Por que o golpe é burrice, além de feio.

Por que o golpe é burrice, além de feio.

Tarcisio Praciano-Pereira
Primeiro é feio, deselegante, uma vez que se insurge contra a Constituição que a forma como uma sociedade civilizada regula o seu funcionamento nos tempos modernos.

A destruição, na prática, da Constituição, deixa a sociedade à deriva como no mar um navio à vela que perdesse os mastros devido a uma violenta tempestade. E aqui não houve nenhuma violenta tempestade, o mastro foi quebrado por indivíduos, marinheiros, membros da tripulação, durante a noite quando a maioria dormia e eles estavam encarregados da vigilância do barco. Traiçoeiros, covardes e burros, porque o barco sem os mastros ficam sem poder usar as velas e perde a capacidade de ser governado conduzindo todos à morte inevitavelmente.

É feio e burro, pela covardice de ter destruído a Constituição e ter se preparado para fazê-lo durante um longo período em que estávamos todos vivendo tranquilos sob o império da lei na suposição de que eles estariam cumprindo com o seu papel de proteger a Constituição que é o mastro do nosso navio.

Como um dos covardes golpistas, um dos marinheiros covardes que tramaram a quebra do mastro, já disse claramente, “que não havia direitos garantidos” e conseguiu rapidamente uma resposta sarcástica e brilhante de alguém que lhe respondeu bem dentro dos seus “princípios” dizendo, “há, então não há mais direitos, então muito menos há direitos sobre a terra e sobre a propriedade e vamos então distribuir finalmente a riqueza acumulada nas mãos de alguns porque este direito também cessa de existir.”

Por que, se não há mais direitos garantidos, até porque a Constituição está rasgada, então não existem mais regras de convivência decente, a Justiça perde sua função como reguladora dos conflitos dentro da Sociedade uma vez que ela se baseia na Constituição que é o mais definitivo fulcro em suporte a todo o resto da Legislação.

Claro que o golpe vem de longe, mesmo depois dos primeiros dias de promulgação da Constituição quando ela sabiamente instituiu o sistema de PEC, num reconhecimento, dum lado humilde que poderia conter erros, e por outro lado abrindo um modo legal, constitucional, de ajustar a lei fundamental, mas que foi logo usado para romper princípios e enfraquecer os pontos norteadores do trabalho do constituintes de 1988. A enxurrada de pecs enfraqueceram a Constituição e na prática a desvirtuaram corrompendo o próprio instrumento e transformando a Constituição num publicação quase mensal uma vez que a cada PEC está se promulgando uma nova Constituição, a Constituição alterada.

Assim o golpe foi tramado há muito e o STF, guardião da Constituição, ou ainda na comparação com os marinheiros e o barco veleiro, marinheiros responsáveis pela segurança do barco durante as noites quando a maioria dorme tranquila e segura da responsabilidade dos vigilantes, os membros do STF se tornaram cúmplices da destruição do mastro, pouco a pouco, porque quem uma vez se cala é reconhecido como membro da gangue que está destruindo o patrimonio moral que representava a Constituição. Como se calaram uma vez e outras muitas seguidas, perderam o direito de impedir a destruição ou se acostumaram com ela ou simples se acumpliciaram com os insurgentes.

E a burrice que completa a feiura da ação? Como no caso do barco sem mastros e portanto sem velas, o vento deixa de ser uma força propulsora para se transformar na força destruidora. O vento na sociedade são as contradições que, havendo uma Constituição, representam uma força propulsora porque abre o caminho para discussões que permitam a Sociedade se modifique ainda protegida pelo respaldo que a Constituição oferece e apenas, se for necessário e ainda assim sob o critério de uma aprovação ampla da Sociedade fazerem-se algumas poucas PECs, pouquíssimas e profundamente justificadas, que ajustem a Constituição na definição de novos rumos por todas aceitas.

Sem a Constituição se estabelece o caos. A Constituição cidadã previa uma caminhada para a igualdade social. Uma igualdade social que todos sabemos que é relativa, quer dizer, nunca seremos todos iguais. Mas seria uma busca na árdua tarefa de reduzir as discrepâncias. E vemos que um dos objetivos do golpe é precisamente acentuar as diferenças, proteger os mais ricos contra os mais pobres. Vemos então surgir o estado policialesco que já começa a oferecer os seus efeitos assustadores com o aumento significativo da morte com armas de fogo. É a Sociedade se transformando numa selva, na ausência de regras cada um passa a ter o direito de estabelecer as suas criando uma vácuo de regras que nos deixa a todas em risco.

