DIA DO GOVERNO

DIA DO GOVERNO

Brasilino Godinho

Uma proposta de 20 de Junho de 2006.
Que agora se renova. Urge festejar!…
Brasilino Godinho

Estão alguns rostos bem rosados e melhor nutridos, neste fim de Agosto de 2013, preparando o regresso de férias ou percorrendo aceleradamente o caminho de volta ao trabalho. Talvez mais o retorno ao recato e gozo das suas exuberantes bem-aventuranças – estas, nalguns casos, decorrentes dos trabalhos e desgraças dos explorados colaboradores, subordinados e dependentes.

Por vezes, veraneios de gentes que, acintosamente, muito sobressaem no vale de lágrimas em que almas danadas converteram este país e no qual tais arrojadas criaturas lograram folgar à tripa-forra, em obsceno contraciclo de vida de inúmeros e desventurados rostos bastante pálidos que vão comendo o pão que o diabo amassou e se arrastam por aí sucumbindo a cada dia que passa.

Portanto, parece ser a altura de a malta fazer uma celebração de que pouca gente se lembra, mas que conviria realizar acompanhando a onda da folia: precisamente aquela gostosa farra que seria a de comemorar o sucesso… dos insucessos do governo.
Por isso, aqui renovamos a proposta, que fizemos há sete anos, de criação do DIA DO GOVERNO – o feriado que, mais do que nunca, faz pleno sentido de oportunidade.
Sobretudo, para nesse dia, enfim descontraídos, festejarmos com aprazimento; e, assim, darmo-nos folga do pesadelo de termos aquele ser mal criado e pior desgovernado, sempre presente todos os dias nos nossos pensamentos, pelos piores motivos que todos conhecemos…

VAMOS CRIAR “O DIA DO GOVERNO”…
PARA QUÊ? PARA COMEMORAR O SUCESSO…
DO INSUCESSO GOVERNAMENTAL.
Brasilino Godinho

1 – No p.p. dia 10 de Junho (2006), o Presidente da República fez um discurso à Nação. Aproveitou a circunstância para dirigir aos portugueses quatro apelos:
Primeiro: “Não se resignem face às dificuldades”.
Segundo: “Aprendam com a insatisfação colectiva”.
Terceiro: “Arranjem coragem para enfrentar dificuldades”.
Quarto: “Não se deixem vencer pelo desânimo ou pelo cepticismo”.

2 – Antes, a 26 de Maio transacto, no “FÓRUM PARA A COMPETITIVIDADE” o conhecido gestor americano Jack Welch dissera:

a) – As pessoas são demasiado estáticas em Portugal.

b) Os portugueses deveriam ter vergonha da degradação do País.

c) – É humilhante para os portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, que é de uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos.
d) – Cortem as ervas daninhas e terão um bonito jardim.

e) – Os gestores que apenas gostam de números e que não querem saber de pessoas – mas elas existem na empresa – são uns idiotas.

3 – Desde anos mais recuados, Brasilino Godinho vem escrevendo sobre o famigerado plano inclinado do nosso desvario colectivo. Ainda, há pouco, na sua obra ”A QUINTA LUSITANA”, escreveu a página 76: “Neste país, de gente amordaçada pelo sistema hermético da partidocracia, de cidadãos confundidos pelos fingimentos dos “políticos” e de pessoas molestadas pela inaptidão ou má-fé de governantes irresponsáveis, tem faltado o tempo, não houve espaço, não existiu o bom ambiente, nem surgiram os estadistas capazes, para se afirmarem os valores dos princípios, as mais-valias das competências, as riquezas dos saberes e as extremas autoridades das experiências acumuladas”.

