A dor pelo silêncio no caso do Vietnam

A dor pelo silêncio no caso do Vietnam

Publicado pelo

Consortium News

Por Ray McGovern

Tradução: Tarcisio Praciano-Pereira

sexta-feira , 01 de Maio de 2015

Nota do tradutor: dedico este longo trabalho de tradução a todas aquelas pessoas que correm riscos imensos, de suas carreiras e bem estar para trazer para público os segredos que destroem a Sociedade, e apenas não coloco aqui uma lista imensa destas valorosas pessoas pelo risco da injustiça de esquecer alguém que seja de “menor importância” como se qualquer pequeno serviço à Sociedade pudesse ser medido e pesado, mas coloco aqui o oferecimento deste trabalho ao jovem de vinte e poucos anos que se encontra neste momento sob uma injusta pena de quarenta anos, Manning, que teve a coragem de distribuir os horrores da guerra no Iraque e que um juiz incompetente perdeu a oportunidade de encerrar o caso quando o comandante em chefe, o Premio Nobel da Paz, em um reunião pública, antecipou o julgamento condenando Manning. Que Manning represente todas as pessoas de coragem ao receber os meus respeitos.

Muitas reflexões sobre os últimos dias d América no Vietnã perdem foco ponderando se a guerra poderia ter sido vencida ou lamentando o destino dos colaboradores que ficaram para trás. A questão maior é por que os EUA vão à guerra e não que derramamento de sangue tgenha parado mais cedo.

(Photo: Raymond Depardon/Flickr/cc)

Ecclesiastes diz que há um tempo para ficar em silêncio e um tempo para falar. O quadragésimo aniversário do triste fim da aventura americana no Vietnã é um momento para se falar – e, especialmente, das oportunidades desperdiçadas que existiram no início da guerra clamando parar a matança.

Possivelmente o vazamento dos “Papéis do Pentágono”, em 1971, feitos pelo meu amigo Daniel Ellsberg ajudou a acabar com a guerra, entretanto Ellsberg é o primeiro a admitir que ele esperou muito tempo para revelar o engano inconcebível que levou a morte e injúria à milhões de pessoas.

Lamento que, num primeiro momento de ingenuidade e, em seguida de covardia, eu esperei um pouco – até que me convenci que a minha própria apuração da verdade realmente não importava frente ao derramamento de sangue no Vietnã. Minha esperança é que pode haver uma chance que essas reminiscências possam servir como um exemplo doloroso do que eu poderia e deveria ter feito, se eu tivesse tido mais coragem então. Oportunidades para “soprar o apito” em tempo estão nas mãos de uma nova geração de analistas da inteligência – importa pouco se eles estão envolvidos com o Iraque, Síria, Afeganistão, ISIS ou o Irã.

Aliás, sobre o Irã, há um exemplo muito positivo na última década: os analistas corajosos liderados pelo intrépido (e burocraticamente qualificado) o ex-secretário de Estado adjunto para Intelligence Thomas Fingar, mostrou que a honestidade ainda pode prevalecer dentro do sistema, mesmo quando a verdade é altamente indesejável.

A conclusão unânime da comunidade de inteligência da “National Intelligence Estimate de 2007” (estimativa nacional de inteligência de 2007) – de que o Irã havia parado de trabalhar para produzir uma arma nuclear quatro anos antes – tiveram um papel enorme em frustrar os planos do presidente George W. Bush e do vice-presidente Dick Cheney de atacar o Irã em 2008, em seu último ano de mandato. Bush diz isso em seu livro de memórias, e neste ponto, podemos acreditar nele.

Depois de meio século de assistir de perto essas coisas, esta é a única vez em minha experiência que o relatório chave dum NIE (nota do tradutor: National Intelligence Estimate – estimativa nacional de inteligência) ajudou a evitar uma catástrofe, uma guerra que não poderia ser vencida. Infelizmente, a julgar pelo amadorismo em curso em círculos de formulação de políticas opacas de Washington, parece claro que a Casa Branca dá pouca atenção a esses oficiais de inteligência que ainda estão tentando falar a verdade ao poder.

