Quando eu era pequeno meu pai dava-me lições de cidadânia.

Eu ainda me lembro de  muitas lições de cidadania que recebi do
meu pai, e neste momento queria reportar uma que me marcou especialmente.

Contava-me ele que certo dia um pequeno garoto holandês voltando para casa ao
fim do dia escolar quando, passando por um dique, observou um buraco. E
então meu pai me explicou o significado dos diques para a Holanda e o que
podia significar um buraco no dique, por onde passava água. Que a Holanda
havia roubado ao mar grande parte do seu território, que não era atoa que
tinha um segundo nome, “Países Baixos”, estava abaixo do nível do mar, e que
o garoto, como todo holandês, sabia que aquele buraquinho poderia deitar o
dique abaixo e das consequências disto para muita gente. O garoto fez o seu
papel de cidadão, colocou o dedo no buraco e ali ficou até que finalmente
sua família alerta pela sua ausência foi encontrá-lo de plantão fazendo a
sua obrigação como cidadão.

Não é que a Holanda ou os holandeses sejam melhores que nós e nem mais
sérios e sobre a Holanda e os holandeses eu posso também contar histórias e
fatos terríveis, mas a lenda ou o fato verídico que me contou paí fez parte,
como tantas outras histórias que ele me contou, do arcabouço ético que me
marca como cidadão e que me fez outro dia dirigir-me à administração da
Universidade para informar sobre uma telha solta dum coreto que fica no
centro duma praça no campus universitário.

Se tratava duma folha de telha, dessas de “eternit”, que cobre um coreto no
no centro da praça da Matemática e Física e estava solta e se mexia com o vento.
Levantei-me para ir embora, mas antes passei na secretaria da Física e relatei
o fato à jovem que estava de serviço pedindo-lhe que fizesse seguir em frente
o aviso do risco que aquilo representava.

Ontem, terça-feira, de noite, novamente fui estudar na Praça da Matemática e
Física e para minha surpresa nada havia acontecido relativamente à folha
solta.

Não sei se a atendente na secretaria da Física compreendeu o risco que
representaria uma telha destas solta sob a ação do vento, mas eu lhe fiz
observação neste sentido. Não sei se o fato chegou à Administração (que se
auto-classifica como “superior”) da UeVA.

Mas eu sei que uma telha destas solta, sob a ação do vento, representa um
risco de acidente que ainda não ocorreu, mas se ocorrer, eu não terei a
menor dúvida de responsabilizar a “administração superior” da UeVA por um
“crime culposo” porque, a partir deste e-mail, nenhum dos agentes que se
encontram na lista de recepção deste e-mail, poderá alegar falta de conhecimento
do risco existente.

Eu já cometi muitas ações erradas, e lembro de ações erradas que meu pai
cometeu, mas o que guardo do meu velho pai é um conjunto de atitudes que
melhor o definiram como um homem que procurava ser justo do que as várias
atitude erradas que terá cometido, como ser humano que era, aliás, estas até
para salientar suas ações justas.

E acho que não é desmedido colocar este fato dentro dum contexto mais amplo
e observar que vivemos numa sociedade em que alguns idiotas ficam parados
quando o sinal está vermelho enquanto que vários sabidos ignoram o sinal
vermelho, alguns até mesmo com uma demonstração de empáfia cortam o sinal
aceleradamente. Mas como esperar do “cidadão comum” o respeito à droga dum
sinal vermelho quando os togados do chamado “supremo tribunal federal”
ignoraram todos os sinais de corrupção que lhe foram enviados por centenas
de deputados, um deles correntista de vultosa conta na Suíça?

Mas como esperar
do “cidadão comum” o respeito à droga dum sinal vermelho quando os togados
do chamado “supremo tribunal federal” ignoraram as ações de centenas de
deputados com indícios claríssimos de corrupção e dolo, liderados pelo dito
correntista de conta na Suíça, decidiram destituir a presidente eleita do
país para finalmente outro, também meliante, julgado por tribunal eleitoral,
e com crimes diversos de peculato e corrupção arrolados em diversas denuncias,
chegasse à Presidência da República para desmantelar a Constituição da República
como vem seguidamente fazendo?

Que importa então uma telha solta que um vento mais forte possa deslocar e
por acidente ferir ou matar a droga dum estudante que se encontre ali na hora e
no local errado?

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