António Oliveira Salazar, sempre ele, o grande mestre (pedreiro-livre? ou pedreiro-cativo?) das tiradas grandiloquentes, a baralhar-nos o juízo, depois de nos atirar à cara “que a vontade de obedecer é a única escola para aprender a mandar” e sem nos ter dado conhecimento se teria exercitado regras e devoção de obediência, induzia os sequazes a perguntarem ao pagode: Quem manda? E logo, os mesmos, sem darem tempo aos indígenas de respirar fundo, apressavam-se a responder desabridamente: Salazar! Salazar! Salazar! (Em dose tripla para desfazer hipotéticas dúvidas…). Pois foi este homem que um dia disse que “a Agricultura é a arte de empobrecer alegremente”. E providenciou, resolutamente, nesse sentido. Instigou a malta a cavar a terra, a comer o pão que o diabo amassou e, nos intervalos, a divertir-se com Fátima, Fado e Futebol. Foi uma santa alegria que deu naquilo que todos sabemos e de que ainda hoje sofremos as sequelas.

Parafraseando a “máxima” do chefe do Estado Novo (este, concebido e institucionalizado segundo o modelo do regime fascista de Itália, criado por Benito Mussolini em 1922, três anos após a fundação do Partido Fascista e logo rematando a Marcha dos Camisas Negras sobre Roma), diremos que, actualmente, a política, em Portugal, é a arte de enriquecermos de amarguras. Tristemente. Resignadamente. Barafustando, persistentemente, em surdina e com regularizada acomodação. Vindimando numa vinha com muita parra e pouquíssima uva.

Mas se bem considerarmos a bondade do contraditório e a importância dos dualismos que nos condicionam o viver quotidiano, inevitavelmente daremos a chamada volta por cima; ou seja: iremos encarar, com outro espírito, o quadro existencial da sociedade portuguesa.

E nada melhor para nos orientar nesta análise do que seguirmos a linha de pensamento expressa pelo Chefe do Estado e as apreciações críticas de Jack Welch acima reproduzidas.

De facto, os portugueses (na sua maioria) sofrem, queixam-se e estão desanimados. Em contraposição, entidades como os bancos, algumas empresas, grandes capitalistas e magníficos empresários, atravessam um período de enorme prosperidade. Mal dos primeiros. Bem super-requintado dos últimos. É verdade que fecham fábricas quase todos os meses e milhares de famílias ficam na miséria, sem sustento. Igualmente, os serviços dos hospitais, das maternidades, das escolas, das cadeias, são encerrados. Está a definhar e a encerrar tudo aquilo de instituições e meios da organização social, que o pagode necessita para satisfazer necessidades básicas para levar por diante uma vida regular e decente. Porém… atenção!

Um olhar mais atento descortinará que se muitas responsabilidades cabem ao governo, alguns reparos têm de ser dirigidos à malta…

Alguém já se deu ao cuidado de pensar nos esforços dos governantes quando nada fazem de concreto ou de útil e nos aborrecimentos e transtornos que padecem naquelas frequentes ocasiões que agem mal e porcamente? Dá-nos um arrepio na espinha só de imaginar o cansaço físico e o desgaste psicológico que, por causa dessas atribulações e desventuras, se apodera irremediavelmente das excelências. Depois, os cidadãos mais desfavorecidos estão mal habituados quanto às lamúrias. É nas dificuldades que se fortalece a alma. E não só do pão vive o espírito do homem. Também se pode dizer que nem só do espírito se alimentam os ricos homens e as belas mulheres. Se uns carecem de pão para a boca; outros tendo o pão precisam da boca e de olhos convenientemente tratados… a completar a enriquecida alma. Que imensidão de preocupações não atingem os ricaços machos e as esplêndidas fêmeas, a qualquer momento perspectivando assaltos aos seus bens. Também, inquietos, sobrecarregados de dúvidas quanto às aplicações financeiras. Quem há por aí que não tenha ouvido o desabafo de ilustre milionário: “Ó como os pobres são felizes por não terem problemas de defesa e (ou) aplicação dos bens materiais!”… Sem dúvida: o vil metal a atormentar o povo, a nobreza e o clero. Ontem, hoje, amanhã…