Ninguém mais pode se considerar protegido, nem ricos e nem pobres uma vez passa a ser um fato corriqueiro a bala perdida. A bala perdida pode não alcançar num momento o ignorante que se sente seguro pelos vidros à prova de bala, ignorante porque ele se esquece de que tem que sair do carro, abrir a porta e neste momento e nos muitos momentos em que ele vai se ver obrigado a romper a proteção, ela vai se encontrar exposto à violência que ele mesmo ajudou a criar como membro ou pelo menos cúmplice do grupo covarde de marinheiros que quebrou os mastros durante a noite.

A burrice se encontra na ausência de compreensão de que, para vivermos bem é necessário que todos vivam bem. É uma burrice alimentada por um consumismo destrutivo que busca uma desigualdade econômica pensando que uma mais alta capacidade de compra dará a alguns a possibilidade de ter direito a tudo. Uma visão de que o dinheiro compra o direito, compra a felicidade.

Esta forma burra de entender a Sociedade baseada na regra mais agressiva do capitalismo moderno condensada na ideia do “estado mínimo” sob a hipótese de que existe um mecanismo, que eles chamam de mercado, que iria regular automaticamente todas as relações humanas nos joga de volta à selva anterior à Revolução Francesa que institui a república nos tempos modernos. Na verdade os capitalistas se transformam em senhores feudais sendo os feudos a conta bancária escondida nalgum paraíso fiscal e protegidos por regras que os colocam fora do alcance dos impostos que seriam o método regulador daquela justiça social relativa que poderia conter extremismos dentro da Sociedade.

É burrice porque está rompida a proteção genérica para todos e o exemplo das balas perdidas é apenas um pequeno sintoma da insegurança extrema a que poderemos chegar. Rompidas as regras de convivência, ninguém poderá se prevenir contra o roubo genérico contra a violência de quem tem fome ou está ansioso para conseguir algum trocado para adquirir droga um indício terrível de sociedade em destruição.

E há exemplos patentes, são muitos e eu chamo da minha memória um caso que você que me lê certamente irá reconhecer num exemplo que não precisa ser igual ao meu e nem ter acontecido na mesma cidade e nem mesmo no mesmo momento do tempo. Foi um rico industrial que vivia, ou segue vivendo, numa grande mansão protegida e cuidada por uma legião de pobres transformados em vigias, limpadores, cozinheiros. De repente lhe desaparece o filho e depois de muitas buscas a criança foi encontrada morta exatamente na casa dum dos vigias. Este exemplo complementa a situação que descrevi acima do momento em que o rico que se sente seguro em seu carro totalmente à provas de bala, de repente precisa abrir a porta quando sua alta segurança fica interrompida por alguns minutos em que ele pode ser alvo duma bala perdida e morrer sem razão.

Para terminar uma comparação. Eu vivi na Suécia nos anos setenta do século passado. Então a Suécia que os folhetos oficiais insistiam em observar que não era um país socialista como comumente era qualificada por pessoas que lá não viviam devido às regras então vigentes de relativa igualdade econômica. Na Suécia de então os salários variavam de uma até 10, ou seja, quem ganhava mais recebia no máximo dez vezes o salário mínimo. Esta regra foi rompida e a Suécia hoje vive um clima de convolução social alarmante. Numa rápia comparação, mas que é efetiva, o país vizinho, a Finlândia, tem uma escola pública que é apontada como um paradigma mundial enquanto que a escola pública que na Suécia foi privatizada, se degradou a um ponto que hoje os suecos se sentem aterrorizados com os baixos números de qualidade da sua escola. A Suécia embarcou, timidamente, na onda destrutiva do Estado Mínimo que a conduziu a entregar a escola ao mercado e hoje na Suécia se vê as alunas encurralando as professoras numa visão típica de escola pública brasileira de periferia. Também hoje na Suécia há bairros em Estocolmo, Malmo, Gotenburgo, as três maiores cidades, em que a polícia, ambulância e corpo de bombeiros não podem entrar e eu pergunto se isto lhe lembra alguma coisa!

É onde estamos caindo com a destruição da Constituição e não pensem os burros que a promovem que encontrarão algum espaço seguro para viver no meio da destruição que isto ira produzir. Em algum momento será obrigado a abrir a porta do carro fora do abrigo seguro ou terá que conviver com inimigos, os pobres, dentro de sua mansão!

É, no Estado Mínimo, a lei que vige é a da selva.

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