O velho relógio

O velho relógio

O velho relógio

Tenho em casa um velho relógio que obtive de um parente que o tinha em casa
parado e não quiz consertá-lo pelas rezões da modernidade: é mais fácil (e
mais barato) comprar um novo do que gastar dinheiro e tempo em corrgir um
aparelho quebrado.

As consequências desta modernidade são catastróficas em si mesmas, por
exemplo, estamos perdendo artífices porque o seu trabalho deixou de ser
remunerado adequadamente. É simplesmente impossível mandar refazer aquela
cadeira de palhinha do conjunto de cadeiras da sala, porque não há mais
carpinteiros trabalhando neste setor porque este trabalho não é pago
adequadamente. Vou ter que mandar colocar um tampo de plástico ou qualquer
outra coisa em lugar da palhinha que além de bonita também é leve e arejada.

Entretanto não é a palinha e nem o relógio que me interessam aqui, apenas eu
passei por eles quando me acordei hoje e vi na parede o relógio parado que
me lembrou uma afirmação que me fez o meu neto, com extraordinária visão
filosófica: este relógio mostra a hora exata duas vezes por dia.

Sim, duas vezes por dia o velho relógio nos mostra a hora exata, precisa, em
milésimos de segundos. Porém inteiramente inútil porque não podemos saber
quando.

Pensando nisto passou pela cabeça uma torrente de idéias, uma série de
quadros um dos quais é o princípio da incerteza que em palavras simples nos
diz ser impossível determinar com precisão como é a realidade porque, ao
tentar descobrir como são os fatos temos que intervir nos mesmos e portanto
alterá-los e como resultado vamos ter dados de uma realidade adulterada,
consequentemente diferente da realidade que estavamos procurando descrever.

O princípio da incerteza, dito de Heisenberg, foi enunciado relativamente à
determinação de uma partícula de matéria que para ser determinada, descrita
a sua posição, precisamos lhe enviar um sinal, um feixe de partículas que,
ao encontrar a partícula que desejamos descobrir, vão lhe transmitir
energia e portanto deslocá-la do lugar original em que ela se encontrava
portanto o retorno do sinal que enviamos nos diz onde se encontrava a
partícula e não onde ela se encontra. É portanto impossível saber-se,
exatamente, onde se encontram as partículas de matéria. Tudo que podemos
saber é onde se encotram em média.

O caso do relógio parado tem o que ver com um belo teorema de Matemática que
é novamente inútil, o teorema do valor médio de uma certa classe de funções
que representa a grande maioria das funções que nos interessam na prática.
Podemos saber facilmente qual é o valor médio dessas funções e o teorema nos
diz que existe um ponto c no domínio delas onde este valor se realiza.
Como no caso do relógio, sabemos que existem dois momentos em que o relógio
fala a hora precisa, apenas é impossível saber quando. É praticamente
impossível saber o valor de c. Ou melhor, é possível montar um algoritmo
para descobrir c, mas o custo é alto e o resultado não compensa, como no
caso da palhinha da cadeira estragada que tenho na sala.

Se você me perguntar onde quero chegar, eu vou lhe responder que não sei! Eu
não estou interessado em exatamente resolver um problema como a determinação
do ponto em que ocorre o valor médio da função ou o momento exato em que o
velho relógio parado que enfeita a minha sala mostra a hora certa. Mas estou
querendo levantar uma discussão sobre a verificação da realidade.

Como no caso das partículas, mesmo com a incerteza de onde elas se
encontram, podemos construir dispositivos que usam a posição das partículas
e nos fornecem resultados interessantes como a energia elétrica fluindo num
fio de cobre que me permite estar escrevendo este texto. Não podemos
descrever com precisão como se dá o fluxo de electrons no fio de cobre, mas
eles transmitem o potencial elétrico que precisamos para acender lâmpadas.

Há mais variantes interessantes nesta história e eu poderia seguir por
diferentes atalhos, mas é mais importante chegar em algum lugar e tirar uma
conclusão do que seguir apenas pensando. Uma das conslusões a que cheguei
depois de olhar para o velho relógio foi a de que não vale a pena fazer
grandes verificações estatísticas para comprovar como é que as coisas estão
funcionando, porque na tentativa de verificar, como no princípio da
incerteza, alteramos a realidade e consequentemente a realidade assim
descrita será imprecisa porque adulterada. Pior, quando o operador dos
instrumentos de verificação estiver interessado em provar uma determinada
versão dos fatos, ele pode chegar ao seu objetivo de modo que seja difícil
de ser contestado, um desses exemplos são as chamadas dívidas… e não é
atôa que hoje se começa a falar que é melhor considerá-las encerradas.

Mas temos a certeza absoluta de que se fizermos tudo da forma certa o
resultado será satisfatório para todos, então, deixemos de lado as
verificações, perdoemos os erros, zeremos as contas, e vamos procurar
corrigir o mundo começando a fazer tudo correto de agora em diante. Mas a
sério, e o resultado será excelente para todos.

Mas eu sei que é difícil
zerar as contas, existem ânimos dilacerados e com razão.

As atrocidades do descobrimento.

Visite o site do escritor e historiador Luis López Nieves, por exemplo, para ler este registro hitórico fundamental

http://www.ciudadseva.com/textos/otros/brevisi.htm
um relato de Fray Bartolomé de las Casas,
dominicano, que cuidadosamente, para não ferir a susceptilidade de el rey, de Espanha, mostra as atrocidades do “descobrimento”.
Eu cheguei lá depois de ler mais uma vez o lendário (parece que é uma lenda) discurso do cacique Guaicaipuro Cuatemoc.
O texto (lendário) do cacique pode ser lido aqui
http://movimiento13deabril.blogcindario.com/2005/10/00051-declaracion-del-cacique-guaicaipuro-cuactemoc-atahualpa-lautaro.html
Uma demonstração de que não passa de uma lenda, ainda que uma bela história se encontra aqui
http://www.quatrocantos.com/LENDAS/110_guaicaipuro_cuatemoc.htm

No site acima você vai ver uma lindíssima e cruel pintura, o cacique sendo torturado pelo “descobridor” cortez, que, como diz o autor da página, nada tinha de cortez e muito menos corajoso uma vez que tortura o cacique devidamente amarrado, como fazem todos os torturadores.

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