Para eles eu tenho uma sugestão: Não basta torcer as mãos, e dizer “eu fiz tudo que podia para obter a verdade.” As chances são de que você não tenha feito tudo o que puderia. Reflita sobre os desafios – as vidas terminaram cedo demais, corpos e mentes danificados para sempre, o ódio engendrado contra os Estados Unidos, e a longo prazo os danos aos interesses nacionais dos EUA. Pense em “soprar o apito” publicamente para evitar carnificina desnecessária e a alienação generalizada.

Eu certamente gostaria de ter começado a falar quando eu soube da traição inconcebível de altos oficiais militares e de inteligência a respeito do Vietnã. Mais recentemente, eu sei que vários de vocês analistas de inteligência conscientes, gostariam de ter “soprado o apito” sobre a fraude “que justificou” a guerra contra o Iraque. Espalhar um pouco de verdade ao redor é exatamente o que você precisa fazer agora sobre a Síria, o Iraque, a Ucrânia e a “guerra ao terror”, por exemplo.

Penso que, ao descrever minha própria experiência – seus aspectos negativos, e o remorso de continuar a viver com a ideia de que eu poderia estar ajudando aqueles dentre vocês que agora estejam calculando qual é o bom momento para “soprar o apito”. Que seja agora antes que seja tarde demais. Portanto, a seguir está um artigo que eu poderia chamar de “Eu e o Vietnã”.

Minha esperança é a de que eu posso poupar-lhe remorso de que você venha a escrever, daqui a uma ou duas décadas, o seu próprio “Eu e a Ucrânia” ou “Eu e a Syria” ou “Eu e o Iraq” ou “Eu a Líbia” ou ainda “Eu e a guerra do terror “. O meu artigo, a partir de 2010, foi intitulado “Como a Verdade pode salvar vidas” e começou:

Se sites de mentalidade independente, como WikiLeaks ou, digamos, Consortiumnews.com, existissem há 43 anos atrás, eu poderia ter pegado o momento e ajudado a salvar a vida de cerca de 25.000 soldados norte-americanos, e um milhão de vietnamitas, expondo as mentiras contidas em apenas um dos SECRET / EYES ONLY relatórios telegráficos de Saigon.

Eu preciso falar agora, porque eu venho ficando doente ao acompanhar o esforço hérculeo do Governo de Washington e da nossa Gotesca Mídia Corporativa (FCM – Fawning Corporate Media) para desviar a atenção da violência e do erro no caso Afeganistão, que se reflecte em milhares de documentos do Exército dos EUA, para atacar os mensageiros – WikiLeaks e Pvt. Bradley Manning.

Depois de toda a morte indiscriminada e a destruição ao longo de quase nove anos de guerra, a hipocrisia é muito transparente quando WikiLeaks e o suspeito de vazamentos, Manning, são acusados de arriscar vidas, expondo simplesmente a verdade. Além disso, eu ainda tenho a consciência culpada pela decisão que tomei em “NÃO FAZER” no que diz respeito a expor os fatos sobre a Guerra do Vietnã que poderiam ter salvo vidas.

A história triste, mas verdadeira, que conto em seguida, é oferecida na esperança de que aqueles que, em circunstâncias semelhantes hoje, podem mostrar mais coragem do que eu fui capaz de reunir em 1967, e tirar o máximo proveito dos avanços incríveis em tecnologia que se encontram à nossa disposição hoje.

