Sinto orgulho de ter lutado por toda a minha vida, e orgulho de poder contar ao mundo o que aconteceu

O judeu que recebeu uma oferta de emprego dos nazistas

Lucy Wallis Da BBC News

  • 24 janeiro 2015

Aos 17 anos, Knoller teve de deixar Viena rumo à Bélgica para fugir do nazismo

Antes do início da 2ª Guerra Mundial, 170 mil judeus viviam em Viena ─ ao final do confronto, restaram apenas 6 mil. Um dos que conseguiram escapar do Holocausto, o assassinato em massa de judeus durante o confronto, foi Freddie Knoller, atualmente com 93 anos, que sobreviveu a um interrogatório policial da Gestapo (a polícia secreta nazista), ao campo de concentração de Auschwitz e à ‘Marcha da Morte’ em temperaturas abaixo de zero.

“Vi dois civis vindo em direção a mim. Cada um deles vestia chapéu e um longo casaco de couro preto. Imediatamente, me dei conta de que eles eram da Gestapo”, conta Knoller.

Era julho de 1943. Knoller, então com 22 anos, havia conseguido obter documentos falsos e trabalhar na então ocupada Paris apresentando casas noturnas e prostíbulos do bairro da luz vermelha a oficiais nazistas. Mas naquele dia ele foi preso e levado à sede da Gestapo na capital francesa.

Em um amplo quarto com o retrato de Adolf Hitler preso à parede, um dos oficiais começou a interrogá-lo.

“Enquanto ele falava, vi em cima da mesa uma cabeça de um ser humano feita de gesso. Ele me viu olhando e disse: “Ah, essa cabeça de gesso…é a cabeça de um judeu, porque nós fomos ensinados a reconhecer judeus pela estrutura de suas cabeças”, diz Knoller.

Atualmente com 93 anos, Knoller sobreviveu ao Holocausto

“Com o objeto nas mãos, ele se levantou de sua mesa, foi para trás de mim e pegou a minha cabeça com suas duas mãos, comparando-a com o objeto. Não sinto vergonha de dizer que fiz xixi nas calças porque estava certo de que seria reconhecido como judeu.”

“Para a minha surpresa, ele disse ‘Ah sim, você é um alemão ‘puro’ e acho que você deve juntar-se à nossa organização como um intérprete, você ganhará muito dinheiro e finalmente trabalhará com o nosso pessoal”.

“Eu fiquei tão atônito, rindo dentro de mim mesmo…’Que loucura escapar da Gestapo, e no fim, eles querem que eu trabalhe para eles'”.

Mas, por razões óbvias, Knoller não tinha nenhuma intenção de aceitar a vaga. Ele rapidamente tratou de se esconder.

Aquela era a terceira vez que ele se via sob domínio dos nazistas. Na primeira, em 1938, teve de deixar sua casa em Viena com apenas 17 anos, quando a Áustria foi anexada pela Alemanha, episódio conhecido como Anschluss.

Os pais de Knoller enviaram-no para morar com os amigos na Bélgica onde eles acreditavam que era um lugar seguro na época.

Mas quando Hitler invadiu a Bélgica em 1940, Knoller teve de fugir pela segunda vez.

Ele escolheu migrar para a França. “Eu lia aqueles livros picantes sobre Paris, sobre Montmartre (tradicional bairro boêmio da capital francesa), sobre o Moulin Rouge e suas dançarinas seminuas no palco e era para ali que eu queria ir”, diz ele.

Mas as coisas começaram a dar errado pouco depois de sua chegada à ‘cidade-luz’. Ele foi detido na fronteira francesa por ter um passaporte alemão e mantido prisioneiro em um campo para inimigos franceses em maio de 1940. Depois que os nazistas invadiram a França um mês depois, ele conseguiu escapar e finalmente rumou a Paris.Mas após o interrogatório com a Gestapo, Knoller percebeu que era muito perigoso permanecer ali.

Em vez de aceitar o emprego, ele pediu ajuda a um amigo e foi apresentado ao líder da Resistência Francesa. Ele foi morar nas montanhas próximo à cidade de Figeac no sul da França, lutando contra a ocupação alemã.

“Foi uma grande alegria para mim lutar contra meus inimigos em vez de ganhar dinheiro com eles”, diz Knoller.