Depois, Jack Welch não tem razão. Os portugueses estão desde a época dos descobrimentos habituados a percorrer declives de afundamento das condições de vida e já não têm vergonha disso. Como dizia o Salazar – e lá vem ele outra vez à baila… – estamos orgulhosamente sós; no primeiro lugar dos últimos da Comunidade Europeia. Já é alguma coisa… Quanto a cortar ervas daninhas e termos um bonito jardim já nos basta ter o canastrão do Jardim da Madeira. Ufa!…

Mais um apontamento sobre o Welch. Este amigo da onça não é nada perspicaz ao falar de números e pessoas das empresas portuguesas. Francamente, chamar idiotas aos nossos empresários não lembrava ao Diabo. E logo àqueles espertalhaços que sabem das pessoas mas apenas gostam dos números… e de contemplar o próprio umbigo. Onde se viu um inteligente empresário apresentar-se numa venda de melões a comprar os ditos com uma pessoa. Não é com os números (de notas, claro!) que se compram os melões e… outras coisas mais?

Caramba! Todo este palavreado para chegar a esta conclusão: Vamos de mal a pior, segundo o sentir de muitos cidadãos. Estamos nas sete quintas na opinião de alguns excelentes reformados, imponentes gestores, majestosos capitalistas.
E está quase tudo a encerrar. Certo! Todavia, estranhamente ninguém se lembrou de meter em clausura o Governo.

Tome nota presidente Cavaco Silva: porque “não nos resignamos”; porque “aprendemos com a insatisfação colectiva”; porque não necessitamos “arranjar coragem”; porque não vamos sucumbir arrastados “pelo desânimo e pelo cepticismo”;
– TODOS, VAMOS CRIAR O “DIA NACIONAL DO GOVERNO”.
Para, no mínimo – e pelo menos por um dia – nos livrarmos dele. E durante 24 horas recuperarmos o fôlego. Igualmente, festejarmos o sucesso… do insucesso governamental.

Tal como num dia sem automóveis nas cidades, hajam festas, missas de acção de graças, bailes de máscaras (e temos imensas na área política), encontros de namorados, cortejos, fanfarras, celebrações de teatro revisteiro, provas desportivas e… debates sobre o estado em que estamos, com especial incidência nas trapalhadas contempladas no circo político. Tudo apresentado com entusiasmo e alegria. Ah! Em Lisboa, no Terreiro do Paço, não esqueçam de fazer uma grande manifestação ordeira, civilizada, com muitos discursos de elogio ao insucesso do Governo. Ele merece! Aliás, seguindo o exemplo dos que o antecederam.

Sobretudo, lembrem-se: Tristezas não pagam dívidas… E, nossas, muito sofridas, nem põem a governar bem, quem – mal governando – bem se governa…
No “DIA NACIONAL DO GOVERNO”, pobretes, mas alegretes, gritemos: Viva a folia!

Apelo aos portugueses: Demo-nos as mãos e as vontades.

Vamos dar uma forcinha para que esta generosa ideia posta na contemplação dos nossos queridos e sacrificados governantes e mui reconfortante da nossa auto-estima, se concretize a breve prazo. Ela é do maior interesse político-social…
Sempre em Portugal se falou mal dos presidentes, dos ministros, dos políticos, dos administradores. É tempo de, publicamente e com pompa e circunstância, se reconhecer os méritos das desgovernações, das incompetências, dos desleixos, dos abusos, das falcatruas, dos oportunismos. Outrossim, se abrir uma brecha nesse deprimente estado de abatimento colectivo que tanto dificulta o exercício da boa vontade e a expressão das faculdades de alma dos detentores do Poder…

E acontece que nunca em Portugal se festejou com relevo o fracasso dos governos.
Portanto e porque os portugueses sabem ser agradecidos para quem os trata com tanto desvelo e carinho… está na hora de, a título excepcional, festejarmos o sucesso do insucesso das governanças.

É agora!!!

Passem palavra! A Bem do Zé-Povinho!…

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