Muitos dos meus colegas do Programa de Júnior Trainee (Junior Officer Trainee Program ) na C.I.A. vieram para Washington no início dos anos sessenta inspirados pelo discurso inaugural do presidente John Kennedy, em que ele nos pediu que nós nos perguntassemos o que podiamos fazer por nosso país. (Sôa piegas hoje em dia, eu acho, e eu vou ter que ter que lhes pedir para aceitá-lo em boa fé). Ele pode não foi exatamente um Camelot, mas o espírito e o ambiente eram propícios para uma tal chamada..) (Nota do tradutor: possivelmente Daniel Ellsberg se refere ao ambiente da guerra fria da época de Kennedy).

Entre aqueles que encontraram a convocação de Kennedy convincente estava Sam Adams, um ex-oficial da Marinha recém graduado do Harvard College. Após a Marinha, Sam tentou a Harvard Law School, mas concluiu que era demasiado chata. Em vez disso, ele decidiu ir para Washington, juntar-se a CIA como um estagiário oficial, e fazer algo mais aventureiro. Ele tem mais do que apenas uma quota de aventura!

Sam era um dos mais brilhantes e mais dedicados entre nós. Muito cedo em sua carreira, ele adquiriu um objetivo que levava a frente de forma muito animada e confiante em sua importância – o de avaliar a força Comunista Vietnamita no início da guerra. Ele levou a tarefa com desenvoltura incomum e rapidamente provou ser um analista consumado.

Baseando-se, em grande parte, em documentos capturados, mas apoiadas por relatórios de outros tipos de outras fontes, Adams concluiu em 1967 que havia o dobro de comunistas (cerca de 600.000) em armas no Vietnã do Sul, número que os militares dos EUA não admitiam.

Dissimulação em Saigon

Visitando Saigon durante 1967, Adams ficou sabendo através dos analistas do Exército, que seu general comandante, William Westmoreland, tinha colocado um limite artificial no método de contagem oficial do Exército para evitar de incorrer em riscos com as questões relativas ao “progresso” na guerra (soa-lhe familiar?).

Era um choque de culturas, dum lado os analistas de inteligência do Exército saudando generais, seguindo as ordens ditadas, e Sam Adams horrorizado com a desonestidade – desonestidade consequente. De vez em quando eu ia almoçar com Sam e ficava sabendo da oposição formidável que ele encontrava na tentativa de obter a verdade.

Solidarizando-me com Sam, durante o almoço, num dia ao final de agosto de 1967, eu perguntei o que poderia ser a razão para que o general Westmoreland fazer a força do inimigo parecer a metade do que realmente era. Sam me deu a resposta que ele tinha no bolso sobre Saigon.

Adams disse-me que num telegrama datado de 20 de agosto de 1967, o vice de Westmoreland, o general Creighton Abrams, havia estabelecido os fundamentos para o engano. Abrams escreveu que os novos números, superiores, (refletindo a contagem de Sam, que era apoiado por todas as agências de inteligência, exceto pela inteligência do Exército, que refletia a “posição de comando”) “estavam em nítido contraste com os números da força total atual de cerca de 299 mil homens fornecida à imprensa”.

Abrams enfatizou: “Temos vindo a projectar uma imagem de sucesso nos últimos meses” e advertiu que se os valores mais elevados se tornasssem públicos, “todas as advertências e explicações disponíveis não vão impedir a imprensa de chegar a uma conclusão errônea e sombria”.

Não foi necessário mais provas de que os mais altos comandantes do Exército dos EUA estavam mentindo, para que eles pudessem continuar a fingir “progresso” na guerra. Igualmente lamentável, a grosseria e a insensibilidade ante um telegrama de Abrams que não deixava dúvidas fez com que Sam se levantasse para apontá-lo aos seus superiores, mas ficou extremamente claro que estes iriam concordar com números falsos do Exército. Infelizmente foi isto que eles fizeram.

Diretor da CIA, Richard Helms, que via como o seu dever primário “proteger” a agência, deu o tom. Ele disse a seus subordinados que não podia cumprir esse dever se deixasse a agência se envolver em uma discussão acalorada com o Exército dos EUA sobre uma questão tão fundamental em tempos de guerra.

