Eu também sou Charlie Hebdo!

Os cartunistas de mini saia: o drama do Je suis ou Je ne suis pas Charlie

Charge de Wolinski

Nos textos recentes da internet sobre o assassinato dos cartunistas do Charlie Hebdo já não interessa mais o terrorismo e o fundamentalismo, que seriam justificáveis pelo resistente conceito de imperialismo.

O julgamento moral do Charlie Hebdo está ficando próximo do pensamento do estuprador: “quem usa mini saia está pedindo para ser estuprada e ofendendo muitos valores religiosos”.

O texto de Marcos St, publicado no Nassif, também levanta essa questão, quando diz : “Eis que nesta semana fiquei um tanto chocado com o comportamento de alguns supostos esquerdistas, (imagino que sejam), criticando a revista (Charlie) e até de alguma forma justificando o ato sanguinário e covarde dos fundamentalistas muçulmanos.
Tudo porque, (lá vamos nós…), as charges dos franceses contra as religiões eram “repugnantes ou ofensivas”
“Qual o limite da liberdade de expressão”? A coisa só piorou quando o site ligado ao Daniel Dantas, (o famigerado Brasil247), começou a publicar diversos artigos desconstruindo a imagem da Charlie, reduzindo-os à uma espécie de versão francesa da Veja e a do genial  Wolinski, chamado por outros tantos, acreditem, de “tipo Danilo Gentile”, racistas, direitistas e etc…..”

Vale a pena também ler o ótimo texto (abaixo) de Wilson Gomes, publicado em sua página no Facebook. O texto não tem título, mas vale a pena para o debate do drama Je sui ou Je ne sui pas Charlie, que tomou conta das redes sociais.

Por Wilson Gomes – Há alguns dias se deixou de falar do terrorismo e do fundamentalismo, e do absurdo e grotesco que consiste em dois homens com treinamento e equipamento militar descarregar seus fuzis Kalashnikov contra cartunistas com treinamento e equipamento para o humor. Agora nos dedicamos ao julgamento moral de Charlie Hebdo, um semanário que não tirava mais que 30 mil exemplares, consumidos não mais que por intelectuais franceses de esquerda e extrema-esquerda, mas que presumivelmente estava produzindo um estrago danado na imagem dos 1,5 bilhões de muçulmanos espalhados mundo afora e ofendendo as suas crenças.

Se tem uma coisa que apreendi na incrível reviravolta moral desses dias, em que ao julgamento são intimidadas as vítimas, é que, dentre todos os valores culturais da esquerda, o anti-imperialismo parece ser mais resiliente que as baratas, os vírus e outros entes imorredouros. Se para você valores são a liberdade de expressão, o Estado laico e a laicidade de todos os Estados, o sagrado direito à profanação, à secularização, à perda de aura e altura provenientes do weberiano desencantamento (ou desteologização) do mundo, a liberdade intelectual e-que-se-danem-os-poderes, então “tu es Charlie”. Mas se para você valores são “o enfrentamento” do colonialismo e do imperialismo, o confronto com o eurocentrismo e ocidentalismo e os seus corolários, a defesa dos “condenados da terra”, parece que daí decorre a necessidade de colocar Charlie em julgamento, como representante da opressão francesa aos seus seis milhões de muçulmanos, como representante da agressão ocidental aos países árabes da África e do Oriente Médio, como herdeiros do colonialismo francês. Já nem se julga Charlie, se julga o Ocidente – e o sangue que escorreu pouco importa, porque o sangue árabe tem escorrido copiosamente em toda parte e “a mídia ocidental” não faz este alvoroço todo. A este ponto, os jovens franceses de origem argelina já nem se parecem mais com os terroristas cruéis a executar, sem defesa, cartunistas em reunião de pauta, mas representantes do Terceiro Mundo, do pobre árabe ou muçulmano (aliás, todo mundo anda misturando as duas coisas) das periferias de Londres, Paris ou Berlim, representam o oprimindo mundo árabe “devolvendo as pancadas” tão duramente recebidas.

Um passo adiante e as pessoas se sentem autorizadas moralmente a operar a desconstrução de Charlie. Vítimas, sim, mas não inocentes. Já li de tudo: racistas, xenófobos, islamofóbicos. Provavelmente, como li ontem por aqui, “cavaram as suas próprias sepulturas”. Amigos de esquerda começaram a cravar com orgulho o seu “Je Ne Suis Pas Charlie” e, pelo andar da carruagem, não vou ficar surpreso se surgirem memes com a frase dita pelos chacinadores na saída do prédio “On a vengé le prophète Mohammed, on a tué Charlie Hebdo” – Vingamos o profeta Maomé, matamos Charlie Hebdo. Agora começaram a distribuir uma charge para “demonstrar” que a galera de Charlie era racista, numa operação vergonhosa que consiste em atribuir à revista de esquerda uma caricatura racista produzida (e já condenada pela opinião pública e pela Justiça) pela sua concorrente de extrema-direita, a Minute, chamando a ministra negra Taubira de macaca. Nem mais respeito aos fatos é necessário: Charlie é o Ocidente, os garotos de Kalashnikov são os os migrantes muçulmanos, “os negros da Europa” conforme outra caracterização corrente, “dá para entendê-los”. Anti-imperialismo na veia: On a vengé le Tiers-Monde!

Que coisa. (Wilson Gomes)

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