Modelar a mente humana?

Modelar a mente humana, era, melhor não tentar!

Outro dia eu estava fluindo no trânsito caótico de Sobral, que tem apenas 200 mil habitantes dos quais talvez 5% possuam carros (a brutal concentração de renda) e pensando na ínfima quantidade acidentes que ocorrem aqui. Apesar do desrespeito ao sinal e às demais regras.

A razão somente pode ser uma: é solução duma equação diferencial multiprocessada. Cada motorista é um processador, eles nem sabem em geral o que é equação diferencial (abaixo eu conto uma anedota) mas eles todos as estão resolvendo instataneamente as órbitas-solução que melhor se
adaptem às suas decisões dentro do trânsito caótico. Isto se me ocorreu, repentinamente, quando um motoqueiro fez um “slalom” (como dizem
os esquiadores, na neve
) entre três carros escapando velozmente na frente dum terceiro carro depois de ultrapassar dois. Ele tinha certeza da relativa estabilidade da rota dos carros e que poderia zig-zaguear entre eles aumentando a frequência da oscilação. Solução duma equação diferencial complicadíssima, em tempo real o que garante a relativamente baixa incidência de acidentes. Talvez uns 10 por dia num total de 10 mil motos, isto dá uma eficiência de 99,9%. Você conhece alguma máquina com tal eficiência?

Claro que é esta a razão pela qual estou estudando equações diferenciais: para entender o trânsito!

A anedota, é meu pai. Um cara surpreendente. Até os 17 anos ele era pastor de cabras no interior do Ceará. Aos 27 anos se casava e em seguida
se mudava com a esposa para Belém, eu sou paraense e o primogênito dele, onde foi assumir a correspondência em inglês duma firma americana de cabotagem (ele havia escrito uma carta pedindo o emprego e lho deram pagando-lhe o salário que ele pedira), aos 57 anos se aposentou como presidente dum banco, um dos maiores bancos de Belém. Muito depois ele me falou que ficara com vergonha quando acessara os arquivos da firma e relera a carta que então havia enviado pedindo o emprego, isto quando já havia adquirido um bom domínio da língua recebendo navios que chegavam em Belém.

Ele foi meu professor de inglês, de francês, de português, de Matemática – aritmética era o seu forte e foi uma das coisas que ele aprendeu sozinho na juventude e foi o que lhe facilitou certos avanços depois dos 17 anos já em Fortaleza. No exame de entrada da escola onde ele se formou contador, o professor lhe fez uma desafio: lhe daria uma única questão, se ele a resolvesse, dava-lhe o 10 que ele precisava para passar. Ele lhe deu uma regra de três composta… contando-me isto, ele ria! era coisa que ele dominava bem as regras de três compostas.

Mas o interessante vem agora.
Um dia eu cheguei com ele com uma questão de álgebra, uma equação do segundo grau.
Ele olhou o papel, balançou a cabeça e me disse:
– Meu filho, eu aprendi toda a matemática com exceção de equações do segundo grau!

É o retrato do autodidata! Eles tem uma visão do Universo construída a partir da experiência que construíram! para o meu pai, a Matemática era a Aritimética e terminava por ai pelas equações do segundo grau! Ela era exímio em regra de três em particular com as compostas, apenas não chegou nas equações do segundo grau, o limiar do infinito para ele.

Gerardo Pereira, um mausoleu eletrônico

Ele já morreu, em 2013, aos 97 anos, e até dezembro de 2012, seu aniversário, recitou para mim o fiel de Guerra Junqueiro com que me fazia dormir quando pequeno, entre outras poesias de Guerra Junqueiro que era um dos seus autores preferidos. A página é meu preito de homenagem a ele, o seu mausoleu eletrônico.

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Um pensamento sobre “Modelar a mente humana?

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