Este é o detalhe de tudo que tinhamos sidos levados a crer, que o principal dever dos analistas da CIA – seria falar a verdade ao poder sem medo ou favor. E a nossa experiência até agora tinha mostrado que este ethos nada mais era do uma simples palavra de ordem. Tínhamos, até agora, sido capazes de “dizer como a coisa era”.

Após o almoço com Sam, pela primeira vez, eu não tive apetite para comer a sobremesa. Sam e eu tinhamos vindo para Washington para “proteger a agência.” E, tendo servido no Vietnã, Sam sabia em primeira mão que milhares e milhares tinham sido mortos numa guerra irresponsável. (Nota do tradutor: para salvar a minha responsabilidade, eu não creio que hajam “guerras responsáveis”).

Que fazer?

Eu lembro-me bem do longo silêncio, durante o café, em que cada um nós ficou ruminado sobre o que poderia ser feito. Lembro-me de ter pensado comigo mesmo; alguém deve levar o telegrama de Abrams até o New York Times (na época um jornal independente).

Claramente, a única razão para a classificação como SECRET/EYES ONLY (Secreto, apenas para leitura) do telegrama era para esconder fraude deliberada dos nossos generais mais graduados sobre o “progresso” na guerra e privar o povo americano da chance de conhecer a verdade.

Ir para a imprensa seria, naturalmente, a antítese da cultura do segredo em que haviamos sido treinados. Além disso, você provavelmente seria pego em seu próximo exame do polígrafo. Melhor não arriscar o pescoço.

Eu ponderei sobre tudo isso nos dias que seguiram ao almoço com Adams. E eu conseguiu chegar a uma série de razões pelas quais eu deveria ficar em silêncio: uma hipoteca, uma valiosa missão ao exterior associada com os estágios finais de minha formação linguística, e, não menos importante, o trabalho analítico – importante, o trabalho emocionante em que Sam e eu prosperavamos.

Melhor ficar quieto por agora, crescer em peso, e viver para matar outros dragões. Certo?

Podemos, suponho, sempre encontrar desculpas para evitar de colocar o pescoço para fora. O pescoço, afinal, é uma conveniente ligação entre a cabeça e o torso, embora o “pescoço”, que foi o foco da minha preocupação era um figurativo, sugerindo uma possível perda de carreira, dinheiro e status – mas não eram os “pescoços figurados” de americanos e vietnamitas que estavam em questão na linha de frente, diariamente, na guerra.

Mas se não há nada pelo qual você possa arriscar a sua carreira “o pescoço” – como, por exemplo, salvando a vida de soldados e civis em uma zona de guerra – o seu “pescoço” tornou-se seu ídolo, e sua carreira não é digna disto. Lamento agora ter dados tal adoração ao meu próprio pescoço. Mas eu não falhei apenas no teste do pescoço. Eu não tinha pensado sobre as coisas de forma muito rigorosa a partir dum ponto de vista moral.

Promessas a cumprir?

Como uma condição de emprego, eu tinha assinado uma promessa de não divulgar informações classificadas, de forma a não pôr em perigo as fontes, os métodos ou a segurança nacional. Promessas são importantes, e não se deve violá-las em vão. Além disso, há razões legítimas para proteger alguns segredos. Mas não eram por nenhuma dessas preocupações legítimas as verdadeiras razões pelas quais o telegrama de Abrams foi carimbado como SECRET/EYES ONLY? Acho que não.

Não é bom se operar no vácuo de moralidade, alheio à realidade, ignorando que existe uma hierarquia de valores e que as circunstâncias muitas vezes determinam a moralidade dum curso de ação. Como é que uma promessa escrita para manter tudo em segredo desde que venha com um selo de secrecidade poderia definir a responsabilidade moral de impedir uma guerra baseada em mentiras? Fazer parar uma guerra ilegítima não se encontra acima duma promessa de segredo?