Ele aprendeu a atirar com uma arma e instalar explosivos para descarrilar o trem das tropas inimigas.

“Nosso líder…assegurou que sempre que puséssemos explosivos na linha do trem, tínhamos de escondê-los com grama, com folhas, para que eles não fossem notados imediatamente. Então ele dizia para que a gente saísse dali e observasse o que aconteceria longe, nas montanhas”.

“O trem veio, nós ouvimos a explosão, e vimos a locomotiva tombar de um lado e tudo desabou, mas nós corremos imediatamente em direção ao nosso grupo de resistência. Devo confessar que foi maravilhoso”.

Algum tempo depois, Knoller se apaixonou por uma linda moradora local de nome Jacqueline. Mas após um bate-boca, ela o acabaria entregando para a polícia francesa.

Os gendarmes ─ pró-nazistas ─ queimaram seu corpo com cigarros para saber mais sobre o grupo de resistência do qual fazia parte. Quando não conseguia mais aguentar a dor, Knoller revelou sua real identidade e foi entregue a Gestapo.

Era setembro de 1943 quando os nazistas finalmente o prenderam. Knoller foi enviado ao campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, onde ficou preso até praticamente o fim da guerra. Ele trabalhava sob temperaturas tão baixas quanto 25 graus Celsius negativos carregando sacos de cimentos de 25 quilos e era forçado a correr com eles ─ caso fosse muito lento, era açoitado.

“De tempos em tempos éramos obrigados a nos alinhar em frente à SS (tropa de elite da polícia nazista) e a falar sem parar”, conta Knoller.

“A SS nos dizia ora para ir para a direita, ora para esquerda. Eu mostrava o meu tórax e sorria para eles, mais ou menos para dizer, ‘Estou bem para continuar a trabalhar’. Não estava sendo de modo algum passivo, mas sabia que se eles me mandassem ir para a esquerda, não haveria saída. Eu seria morto na câmara de gás”.

Knoller só soube do destino dos pais em 1995; eles foram mortos em Auschwitz

Em janeiro de 1945, à medida que as tropas russas se aproximavam, Auschwitz foi evacuado. Knoller e outros prisioneiros foram obrigados a percorrer dali uma marcha da morte de 50 km sob um frio cortante rumo à cidade de Gleiwitz.

“Caminhávamos naquela grande estrada coberta de gelo e neve e algumas pessoas não aguentavam e caíam por causa do frio extremo. Nossas roupas eram tão finas que não tínhamos como nos proteger das baixas temperaturas”, conta.

“Quando as pessoas não conseguiam mais andar, os alemães, que nos cercavam, atiravam nelas. Algumas delas chegaram a correr para dentro da floresta ─ e também eram mortas”.

Cerca de 60 mil prisioneiros de Auschwitz foram forçados a percorrer marchas da morte e mais de 15 mil pessoas morreram.

“Eu andava e andava sem me importar com o que acontecia com as pessoas à minha volta. Vi pessoas sendo mortas, mas aquilo já não me afetava. O único pensamento que tinha era: ‘Eu ainda consigo andar e ainda estou vivo'”, lembra Knoller.

Aqueles que sobreviveram foram colocados em trens e enviados ao campo de concentração de Bergen-Bergen, no norte da Alemanha, onde Knoller permaneceu até a libertação por tropas britânica em 15 de abril de 1945. No final do confronto, ele pesava apenas 41 kg.

Próximo ao fim da guerra, prisioneiros deixaram Auschwitz e foram obrigados a percorrer 50 km, no episódio conhecido como ‘Marcha da Morte’

Com o fim do confronto, Knoller viajou para os Estados Unidos, onde se juntou a seus dois irmãos. Ali ele encontrou sua futura mulher, Freda, e o casal decidiu morar em Londres.

Por 30 anos, Knoller não conseguia falar sobre sua experiência no Holocausto, mas finalmente foi persuadido a fazê-lo por seus filhos.

Foi apenas em 1995 que Knoller soube do destino de seus pais. Eles foram deportados de Viena em 1942, e por uma coincidência macabra permaneceram em Auschwitz no mesmo tempo em que ele, mas foram mortos em 1944.

“Sinto orgulho de ter lutado por toda a minha vida, e orgulho de poder contar ao mundo o que aconteceu”, diz Knoller.

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