Remota

O buraco

https://tarcisio.wordpress.com/2015/08/07/remota/

E eu seguia pela estrada que eu esperava levar-me a cidade Remota, era um sábado. Eu saira cedo de casa, muito cedo e havia decidido, ou
esperava que antes do anoitecer, andando a passo firme e decidido, eu estaria finalmente em Remota onde me esperavam uns amigos e um
projeto que iamos desenvolver.

O dia estava fresco e o caminho agradável devido à arborização significativa que bordejava a estrada e eu caminhava rápido e satisfeito ao
mesmo tempo que sonhava acordado com os planos me esperavam em Remota.

Repentinamente e quase que por um descuido e neste momento não consigo lembrar-me exatamente o que ocorreu, vi-me escorregando na lama barrenta duma lateral da estrada em que descuidadamente me metera e quando me dei contas estava no fundo dum enorme despenhadeiro. Por sorte estava vivo e sentado ao chão.

Levantei-me e o primeiro cuidado foi verificar se estava inteiro. Estava!  Estava também bastante sujo, as mãos um pouco maltratadas uma vez que havia tentado segurar-me em algumas ramagens na parede do despenhadeiro, doloridas estavam minhas mãos, mas no restante eu estava inteiro. Uma sorte imensa, conclui olhando de volta para cima e analisando o enorme buraco em que eu havia caído.

Tentei escalar de volta o paredão apenas para cair umas duas ou três vezes quando finalmente me apercebi que havia uma vereda, uma espécie de estrada à minha frente que poderia ser o caminho para voltar para a estrada onde eu estava antes. Sem alternativas, uma vez que a escalada do despenhadeiro seria simplesmente impossível, segui pela nova estrada que estava à minha frente.

Como o caminho anterior, esta também seguia limitada por um arvoredo denso oferecendo um abrigo do Sol e simplesmente continuei pelo novo caminho sem outra opção.

Ao final do dia, cansado, exausto, faminto, depois de muitas paradas para beber água de duas garrafas que havia trazido comigo na mochila assim como comer algumas bananas cheguei a um povoado simples mas bem arrumado e me aproximei dum hotel que foi o primeiro que encontrei. Mesmo sem procurar outro hotel que porventura houvesse no povoado, tão cansado estava, aquele me parecera exatamente o melhor, ou talvez, pensando no buraco onde caira no começo da manhã, eu estava apenas caindo noutro buraco, o hotel.

Entrei, pedi acomodação, um quarto onde houvesse banheiro e uma hora mais tarde eu estava parcialmente refeito e limpo e procurei a recepção para saber se poderia comer alguma coisa e havia. Comi, sai um pouco para olhar os arredores, e até pensei em olhar se havia outras pousadas no vilarejo porque aquilo que estava chamando de hotel seria pouco mais do que uma pousada.

Andei um pouco, cheguei até uma praça onde encontrei algumas pessoas conversando, crianças correndo, e, cansado, retornei ao hotel para
dormir e finalmente decidir no outro dia, domingo, então com esperança de poder encontrar o caminho para Remota, deitei-me e dormi.

Dormi muito, muito mais do que planejara. Cansado, o corpo dolorido as mãos ainda maltradas, tudo isto me levara a uma dormida profunda numa cama agradável envolvido nos lençois e por sorte numa noite fresca e sem mosquitos. Claro, a cama seria mesmo agradável considerada as minhas condições físicas, como é agrável a comida quando a fome é grande.

Acordei tão tarde que terminei perdendo o café da manhã uma vez que havia horário em que seria servido, como sempre acontece nos hoteis e alí na pousada não foi diferente. Mas consegui comer alguma coisa e depois fui acertar as contas na gerência  quando perguntei pelo caminho para Remota.

A moça que me atendeu sorriu dizendo que não tinha a menor ideia de como chegar à Remota, mas que ao final da rua eu poderia encontrar uma praça que funcionava como uma espécie de rodoviária em que havia algumas camionetes que partiam em muitas direções e talvez lá eu descobrisse como seguir para o meu paradeiro.

Nunca cheguei à Remota e terminei aceitando trabalho numa escola do vilarejo onde vivi algum tempo até que parti novamente em busca de outra vida quando, no caminho, repentinamente, escorreguei novamente num lamaçal para ver-me finalmente dentro de outro buraco e pela frente outra estrada. Pela experiência da outra queda, não duvidei muito e simplesmente saí andando pela estrada que me conduziu a outro vilarejo, noutra noite e lhe asseguro que não me lembro se era sábado ou domingo mas que dormi longamente numa agradável cama duma pousada deixando as decisões para serem tomadas no dia seguinte quando me acordasse mais refeito.

Quanto à Remota, eu nunca consegui mais lá chegar. Mas posso dizer que hoje, já perto do fim da vida, sinto-me satisfeito pelas decisões que tomei. Estou ainda vivo, e tenho como viver mais alguns anos, acho que posso dizer que sempre tomei as decisões certas na vida, mesmo que nunca tenha chegado à Remota.

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