Especialistas em ética usam expressão “valor superveniente” para isso; o conceito faz sentido para mim. E há ainda um outro valor? Como um oficial do Exército, eu tinha feito um juramento solene de proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos contra todos os inimigos, estrangeiros e nacionais.

Como é que a mentira do comando do Exército em Saigon poderia se encaixar com isso? Foram. seriam generais isentos? Não deveríamos pedir a sua demissão quando soubermos de engano deliberado que subverte o processo democrático? Pode o povo americano tomar boas decisões se apenas receber mentiras?

Teria eu ajudado a parar matança desnecessária, dando ao New York Times um não-realmente-tão-secreto, Secrete/eyes only telegrama do general Abrams? Nós nunca saberemos, que você acha? E eu fiquei vivendo com isso. Eu poderia ter tomado o caminho mais fácil dizendo ao Sam “vamos fazê-lo”. Porque eu sabia que ele não iria.

Sam escolheu percorrer os canais para reclamações estabelecidos e viu que perdeu tempo, mesmo após que a ofensiva doTet em todo o país comunista em janeiro-fevereiro 1968 provou que, fora de qualquer dúvida, a sua contagem de forças comunistas tinha sido correta.

Quando a ofensiva Tet começou, como uma forma de manter sua sanidade pessoal, Adams elaborou um telegrama cáustico para Saigon, dizendo: “É algo do tipo duma anomalia estar sendo punidos por soldados comunistas, cuja existência não é oficialmente reconhecida.” Mas ele não achava que a situação fosse nada engraçada.

Dan Ellsberg põe o pescoço de fora

Sam continuou jogando de acordo com as regras, mas aconteceu que – sem o conhecimento de Sam – Dan Ellsberg deu números de Sam sobre a força inimiga para o New York Times, que os publicou em 19 de março de 1968. Dan ficara sabendo que o presidente Lyndon Johnson estava prestes a se curvar à pressão do Pentágono para ampliar a guerra ao Camboja, ao Laos e até à fronteira com a China – talvez até mais além.

Mais tarde, tornou-se claro que a fuga de informações fora oportuna – juntamente com outra divulgação não autorizada pelo Times que o Pentágono tinha solicitado mais 206 mil em tropas – impediu-se que a guerra fosse ampliada. Em 25 de março, Johnson queixou-se a uma pequena reunião, “As fugas de informação para o New York Times nos machucam. … Nós não temos nenhum apoio para a guerra. … Eu teria dado a Westy os 206 mil homens. ”

Ellsberg também copiou os Documentos do Pentágono – as 7.000-páginas da história top-secreta de tomada de decisão sobre o Vietnã 1945-1967 – e, em 1971, ele deu cópias para o New York Times, Washington Post e outras organizações de notícias.

Nos anos seguintes, Ellsberg teve dificuldades morais com o pensamento de que, se tivesse lançado os Pentagon Papers anos mais cedo, a guerra poderia ter terminado mais cedo, com incontáveis vidas salvas. Ellsberg tem colocado a coisa desta maneira: “Como muitos outros, eu coloquei lealdade pessoal ao presidente acima de tudo – acima da lealdade à Constituição e acima da obrigação com a lei, com a verdade, para com os americanos, e para com a humanidade. Eu estava errado “.

E assim eu estava errado em não pedir ao Sam uma cópia desse telegrama do general Abrams. Sam, também, finalmente, teve arrependimentos fortes. Sam tinha continuado a insistir no assunto dentro da C.I.A., até que soube que Dan Ellsberg foi a julgamento em 1973 por liberar os “Pentagon Papers” e estava sendo acusado de pôr em perigo a segurança nacional por revelar valores sobre a força inimiga.

Que números? Os mesmos velhos números falsificados de 1967! “Imagine”, disse Adams, “enforcar um homem por vazamento de números falsos”, e assim ele se viu forçado a testemunhar em favor de Dan. (O caso contra Ellsberg foi finalmente cancelado do tribunal por causa de abusos cometidos pela administração Nixon.)

