durante dois anos, mas em 1962, foi expulso do partido e, junto com outros companheiros, criou o PCdoB, do qual se tornou membro do Comitê Central e redator-chefe do jornal A Classe Operária. Teve divergências também com a direção do novo partido, que havia decidido promover a Guerrilha do Araguaia. Quando três dirigentes da organização morreram na região em 1972, assumiu a direção do partido.

Na dia 16 de dezembro de 1976, quando participava de uma reunião da cúpula da organização no bairro da Lapa, em São Paulo, agentes do DOI-CODI cercaram a casa e fuzilaram todos os presentes. Pedro Pomar morreu atingido por cerca de 50 tiros. Foi enterrado no Cemitério Dom Bosco, em Perus, com nome falso, mas a família conseguiu descobrir onde ele fora sepultado e levou os restos mortais para Belém do Pará.

>> Rui Osvaldo Aguiar Pftzenreuter

Nascido em Orleans, Santa Catarina, em 1942, formou-se em jornalismo e sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul em dezembro de 1964. Integrante do Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), foi preso em São Paulo em 14 de abril de 1972 por agentes do DOI-CODI e morreu sob tortura nas instalações da Rua Tutóia no dia seguinte, aos 30 anos de idade. A versão oficial, entretanto, é outra. Relatório da Aeronáutica diz que em 15 de abril, em São Paulo, “ao receber voz de prisão, sacou de sua arma e atirou na equipe de segurança, sendo ferido; mesmo assim conseguiu evadir-se, aproveitando a escuridão, porém caiu adiante, sendo conduzido ao hospital e falecendo no trajeto”.

A certidão de óbito, datada de 26 de abril, diz que a causa da morte foi anemia aguda traumática, mas não descreve as lesões causadas pela tortura. Também foi enterrado no cemitério de Perus como indigente, mas em maio a família conseguiu resgatar o corpo e sepultá-lo no cemitério de sua cidade natal.

>> Sidney Fix Marques dos Santos

Estudante de Geologia da Universidade de São Paulo, nascido em São Paulo em 1940, abandonou o curso em 1964 para se dedicar à militância política. Filiado ao Partido Operário Revolucionário Trotskista (PORT), tornou-se o editor responsável pelo jornal Frente Operária, órgão oficial da organização.

Em 1972, exilou-se na Argentina, onde trabalhou como programador da multinacional IBM. No dia 15 de fevereiro de 1976, às 21h30, agentes da Superintendência de Segurança Federal da Argentina invadiram sua casa em Buenos Aires e o levaram. Seu corpo nunca foi localizado e o governo argentino nunca forneceu atestado de óbito. Até hoje é considerado desaparecido.

>> Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto

Natural de Parintins, Amazonas, onde nasceu em 1937, formou-se em sociologia pela Universidade de Moscou, o que foi considerado pela Justiça Militar, num processo de 1971, como justificativa suficiente para condená-lo: “Nove anos passados na União Soviética servem de prova da intenção de delinquir”.

Em 1958, com 21 anos, mudou-se do Amazonas para o Rio de Janeiro, onde participou ativamente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES), da UNE e dos Centros Populares de Cultura. Paralelamente, trabalhava profissionalmente como jornalista. Por ser militante do PCB, conseguiu em 1962 estudar na União Soviética. De volta ao Brasil, em 1969, partiu para a ação política clandestina. Rompido com o PCB, entrou para a ALN de Carlos Marighella.

No dia 7 de maio de 1974 foi preso no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, e nunca mais foi visto. Em entrevista publicada pela revista IstoÉ em 8 de abril de 1987, o ex-médico e torturador Amílcar Lobo diz ter visto Thomaz no DOI-CODI do Rio de Janeiro.

O ator Carlos Vereza, que foi amigo de Thomaz e o escondeu em sua casa, disse que ele era fascinante e elegante, sempre usava paletós suíços, calças francesas e sapatos finíssimos, além de um 38 dentro de uma pasta. “Ele gostava de se vestir bem. Gostava de Sartre, de Camus, do existencialismo, do teatro do absurdo. Isso era lição de abertura, que não impedia que fosse uma das pessoas mais procuradas (pela repressão).”

>> Wânio José de Mattos

Capitão da Polícia Militar de São Paulo e jornalista, nascido em Piratuba, Santa Catarina, em 1926, era membro da Vanguarda Popular Revolucionária – VPR. Preso pela Operação Bandeirantes em fins de 1970, foi expulso da PM e banido para o Chile em 1971, junto com outros 69 presos políticos, em troca do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher.

Com o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, no Chile, Wânio e a mulher foram presos e levados para o Estádio Nacional, em Santiago. Morreu em 16 de outubro daquele ano, sem tratamento médico, em conseqüência de ferimentos causados durante a prisão. A certidão de óbito emitida pelo Hospital de Campaña do Estádio Nacional, sem assinaturas de médicos legistas, deu como causa da morte “peritonite aguda”. A família só teve conhecimento das circunstâncias da morte de Wânio com a divulgação do Relatório Rettig, de 1992, que serviu de base para receber indenização do governo chileno.

>> Nota do OI: A lista de jornalistas mortos pela repressão elaborada pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo contabiliza, além de Vladimir Herzog e dos mencionados acima, os nomes de Jane Vanini, Lincoln Cordeiro Oest e Nestor Vera.

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Luiz Antonio Maciel, para o Observatório das Violências Policiais-SP

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