Depois que a guerra se aproximou do fim, Adams ficou atormentado pelo pensamento de que, se ele não tivesse se deixado lograr pelo sistema, toda a metade esquerda da parede do memorial de Vietnam não estaria lá. Não teria havido nenhum nome novo para formação tal parede.

Sam Adams morreu, prematuramente, com a idade de 55 com grande remorso de que ele não havia feito o suficiente.

Em uma carta que apareceu no (então independente) New York Times em 18 de outubro de 1975, John T. Moore, um analista da C.I.A. que trabalhou em Saigon e no Pentágono 1965-1970, confirmou a história de Sam Adams depois de anunciá-la com detalhes na edição de maio 1975 da revista Harper.

Moore escreveu: “Meu único arrependimento é que eu não tive coragem de Sam. … O registro é claro. Ela fala de falta de atitudes, trabalho malfeito, prevaricação, de desonestidade e covardia profissional.

“Isso reflete uma comunidade de inteligência capturada por uma burocracia envelhecida, que muitas vezes coloca auto-interesse institucional ou promoção pessoal à frente do interesse nacional. É uma página de vergonha na história da inteligência americana. ”

Tanques mas sem agradecimentos, Abrams

E sobre o general Creighton Abrams? Nem todos os generais dão nomes aos tanque de guerra do Exército. A honra, porém, não veio de seu serviço no Vietnã, mas sim de sua coragem no começo de sua carreira militar, levando seus tanques, através das linhas alemãs para aliviar Bastogne durante a Batalha do Bulge da II Guerra Mundial. O general George Patton elogiou Abrams como o único comandante de tanque ele considerava seu igual.

Como as coisas aconteceram, infelizmente, 23 anos depois Abrams se tornou uma criança de poster para velhos soldados que, como o general Douglas McArthur sugeria, deve “simplesmente desaparecer”, em vez de cair por muito tempo depois de suas grandes realizações militares.

Em maio de 1967, Abrams foi escolhido para ser o vice de Westmoreland no Vietnã e sucedeu-lhe um ano depois. Mas Abrams não poderia ter sucesso na guerra, não importa o quão efetivamente “uma imagem de sucesso” que seus subordinados projetaram para a mídia. As “conclusões errôneas e sombrios da imprensa” que Abrams havia feito uma tentativa muito difícil de ser atingida se revelaram muito precisas.

Ironicamente, quando a realidade chegou em casa, coube a Abrams o trabalho de reduzir as forças dos EUA no Vietnã dum pico de 543.000 no início de 1969 para 49.000 em junho de 1972 – quase cinco anos depois do famosso telegrama de defesa do progresso feito por Abrams em Saigon. Em 1972, cerca de 58 mil soldados norte-americanos tinham sido mortos sem mencionar que de dois a três milhões vietnamita também morreram.

Ambos Westmoreland e Abrams tinham boa reputação quando eles começaram, mas não tanto quando eles terminaram.

E Petraeus?

As comparações podem ser injustas, mas o general David Petraeus é outro comandante de exército fascinou o Congresso com suas fitas e medalhas de mérito. Uma pena que ele não tenha nascido mais para ter servido no Vietnã, onde ele poderia ter aprendido algumas lições difíceis da vida real sobre as limitações das teorias contra-insurgência.

Além disso, parece que ninguém se deu ao trabalho de lhe dizer que no início dos anos sessenta, nós, jovens oficiais de infantaria, já tinhamos muitos dos manuais de contra-insurgência para estudar em Fort Bragg e Fort Benning. Há muitas coisas que não se pode aprender de leitura ou escrita de manuais – como muitos dos meus colegas do Exército aprendi isto muito tarde nas selvas e nas montanhas do Vietnã do Sul.

A menos que alguém queira acreditar, contrariamente a todas as evidências, ao que tudo indica, que Petraeus não é nada brilhante, temos que aceitas que ele sabe que a expedição Afeganistão é uma loucura sem reparo. Até agora, porém, ele escolheu a abordagem adoptada pelo general Abrams em seu telegrama de Saigon, agosto 1967. É precisamente por isso que é importante a verdade que surge dos documentos divulgados pelo WikiLeaks.

Enxurrada de vasadores

E não são apenas os documentos do WikiLeaks que causaram consternação dentro do governo dos EUA. Se diz que investigadores estão perseguindo a fonte que forneceu ao New York Times os textos de dois telegramas (de 6 e 9 de novembro de 2009) do Embaixador Eikenberry em Cabul. [Ver de Consortiumnews.com “Obama ignora Aviso chave afegão”.]

Para seu crédito, o nada tão independente New York Times de hoje ainda publicou uma grande história com base nas informações destes telegramas, enquanto o presidente Barack Obama ainda estava tentando descobrir o que fazer sobre o Afeganistão. Mais tarde o Times postou os textos completos dos telegramas, que foram classificados Top Secret e NODIS (que significa “não difundir” para ninguém a não ser para os mais altos funcionários e para quem os documentos foram dirigidos).

Os telegramas transmitiam pontos de vista experientes e convincentes de Eikenberry sobre a loucura da política em vigor e, implicitamente, de qualquer eventual decisão de duplicar efetivos na Guerra do Afeganistão. (Isso, é claro, é exatamente o que o presidente acabou fazendo.) Eikenberry fornecia capítulo e versículo para explicar por que, como ele mesmo disse, “Eu não posso apoiar a recomendação [do Departamento de Defesa] para uma decisão presidencial de implantar aqui outros 40.000 homens”.

Tais divulgações francas são um anátema para os burocratas e os ideólogos de auto-serviço que prefirem muito mais privar o povo americano de informações que possam levá-los a questionar a política ignorante do governo em relação ao Afeganistão, por exemplo.

Como os telegramas do New York Times / Eikenberry mostram mesmo a FCM (Gotesca Mídia Corporativa – FCM – Fawning Corporate Media) de hoje (mídia corporativa bajuladora) pode às vezes exibir a velha coragem do jornalismo americano e se recusar a esconder ou falsificar a verdade, mesmo que os fatos possam fazer com que as pessoas imaginem “uma conclusão errada e sombria “, para usar as palavras do general Abrams de 43 anos atrás.

O educado portavoz do Pentagon

Lembre-se de “Bagdá Bob”, o ministro da Informação do Iraque, irreprimível e de pouca confiança, no momento da invasão liderada pelos Estados Unidos? Ele me veio à mente enquanto eu observava o caótico e quixotesco conferêncista de imprensa, o porta-voz do Pentágono, Geoff Morrell em 5 de agosto se referindo às exposições do WikiLeaks. O briefing foi revelador em vários aspectos. Se deduz de sua declaração exatamente o que está mais incomodando o Pentágono. Aqui está Morrell:

“A página da Web dos WikiLeaks constitui uma clara solicitação para que os funcionários do governo dos EUA, incluindo os nossos militares, a quebrar a lei. Afirmação pública do WikiLeaks que a submissão de material confidencial para os Wikileaks é segura, fácil, e protegida por lei, é materialmente falsa e enganosa. O Departamento de Defesa, portanto, também exige que WikiLeaks parem de fazer qualquer solicitação desse tipo “.

Tenha a certeza de que o Departamento de Defesa irá fazer de todo o possível para tornar inseguro, para qualquer funcionário do governo, de fornecer material sensível aos WikiLeaks. Mas ele está lutando com um grupo de especialistas inteligentes hi-tech que construiram uma série de precauções para permitir que as informações lhes sejam submetidas anonimamente. Que o Pentágono vai prevalecer, tão cedo, é muito pouco provável.

Além disso, numa uma tentativa ridícula de fechar a porta do celeiro depois que dezenas de milhares de documentos secretos já haviam escapado, Morrell insistiu que WikiLeaks devolva todos os documentos e mídia eletrônica em sua posse. Até mesmo o, normalmente, dócil corpo de imprensa do Pntágono não conseguiu reprimir uma gargalhada coletiva deixando o porta-voz do Pentágono profundamente irritado. A impressão que ficou foi a do Gulliver do Pentágono amarrado por terabytes de liliputianos.

Recurso de auto-juste que Morrell deu aos líderes do WikiLeaks para “fazer a coisa certa” foi acompanhada por uma ameaça explícita de que, caso contrário, “Vamos ter de obrigá-los a fazer a coisa certa.” Sua tentativa de afirmar o poder do Pentágono, a este respeito, caiu pelo chão frente a realidade.

Morrell também escolheu a ocasião para lembrar ao corpo de imprensa do Pentágono que deviam se comportar ou enfrentar a rejeição quando fizer uma solicitação para ser incorporado em unidades de forças armadas dos EUA. Os correspondentes foram lembrados, acenando docilmente, quando Morrell os lembrou que a permissão para a incorporação “não é de nenhuma forma um direito e sim um privilégio. “Os generais dão e os generais tiram.

Foi um momento de arrogância – e por outro lado de subserviência da imprensa – que teria deixado Thomas Jefferson ou James Madison doentes, para não mencionar os correspondentes de guerra corajosos que fizeram o seu dever no Vietnã. Morrell e os generais pode controlar os “encaixados”, mas eles não podem controlar o espaço inteiro, pelo menos ainda não.

E isso é por demais evidente sob o dedo acenando do gravatinha de seda fantasia do Pentágono para o mundo. Na verdade, as oportunidades oferecidas pelo WikiLeaks e outros sites na Internet podem servir para diminuir o que de poucas vantagens que existem para dividir a cama com o Exército.

O que eu teria feito?

Teria eu tido a coragem de levar o telegrama do general Abrams para o espaço, em 1967, se WikiLeaks ou outros sites da Web estivessem disponiveis para fornecer para expor o engano da parte superior de comando do Exército em Saigon? O Pentágono pode argumentar que o uso da Internet desta forma não é “seguro, fácil, e protegidos por lei.” Veremos.

Entretanto, essa forma de expor informações, que as pessoas em uma democracia devem saber, continuará a ser extremamente tentadora e muito mais fácil do que correr o risco de ser fotografado almoçando com alguém do New York Times.

Do que eu aprendi ao longo destes últimos 43 anos, superveniente valores morais podem, e devem, prometer trunfos menores. Hoje, eu estaria determinado a “fazer a coisa certa,” se eu tivesse acesso a um telegrama do tipo do Abrams vindo do Petraeus em Cabul. E eu acredito que Sam Adams, se ele estivesse vivo hoje, teria, entusiasticamente, concordado que esta seria a decisão moralmente correta.

Meu artigo a partir de 2010 terminou com uma nota de rodapé sobre a Associação Sam Adams pela Integridade da Inteligência (SAAII – Sam Adams Associates for Integrity in Intelligence), uma organização criada por ex-colegas da C.I.A. de Sam Adams e outros ex-analistas de inteligência para assegurar o seu exemplo como modelo para aqueles na inteligência que aspiram a ter a coragem de falar a verdade ao poder.

Na época, havia sete recipientes do prêmio anual concedido a quem, exemplificasse coragem, persistência e devoção de Sam Adam a verdade. Agora, houve 14 destinatários: Coleen Rowley (2002), Katharine Gun (2003), Sibel Edmonds (2004), Craig Murray (2005), Sam Provance (2006), Frank Grevil (2007), Larry Wilkerson (2009), Julian Assange (2010), Thomas Drake (2011), Jesselyn Radack (2011), Thomas Fingar (2012), Edward Snowden (2013), Chelsea Manning (2014), William Binney (2015).

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